Eclipse Mortal

09/01/2005 | Categoria: Críticas

Ficção científica transforma Vin Diesel em astro com soluções visuais criativas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Depois de estrelar “Eclipse Mortal” (Pitch Black, EUA, 2000), o ator Vin Deisel começou a ser chamado de expressões como “o novo Arnold Schwarzenegger”, conquistando o status de astro da turma adolescente, em especial nos Estados Unidos. O filme, uma pequena produção B filmada na Austrália e com efeitos especiais de segunda categoria, adquiriu também uma certa aura de cult. São dois exageros. Diesel não tem um décimo do carisma do ex-fisiculturista austríaco, e “Eclipse Mortal” não ultrapassa a definição de aventura eficiente com algumas soluções visuais criativas.

Considerando o estado de coisas na Hollywood do começo do século XXI, este pode ser um elogio incomum. O filme, no entanto, carece de originalidade. Ele tem inspiração evidente em “Alien” (observe o design das criaturas alienígenas e diga se não parece demais com a criação de H.R. Giger), principalmente porque não é uma ficção científica clássica, e sim uma aventura, com toques de terror, só que passada no espaço sideral, em algum ponto de um futuro que parece bem distante.

“Eclipse Mortal” abre com uma seqüência desanimadora: uma enorme nave espacial viajando no meio das estrelas. “2001”, de Kubrick, estabeleceu o parâmetro deste tipo de cena, e o “Guerra nas Estrelas” original, de 1977, elevou esse parâmetro a um patamar definitivo. Não existe forma de melhorar o que já era perfeito. Má escolha do diretor David Twohy.

O enredo é muito simples. O cargueiro leva 40 pessoas, congeladas criogenicamente, para um planeta distante (40 semanas de viagem à velocidade da luz). Um acidente, porém, mata o capitão e derruba a nava em um planeta desconhecido, mas muito parecido com a Terra. Uma parte dos passageiros sobrevive ao desastre e descobre que a atmosfera do planeta é bem semelhante à Terra. A diferença é que o planeta é iluminado por três sóis, o que garante luz do dia o tempo inteiro. Isso é ótimo, considerado que os rapazes logo descobrem uma raça de criaturas canibais vivendo nos subterrâneos do lugar, pois são sensíveis à luz.

O problema começa a seguir. Eles descobrem uma base humana abandonada, e logo ficam sabendo que um eclipse vai acontecer dentro de poucas horas, o que deixará as criaturas alienígenas livres para caçar. A única possibilidade de sobrevivência parece ser o prisioneiro Richard Riddick (Diesel), um brutamontes assassino que estava sendo levado a uma prisão espacial no mesmo vôo. Riddick tem uma curiosa característica física que lhe dá certa vantagem naquele ambiente: por ter vivido metade da vida em uma solitária, ele consegue ver no escuro.

Estabelecidas as tensões com que a história vai lidar, o filme segue fielmente a cartilha de Hollywood. A comitiva de terráqueos vai sendo dizimada aos poucos, enquanto eles tentam recarregar uma nave no planeta para escapar da armadilha alienígena. Há tensões internas evidentes (entre Riddick e um policial; entre os dois e a comandante Fry, interpretada por Radha Mitchell) que precisam ser sublimadas, para o bem do coletivo. A história de “Eclipse Mortal” não passa, na verdade, de uma nova reorganização de velhos clichês do filme de aventura.

O ponto positivo do filme é mesmo o visual estilizado e a direção cheia de efeitos virtuosos. David Twohy manipula as imagens com criatividade. A primeira metade do filme, que mostra os personagens torrando sob os sóis, é composta por tomadas repletas de luz estourada, o que dá um curioso aspecto granulado às imagens. De um lado do planeta, o sol é amarelo; do outro, azulado. Essa “dica” ajuda a platéia a ficar mais consciente da geografia do lugar.

Na segunda metade, a maior ousadia de “Eclipse Mortal”: um filme mergulhado na escuridão. Iluminados apenas por lanternas e maçaricos, os personagens caminham no escuro por longos minutos, às vezes aterrorizados pelos silvos mecânicos das criaturas canibais. A ousadia maior, aqui, foi fazer o filme de forma que o espectador quase nunca vê o que está acontecendo; ele só pode intuir, a partir dos sons e dos fragmentos de imagens nítidas que aparecem, por um segundo ou dois. Manter mais de 40 minutos de filme assim é uma opção estética arrojada.

Talvez com medo da receptividade da platéia a essa pequena ousadia, Twohy providencia câmeras subjetivas para o olhar das criaturas (uma bruma cinzenta com que se pode delinear as figuras dos humanos) e para Riddick (as silhuetas vêem tudo em tons rosa, amarelos e azuis). Tudo isso dá ao filme um visual bem diferente, o que em parte pode explicar o charme B que seduziu platéias no mundo inteiro e provocou uma continuação, centrada no personagem Riddick.

O DVD especial foi produzido para servir como uma espécie de trailer de luxo para o segundo filme. Imagens em formato widescreen e trilha Dolby Digital 5.1 Surround são acompanhadas por comentários do diretor (numa trilha com Vin Diesel e Cole Hauser, noutra com o produtor Tom Engelman e o técnico em efeitos visuais Peter Chiang) e vários featurettes (documentários e making of, todos girando em torno de 5 minutos).

– Eclipse Mortal (Pitch Black, EUA, 2000)
Direção: David Twohy
Elenco: Vin Diesel, Radha Mitchell, Cole Hauser, Keith David
Duração: 110 minutos

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