E Sua Mãe Também

23/08/2006 | Categoria: Críticas

Filme mexicano é bem-vindo drama adolescente cheio de sexo, mas sem culpa e cheio de energia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Filmes sobre adolescentes quase nunca provocam algum tipo de resposta emocional em pessoas adultas, especialmente se forem produzidos nos Estados Unidos. Por lá, esse tipo de produção repisa sempre a mesma história, mostrando um bando de garotos feiosos sedentos por sexo. “E Sua Mãe Também” (Y Tu Mama También, México, 2001), ainda bem, não é norte-americano – e talvez por isso seja tão refrescante. Curiosamente, também versa sobre dois rapazes que só querem transar, mas a abordagem do cineasta Alfonso Cuarón faz toda a diferença, e o transforma em um filme maravilhoso. Trata-se do tipo de obra que provoca identificação imediata entre os mais jovens, e traz uma bem-vinda sensação de nostalgia gostosa para adultos.

Em termos de gênero, “E Sua Mãe Também” poderia ser descrito brevemente um dos melhores filme de adolescentes já produzidos. Não é exagero. O título não tem nada a ver com as contrapartes americanas que são produzidas a toque de caixa, a exemplo da série “American Pie” e congêneres. O diferencial, sem dúvida, é a mão do diretor, que trata a sexualidade – basicamente, o norte que guia qualquer adolescente normal – sem o menor traço de culpa ou repressão, e com doses cavalares de energia e honestidade.

O filme cozinha firmemente, no mesmo pote, temas como sexualidade, juventude, amizade e globalização, e a receita jamais perde o ponto. Não há gorduras narrativas. “E Sua Mãe Também” é uma pequena pérola perfeita, o tipo de filme que a gente assiste de olhos bem abertos, vidrados, sem pensar em ir ao banheiro, sem olhar para o relógio, apenas desfrutando do aqui e do agora, exatamente como fazem os personagens. E isso tudo é muito, muito bom.

Os dois personagens principais são melhores amigos. Julio (Gael Garcia Bernal) e Tenoch (Diego Luna) têm 17 anos e ficam sozinhos durante as férias, depois que as respectivas namoradas viajam para a Itália em intercâmbio. São dois rapazes normalíssimos para a idade, inseparáveis, que vêem diversão (e sexo, claro!) em tudo. Tomam porres homéricos, se masturbam na piscina pública do clube local, sonham em transar o máximo possível durante as férias e passam cantadas em qualquer garota que esteja por perto. Uma delas é Luisa (Maribel Verdú), moça de 28 anos casada com um primo de Tenoch.

Em circunstâncias normais, Luisa jamais daria bola para qualquer um dos dois. Só que uma briga conjugal acaba fazendo a garota procura vingança, embarcando com a dupla em uma viagem para uma idílica (e inexistente) praia distante. A viagem funcionará para os rapazes como um belo rito de passagem à idade adulta. Cuarón filma a paisagem mexicana com honestidade comovente, indo da mansão luxuosa da família de Tenoch às pensões vagabundas de beira de estrada com o mesmo olhar despojado. Há um narrador onipresente que, às vezes, “congela” o tempo para fazer observações sobre as pessoas ou coisas com quem eles cruzam. São sempre observações inteligentes e curiosas.

Um dos truques de Alfonso Cuarón foi filmar tudo do ponto de vista dos rapazes, para quem Luisa se torna um mistério. Ela mostra curiosidade genuína a respeito dos dois, e fala com franqueza da própria vida, sempre com um sorriso no rosto. Mas à noite, quando está sozinha, os rapazes a vêem chorando no quarto. Eles não a entendem. Para os dois, é uma musa, mas uma musa disponível. Assim ela permanece também para nós, espectadores, e é isso que faz o final do filme, de certa maneira inesperado, funcionar tão bem. Veja por si mesmo e confirme.

Um dos grandes charmes da produção é a universalidade da história de Julio e Tenoch. Todo adolescente desta faixa etária já viveu experiências semelhantes: já fez viagens malucas com um carro arrebentado, já teve que dormir em um banco traseiro, já teve uma amizade inseparável (“somos a fraternidade dos charolaras”), já viveu o hoje com a sensação de que o amanhã está a dois anos de distância. “E Sua Mãe Também” captura essa atmosfera adolescente sem transparecer nenhum esforço cinematográfico. A química entre os atores é tão perfeita que nem parece um filme. A sensação é de que Cuarón apenas ligou a câmera e mandou os três irem brincar.

Para os brasileiros, o bônus é que a viagem para a praia mexicana descortina um cenário incrivelmente familiar. A seqüência em que Julio, Tenoch e Luisa dançam coladinhos num boteco à beira-mar, descalços sobre a areia fina, tomando cerveja e ouvindo música numa radiola de ficha, poderia ter acontecido aqui mesmo em Pernambuco, em Maracaípe ou Itamaracá. E, olha, acho que aconteceu mesmo. Que maravilha é a sensação de se ver num longa-metragem filmado em tempo e espaço completamente diferentes, não? Isso deve querer dizer alguma coisa sobre essa tal de globalização, mas nesse caso, acredite, é melhor nem pensar. Prefira se deixar levar. Somente isso.

O DVD da Fox é simples e traz apenas um comentário em áudio do diretor (sem legendas) como extra, além do trailer obrigatório. Em compensação, mantém o enquadramento original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e tem som OK (Dolby Digital 5.1).

– E Sua Mãe Também (Y Tu Mama También, México, 2001)
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Diego Luna, Gael Garcia Bernal, Maribel Verdú
Duração: 105 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »