E Se Fosse Verdade

03/05/2006 | Categoria: Críticas

Comédia bobinha e agradável mistura ‘A Garota do Adeus’ com ‘O Sexto Sentido’ e agrada por causa da química entre os atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A receita ideal para uma boa comédia romântica é muito simples: um casal de atores que tenha aparência comum e alguma empatia, um cenário que evoque romance e uma situação implausível que a platéia aceite alegremente como possível, já que se trata de uma ficção. Nada disso funciona, contudo, se por trás das aparências não existir um roteiro que maquie com habilidade os clichês inevitáveis do gênero. É exatamente por causa desse último ingrediente que “E Se Fosse Verdade” (Just Like Heaven, EUA, 2005) funciona. Talvez seja a comédia bobinha mais agradável para casais da temporada de verão brasileira de 2005.

O filme se passa na cidade grande mais charmosa e acolhedora da costa oeste dos EUA: San Francisco. O apartamento disputado pelo casal em questão – o paisagista David (Mark Ruffalo) e a médica Elizabeth (Reese Whiterspoon) – possui uma vista belíssima para o mar que banha a cidade e para a lendária ponte alaranjada que a corta, a Golden Gate. De quebra, o telhado é um espaço privativo cuja vista descortina toda a cidade (que, com suas ladeiras floridas e bondinhos, lembra um pouco Olinda, ou Lisboa). Resumindo: o cenário é um cartão postal perfeito para um filme sobre se apaixonar.

A situação implausível que os une é mesmo inusitada. David acaba de se mudar para o belo apartamento, onde pretende curtir uma fossa. No nada, começa a ser surpreendido pelo surgimento repentino de Elizabeth, reivindicando o local como sua própria morada. Logo ambos percebem que ela tem algumas características curiosas: atravessa paredes sem perceber, e não consegue travar contato físico com nenhum objeto. Além disso, o rapaz é a única pessoa que consegue vê-la. A conclusão óbvia diz que Elizabeth é um fantasma, e David então decide ajudá-la a descobrir o que diabos aconteceu com ela.

Um dos grandes acertos do filme é a escalação dos dois protagonistas. Whiterspoon já mostrou em outros projetos que tem talento e personalidade, embora lhe falte no currículo um grande filme que apague a imagem de garota mimada e atriz limitada. Ruffalo, menos conhecido e mais eclético, tem um rosto mais comum e isso lhe ajuda a compor um David perfeito, um sujeito tímido e confuso cujo único desejo é arrumar um sofá confortável que lhe possibilite beber cerveja e ver TV até esquecer a finada esposa.

A cola que une todas essas pontas é o texto correto de Peter Tolan e Leslie Dixon, que manipula com equilíbrio e bom gosto os elementos tradicionais desse tipo de filme – há, por exemplo, a galeria tradicional de coadjuvantes cômicos, como o rapaz da livraria que tem poderes mediúnicos (Jon Heder) e o amigo que tenta livrar David do celibato (Donal Loque). A diferença é que eles escrevem bons diálogos, e a química existente entre os dois interpretes permite que essas falas soem sinceras e agradáveis.

O melhor momento do filme é o miolo, o segundo ato, que concentra a investigação de David e Elizabeth sobre o que ocorreu com ela. É a parte que consegue tirar o resultado final do marasmo, inserindo um senso de humor dinâmico dentro da narrativa, através de boas cenas inesperadas e citações inteligentes a outros filmes. A seqüência que se passa em um restaurante e mostra o casal salvando a vida de um cliente, por exemplo, é bem interessante (“eu posso ser uma vagabunda, mas salvo vidas!”); e a piada que cita uma das frases mais marcantes de “O Exorcista” funciona perfeitamente.

Por outro lado, a construção dos personagens é um problema. Nesse sentido, “E Se Fosse Verdade” não tem muita sutileza, praticamente montando duas peças de Lego que, qualquer espectador vai perceber, encaixam perfeitamente. Em outras palavras, o filme insiste desde o começo, muitas vezes de maneira agressiva, que os dois foram feitos um para o outro, inclusive sugerindo em alguns momentos a atuação de alguma força sobrenatural para provocar o encontro entre ambos. Filmes excessivamente sinalizados, como este, são piores do que o normal porque induzem um comportamento passivo do espectador, que não participa dinamicamente da ação e não é obrigado a exercitar o raciocínio em nenhum momento.

Uma curiosidade interessante é que há por aí uma certa tendência de pôr “E Se Fosse Verdade” ao lado de “Ghost”, romance sobrenatural que fez incrível sucesso no Brasil e passou quase um ano em cartaz nos cinemas do Recife. Mas a comparação não é bem por aí. A premissa adotada pelo longa-metragem na verdade vem de outra comédia romântica, a clássica “A Garota do Adeus” (que deu o Oscar ao ator Richard Dreyfuss em 1977), emprestando alguns elementos do suspense “O Sexto Sentido”. Mas dá para dizer, sem medo de errar, que o público que curtiu “Ghost” deve ficar bastante satisfeito com “E Se Fosse Verdade”.

O DVD é da Universal. É um disco simples, mas bacana. Preserva o formato original da imagem (widescreen anamórfico 1.85:1), tem som OK (Dolby Digital 5.1) e um punhado de extras: making of, conversa com os atores, cenas cortadas e erros de gravação.

– E Se Fosse Verdade (Just Like Heaven, EUA, 2005)
Direção: Mark Waters
Elenco: Reese Whiterspoon, Mark Ruffalo, Donal Loque, Jon Heder
Duração: 95 minutos

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