Edifício Master

18/02/2005 | Categoria: Críticas

Documentário dá voz a moradores ‘invisíveis’ que narram histórias de vida riquíssimas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Eduardo Coutinho é o maior documentarista do Brasil. Ponto. Uma afirmação ousada, mas verdadeira. Em um país com pouca ou nenhuma tradição no gênero menos nobre de longa-metragem, o jornalista vem militando no filão desde os anos 1960. “Edifício Máster” (Brasil, 2002) é um dos seus melhores trabalhos, e talvez um dos mais conhecidos, pois chegou a ganhar carreira razoável nos cinemas dos circuitos alternativos brasileiros, algo raro de ocorrer com um documentário. O sucesso é merecido: “Edifício Master” é uma espécie de antiépico humanista emocionante.

Coutinho ficou famoso no Brasil (pelo menos dentro dos círculos cinéfilos) por duas razões distintas. Primeiro, por ter uma carreira estreitamente vinculada à televisão, já que foi diretor do programa Globo Repórter durante quase 20 anos. Segundo, por ter dirigido “Cabra Marcado Para Morrer”, o mais famoso longa-metragem brasileiro do gênero documental. O filme, iniciado em 1970, deveria capturar a vida de um homem perseguido pela ditadura militar, mas o Exército interveio e interrompeu a produção por 17 anos. A experiência de censura tornou o filme muito conhecido no exterior e transformou definitivamente Coutinho, um jornalista de TV, em cineasta.

“Edifício Master” não tem nenhuma relação, em forma ou conteúdo, com o filme que tornou Coutinho conhecido. O filme soa, isso sim, como continuação lógica dos filmes imediatamente anteriores da cinematografia de Eduardo, como “Babilônia 2000”. Ou seja, há nele nenhum tipo de conteúdo político. O projeto de Eduardo Coutinho é humanista, quase antropológico: dar voz àqueles habitantes da cidade grande que não têm nenhuma possibilidade de falar. Dar visibilidade a quem caminha pelas avenidas das metrópoles sem chance de ser visto. “Edifício Master” faz isso com propriedade.

O título do filme define também o seu conteúdo. Trata-se de um documentário sobre o Edifício Master, um aglomerado de 276 apartamentos distribuídos em 12 andares. É um prédio de classe média baixa, onde moram cerca de 500 pessoas, com localização curiosa: a avenida Atlântica, beira-mar e cartão postal do Brasil. O bairro, outrora chique e glamouroso, atualmente é uma das vizinhanças mais decadentes e violentas do Rio de Janeiro. Moradores do Recife vão lembrar-se imediatamente do edifício Holiday, o correspondente pernambucano do lugar.

Eduardo Coutinho se mudou, com a equipe, para um dos apartamentos do edifício durante algumas semanas. Lá, eles conseguiram convencer 37 moradores a abrir suas portas e dar depoimentos sobre suas vidas, com as câmeras ligadas. O documentário é precisamente isso: uma sucessão de entrevistas de pessoas que contam os percursos de suas vidas. Não há narração em off. O documentário não tem o estilo jornalístico que as pessoas se acostumam a esperar de um filme do gênero. A única coisa que liga todos os depoimentos é a geografia: estes são os moradores do Edifício Master. O estilo de Coutinho, de se intrometer o mínimo possível, lembra muito o de Errol Morris.

Onde está a mágica de um filme deste tipo, você pode perguntar. Resposta: nas riquíssimas experiências de vida que Eduardo Coutinho ousou reunir. Os moradores, quase todos eles, vivem acuados pela solidão, perdidos nas ruas de uma metrópole suja, pobre e barulhenta. Alguns conseguem criar para si redomas contra a violência – literal ou metafórica – do mundo exterior. Outras parecem sufocadas pelo peso do passado. Algumas histórias entristecem. Outras emocionam. Algumas fazem rir, outras dão vontade de chorar. Todas mexem com o espectador.

Alguns depoimentos são tão impressionantes que a edição os privilegia. Há uma garota mineira na casa dos 20 anos que virou garota de programa, que narra a alegria incontida que sentiu quando, após fazer um programa pela primeira vez, pode ir a uma lanchonete McDonald’s e gastar R$ 150 com comida para ela e o filho pequeno. Em outro momento, um senhor aposentado, que usa uma patética peruca quase escorregando pela careca, alega timidez, mas dá um depoimento emocionado sobre o chefe do trabalho que, certa vez, o liberou do trabalho por alguns dias para que ele pudesse ir visitar a mãe.

Outro aposentado lembra, com lágrimas nos olhos, da noite em que Frank Sinatra o chamou para o palco, a fim de cantar o clássico “My Way”, em um cassino de Boston – e ele então põe o disco para tocar e canta, gritando até quase perder a voz, a música em questão. Outra entrevistada é uma garota magra e tímida, que alega não poder olhar para a câmera porque tem vergonha, e acaba revelando um distúrbio comportamental sério, afirmando que não tem coragem de usar os elevadores quando qualquer outro vizinho está dentro.

São histórias humanas emocionantes. Essas pessoas estão vivas, são de carne e osso. O filme de Eduardo Coutinho é uma tapa da cara da classe média, que transforma essas pessoas em seres invisíveis, ao negar-lhes o direito a voz e, por conseqüência, o direito à própria cidadania. Sem ser político, apenas com uma câmera e um microfone, Eduardo Coutinho examina a condição humana com um carinho insuspeito e acaba de tornando político, pois revela uma verdade implacável: ninguém existe de verdade sem ter uma voz, e somente aqueles que moram bem, ou têm dinheiro, possuem uma.

O DVD duplo, da Vídeo Filmes, tem áudio Dolby Digital 2.0, tela cheia (formato original) e comentário em áudio com o diretor, mais Walter Lima Jr. e a produtora Consuelo Lins. Uma opção especial interessante permite que o espectador veja o filme em uma ordem aleatória das entrevistas. No disco 2, o melhor extra: 18 entrevistas (mais de duas horas) de pré-seleção feitas com personagens que acabaram dentro do corte final do filme.

– Edifício Master (Brasil, 2002)
Direção: Eduardo Coutinho
Documentário
Duração: 110 minutos

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