Submundo

30/10/2008 | Categoria: Críticas

Filme cru, direto e despojado documenta incursão de executivo pelo submundo da prostituição de uma metrópole

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“ Submundo” (Edmond, EUA, 2005) é a história de um rico executivo que, de saco cheio com a vida vazia e de plástico que leva, embarca numa noite de loucuras pelo submundo da prostituição, na metrópole onde mora. Tanto o tema (a insatisfação com as amarras sociais que nos prendem a cotidianos de sorrisos amarelos e falsos prazeres) quanto a abordagem agressiva (um grande “foda-se” para tudo isso) têm se tornado bastante comuns na cinematografia norte-americana contemporânea, o que pode ser confirmado em filmes como “De Olhos Bem Fechados” (1999), “Clube da Luta” (1999) e “Um Dia de Fúria” (1993). Estes filmes reagem às mazelas de nosso tempo com violência.

Todos os três títulos acima citados apresentam semelhança óbvia com o longa-metragem de Stuart Gordon. O nome do diretor de “ Submundo”, aliás, é uma das grandes surpresas da produção, que representa uma fuga radical da rotina para Gordon. O cineasta é um veterano conhecido apenas pela turma que curte cinema de horror B e ficção científica. Ele carrega o rótulo de diretor que mais adaptou os escritos de H.P. Lovecraft para o cinema. No entanto, a presença dele no projeto se deve à amizade antiga com o roteirista David Mamet, já que foram colegas de faculdade e nunca perderam contato.

Mamet é a eminência parda por trás do projeto, que adapta uma peça de sucesso escrita por ele (na versão mais famosa, encenada nos palcos de Londres, o protagonista foi interpretado pelo ator Kenneth Branagh). Com o prestígio que possui na indústria cinematográfica, o roteirista conseguiu reunir um elenco de peso, a maioria aparecendo em pontas rápidas: as beldades Julia Stiles, Denise Richards, Bai Ling, Mena Suvari e Rebecca Pidgeon – com exceção da última, que é casada com Mamet e interpreta a esposa do executivo, as outras fazem garotas com quem Edmond cruza na sua incursão noturna pelo submundo.

“ Submundo” despreza qualquer tipo de metáfora e vai direto ao ponto. Em uma narrativa crua, direta e despojada, inicia com uma passagem curiosa do protagonista pela tenda de uma vidente, depois do expediente. A velha senhora diz a Edmond (William W. Macy) que ele está no lugar errado, e deve fazer algo para mudar a própria vida. As cartas do tarô parecem retirar o executivo do transe em que se encontra. Ao chegar em casa, ele diz à mulher que não a ama mais e que está de saco cheio. Na seqüência, vai para a rua, a fim de encher a cara e encontrar uma prostituta para se esbaldar. Não está a fim de cortejar ninguém, não tem mais paciência para isso.

O filme narra esta espécie de safári noturno documentando os encontros cada vez mais bizarros que Edmond vai vivendo com a fauna de prostitutas, gigolôs e traficantes que habitam as ruas da cidade. Munido de um senso agudo e vertiginoso de ação e urgência, a narrativa põe o protagonista em uma orgia de bebida, sexo e sangue, com a noite terminando de modo absolutamente imprevisível. Sabe “De Olhos Bem Fechados”, o elegante estudo de Kubrick sobre o ciúme? Pois “ Submundo” soa mais ou menos como se a mesma história tivesse sido dirigida por um estivador – nada de sutilezas, apenas suor e sangue. Não é um filme inesquecível, mas funciona perfeitamente para soltar os demônios presos dentro de alguns membros da platéia.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Imagem Filmes, depois de ser exibido no Festival de Cinema do Rio em 2005. O DVD norte-americano é simples e contém o filme (com imagens em formato widescreen e som Dolby Digital 5.1), cenas cortadas e um pequeno documentário.

– Submundo (Edmond, EUA, 2005)
Direção: Stuart Gordon
Elenco: William W. Macy, Julia Stiles, Bai Ling, Denise Richards
Duração: 76 minutos

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