E o Vento Levou

09/05/2005 | Categoria: Críticas

Edição de colecionador restaura e explica épico clássico de Hollywood em quatro discos minuciosos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Tentativas de explicar o avassalador sucesso de “E o Vento Levou” (Gone With the Wind, EUA, 1939) são bem-vindas, mas pouco produtivas. Trata-se do filme mais visto na história do cinema. Esqueça “Titanic” ou “Star Wars”. Se os valores de arrecadação de bilheteria fossem atualizados levando-se em conta a inflação, “E o Vento Levou” estaria em primeiro lugar na lista dos filmes mais ricos de todos os tempos, com certa folga. E, se estar numa lista dessas não é garantia de qualidade, o filme está aí para ser visto, como uma esfinge: afinal, qual o segredo de “E o Vento Levou”?

A resposta provavelmente passa pelas mulheres. São elas as responsáveis pela sobrevivência desse épico que é um dos maiores – talvez o maior – exemplo do poder de um produtor em Hollywood. Se duvida, faça um teste: pergunte a cinco caras e cinco meninas, de preferência cinéfilos de carteirinha, uma lista dos melhores filmes de todos os tempos. É provável que “E o Vento Levou” não esteja nas listas dos rapazes, mas é quase certo que baterá ponto nas listagens das garotas. “E o Vento Levou” continua atraente para as mulheres como poucos filmes. Foram elas que lotaram os cinemas para ver esse épico de quase quatro horas. Elas fizeram a diferença.

Claro que essa fascinação passa pela figura de Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), a protagonista da história de quase quatro horas que se passa em plena Guerra da Secessão, disputada entre o Norte e o Sul dos EUA, na década de 1860. Atrevida, traiçoeira, manipuladora, egoísta, vaidosa, Scarlett O’Hara é o pilar de uma família de sulistas que passa extrema dificuldade na hora da guerra. Capaz de casar três vezes sem amor e dar em cima do marido da melhor amiga, Melanie (Olivia de Havilland), durante anos a fio, a mulher é uma pessoa desagradável, mas fascinante; um anti-herói de saias, capaz de tudo – até matar – para manter a família, e a adorada fazenda Tara, sem passar dificuldades. Ou seja, ela faz intrigas e maldades, mas por uma boa causa.

O crítico Roger Ebert matou uma parte da charada ao dizer que o filme surgiu no momento certo para as mulheres. Em 1938, elas estavam prontas para iniciar a luta pela emancipação feminina, uma luta que dura até o século XXI (fato que talvez explique a permanência do filme). Scarlett O’Hara era admirada e venerada como uma espécie de deusa pagã. Afinal, que mulher de carne e osso seria capaz de expulsar o marido da cama por não querer ganhar peso com uma gravidez indesejada?

Analisado friamente, “E o Vento Levou” é um grande espetáculo para os olhos, mas também um melodrama muitas vezes exagerado. Na realidade, são quase dois filmes diferentes, separados por um interlúdio. A primeira parte, quase perfeita, flagra o apogeu e a decadência da família O’Hara. A adolescente mimada da abertura é bem diferente da mulher esfomeada e decidida que encerra a primeira metade com um impressionante juramento sobre jamais passar fome.

A segunda parte, mais lenta, busca o foco mais no movimento interno de nossa heroína, incluído suas paixões e o complicado relacionamento com o coronel Rhett Butler (Clark Gable), militar rico e oportunista que reconhece na garota um espelho da própria falta de caráter e se apaixona perdidamente. Os dois têm ótimos diálogos, recheados de ironia fina, mas nessa segunda parte há também largos trechos de melodrama raso, incluindo mortes trágicas desnecessárias e provações infinitas da índole inquebrantável da protagonista.

A película é uma impressionante demonstração de força de um produtor. David O. Selnick comprou a idéia do filme e o financiou sozinho, sem a ajuda de estúdios (a MGM fez a distribuição em troca de ceder o astro Clark Gable para o filme). Tirânico, Selnick mudou quatro vezes de diretor. Passaram pelos sets George Cukor (demitido por ser gay, mas que continuou ensaiando secretamente com as duas mulheres protagonistas), Victor Fleming (que acabou creditado sozinho e ganhou o Oscar, mesmo tendo dirigido menos da metade do longa), Sam Wood e William Cameron Menzies.

Selznick fez miséria para conseguir o visual arrebatador que desejava. Comprou cenários de filmes antigos, como “King Kong”, e mandou tocar fogo para simular em estúdio o incêndio de Atlanta. Construiu uma rampa de concreto para possibilitar uma tomada “aérea” de uma ferrovia ocupada por centenas de homens mortos e feridos (uma cena que continua de cair o queixo, majestosa e impressionante). Bancou a contratação da desconhecida Vivien Leigh, que ainda por cima era inglesa, para interpretar a sulista arrogante e durona que protagoniza a história. Por fim, ainda montou o filme sozinho, dispensando a ajuda dos diretores. Um mestre.

O resultado final pode parecer um tanto lento para os padrões do século XXI. “E o Vento Levou” lembra demais o estilo de uma novela de TV, e não é para menos: é neste filme que virtualmente todos os autores e diretores vão buscar inspiração para suas tramas melodramáticas. As atuações, não há dúvida, são sempre teatrais, exageradas. Deve-se compreender, no entanto, que este era o estilo da época. Atores mais naturalistas e contidos só viraram maioria após o surgimento de Marlon Brando, quase duas décadas depois. Ver esses detalhes como defeitos, contudo, é não saber interpretar o cinema historicamente.

Os cinéfilos brasileiros têm acesso a uma edição especial de dar água na boca. A chamada Edição de Colecionador contém, em quatro discos, o filme remasterizado e mais de oito horas de material extra. Para começar, nos discos 1 e 2 há um comentário em áudio do historiador Rudy Behlmer (legendado em português), um especialista no filme. A imagem (no formato original fullscreen, ou 4×3) e o áudio (formato Dolby Digital 5.1) passaram por uma reforma completa. Há uma trilha de áudio dublada em português, para quem preferir. Já os discos 3 e 4 possuem exclusivamente bônus, que incluem seis documentários completos, material de arquivo e muito mais.

O disco 3 tem o melhor extra, um documentário de 124 minutos que cobre todo o processo de produção do longa-metragem, incluindo testes com atrizes famosas e muito mais. Um documentário antigo dirigido por Fred Zimmerman (do clássico faroeste “Matar ou Morrer”), de 11 minutos, explica as condições históricas que levaram à Guerra da Secessão. Um pequeno documentário (17 minutos) enfoca o processo de restauração da película para o DVD. Há ainda cinco trailers, um prólogo (1 minuto) usado para exibições do filme fora dos EUA, e trechos (4 minutos) de cenas de arquivo sobre a estréia do filme em Atlanta (EUA), cidade onde a ação se passa.

O disco 4 é dedicado ao elenco. Há um documentário sobre Gable (60 minutos), outro sobre Vivien Leigh (46 minutos) e uma longa entrevista com Olivia de Havilland (38 minutos). Por fim, uma grande galeria de featurettes, durando entre 1 e 4 minutos cada um, cobre as carreiras das dezenas de atores coadjuvantes do longa-metragem. O último bônus não tem nada a ver com os discos é uma delícia: um livreto de 20 páginas que simula um release do lançamento do filme na época da estréia nos cinemas. Um pacote impecável. Mas cuidado: a primeira versão lançada pela Warner, em apenas um disco, não tem extras e nem dublagem em português.

– E o Vento Levou (Gone With the Wind, EUA, 1939)
Direção: Victor Fleming
Elenco: Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard
Duração: 222 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


4 comentários
Comente! »