Edukators

17/05/2005 | Categoria: Críticas

Filme alemão atinge público jovem em cheio com trama imprevisível sobre utopia e revolução

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O filme alemão “Edukators” (Die Fetten Jahre Sind Vorbei, Alemanha/Áustria, 2004) é um drama jovem. Em tese, essa definição não deveria significar nada, pois não estamos falando de um gênero ou subgênero do cinema. Na prática, a história é outra. A palavra “jovem” tem extrema importância porque identifica a platéia que o filme deseja atingir. Para tanto, um longa-metragem precisa manipular elementos formais (fotografia, trilha sonora) e narrativos (diálogos, roteiro), de forma que aproxime a realidade dos personagens na tela da realidade das pessoas fora dela.

“Edukators” realiza essa operação de forma limpa, fácil, quase sem esforço. Esta é o típico caso em que a palavra “jovem” poderia ter sido substituída por “desleixada”. O cineasta Hans Weingartner trata todos os elementos que compõem o filme assim, de maneira absolutamente desleixada, espontânea, como se eles não tivessem importância no resultado final. O que lhe interessa é a mensagem do filme, não o filme em si. Um equivalente mais mainstream desse tipo de trabalho seria a obra de Kevin Smith (“Procura-se Amy”, ou “O Balconista”, em especial). Em outros tempos, isso talvez fosse considerado um defeito. Não em 2004. Se a gente pudesse falar que “Edukators” foi feito assim por opção estética consciente, seria um grande triunfo do cinema jovem.

Só que não se pode falar em opção estética. Há, aqui, provavelmente um problema financeiro antes de tudo. Weingartnet simplesmente tinha um orçamento ridiculamente pequeno e preferiu rodar o longa-metragem como se filmasse uma festa de casamento, sem atentar para a parte visual. A película é 100% digital, a iluminação é amadora, a câmera fica na mão do cinegrafista o tempo inteiro, e não existe nenhuma preocupação com enquadramentos ou posicionamento de câmera. De fato, é impressionante que um filme como “Edukators” tenha conseguido distribuição internacional. Longas amadores tão displicentes costumam ficar relegados aos festivais.

Por que isso não aconteceu dessa vez? Simples: porque o filme é bom. Porque tem uma identificação magnética, quase instantânea, com os jovens na platéia. Basta dar uma olhada na trama para perceber isso. Jan (Daniel Brühl) e Peter (Stipe Erceg) são dos jovens de classe média que vivem em Berlim e invadem mansões na metrópole, à noite. Eles não são ladrões; se denominam “Os Educadores”. Dentro das casas, desarrumam os móveis e deixam bilhetes zombeteiros, com frases do tipo “Seus dias de fartura estão contados”, mas não levam nada. Os dois são rapazes íntegros. As invasões são a forma encontrada para desafiar o sistema capitalista e iniciar uma espécie de revolução silenciosa. Jule (Julia Jentsch) é a namorada de Peter.

O filme tem uma questão central que norteia todo o desenrolar da trama: nos dias de hoje, em pleno século XXI, é possível fazer uma revolução contra o capitalismo? Ou será que todo e qualquer tipo de revolução já se esvazia em si mesmo, e portanto é uma utopia? Jovens universitários em especial são mais sensíveis a essa temática do que os demais, mas a própria energia da juventude faz com que o tema seja importante demais para qualquer um com 20 e poucos anos. Quando ele é embalado em uma trama ágil, fica irresistível. É isso: “Edukators” captura essa sensação de utopia juvenil, bem como o sentimento de que quando se é jovem tudo permitido, e discute os conceitos de forma inteligente. Além disso, “Edukators” também é um filme romântico, e não apenas no sentido sexual.

Em termos de estética, o longa alemão lembra bastante “Violência Gratuita”, de Michael Haneke, com sua luz esmaecida e câmera tremida. Já do ponto de vista de temática, espectadores que acompanham o cinema europeu podem lembrar de “Albergue Espanhol”, outro filme jovem que discute temas contemporâneos, como a globalização, e termina com uma canção tristemente nostálgica (no caso aqui, “Hallelujah”, na voz de Jeff Buckley). É interessante notar, também, uma certa proximidade entre “Edukators” e o filme de Bernardo Bertolucci, “Os Sonhadores”, que também se passa na Europa, envolve as vidas de três jovens e discute a revolução tão desejada pela juventude.

“Edukators” tem pontos negativos e positivos que o diferenciam desses três ótimos filmes. No lado bom, tem uma trama imprevisível, que não pára de surpreender o espectador. Faça um exercício: em qualquer momento do filme, tente adivinhar o que virá a seguir. Você verá que é quase impossível antecipar em que direção “Edukators” está indo. Isso é um dado muito positivo, já que na maior parte dos filmes de Hollywood a platéia pressente o final de um longa-metragem muito antes de ele acontecer.

Por outro lado, a falta de cuidado com a parte técnica do filme muitas vezes incomoda. Preste atenção no som, por exemplo, da primeira parte do filme, que se passa toda em Berlim. A vida em uma metrópole é repleta de ruídos de fundo: trânsito, buzinas, conversas em segundo plano (assista aos filmes de David Fincher para exemplos perfeitos dessa afirmação). Em “Edukators”, o público ouve muito bem os diálogos, mas em segundo plano existe apenas o nada, o vazio, como se a ação estivesse ocorrendo dentro de um mosteiro budista e não numa das maiores e mais barulhentas cidades da Europa. É o tal do desleixo citado no começo do texto. Por sorte, até isso funciona a favor do filme. “Edukators” não é obra-prima, mas tem qualidade e revela um cineasta promissor.

O lançamento brasileiro em DVD é do selo Vídeo Filmes. O formato original widescreen é respeitado, mas o áudio chega apenas em alemão Dolby Digital 2.0. Há uma trilha dublada em português, mas nada de material extra de bastidores.

– Edukators (Die Fetten Jahre sind vorbei, Alemanha/Áustria, 2004)
Direção: Hans Weingartner
Elenco: Daniel Brühl, Julia Jentsch, Stipe Erceg, Burghart Klaussnet
Duração: 127 minutos

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