Efeito Borboleta

15/11/2004 | Categoria: Críticas

Mistura de teoria matemática com viagens no tempo gera diversão inteligente com final decepcionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um filme de ficção científica sem raios lasers, alienígenas, viagens espaciais ou mesmo computadores. Quem imaginava que isso é impossível deve assistir a “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect, EUA, 2003). Na verdade, a primeira incursão do astro juvenil Ashton Kutcher fora do terreno da comédia é um filme entre-gêneros (meio suspense, talvez aventura, certamente ficção científica), sem uma identidade bem definida. Isso certamente prejudicou a carreira do longa-metragem nos cinemas, o que é uma pena. Embora tenha alguns defeitos, “Efeito Borboleta” está longe de ser ruim.

Já há algum tempo que a Teoria do Caos, um ramo científico relativamente novo que tem vertentes estudadas pela Física e pela Matemática, vem intrigando e inspirando cineastas de diferentes tendências. Existe um provérbio popular que exemplifica com rara simplicidade o complexo conjunto de equações sobre o caos: se uma borboleta bate as asas na China, pode desencadear um processo de ações que provocaria, uma semana mais tarde, um furacão em Nova Iorque. Ou não.

Os cientistas que estudam o fenômeno dizem que, regra geral, isso é verdade. Peguemos, por exemplo, o estudo de um evento meteorológico. Se esse evento for duplicado no computador, apenas com uma minúscula mudança no ponto de partida, essa modificação vai se multiplicar em escala geométrica e gerar, depois de algum tempo, dois eventos completamente diferentes.

O francês Alain Resnais propôs um exercício divertido sobre o tema nos filmes “Smoking” e “No Smoking”, em que dois filmes partem do mesmo início – uma dona-de-casa decidindo se fuma ou não um cigarro – e terminam de maneira inteiramente diversa. “Corra Lola Corra”, do alemão Tom Tykwer, também imagina três diferentes histórias partindo do mesmo começo, com uma diferença insignificante: um tropeção da protagonista.

“Efeito Borboleta” reúne elementos desses dois filmes e adiciona o item “viagens no tempo” à equação. Funciona, dessa maneira, como uma combinação do longa-metragem de Tykwer com o pequeno cult “Donnie Darko”, filme com que tem sido insistentemente comparado. Há semelhanças realmente óbvias: ambos são ambientados num universo adolescente, têm trilhas sonoras repletas de pérolas pop e, principalmente, constroem uma sensação envolvente de solidão e esquizofrenia que envolve o protagonista.

No filme, Evan Treborn é um jovem universitário que se recupera de uma infância traumática, repleta de lapsos de memória. Sem querer, ele descobre que tem o poder de voltar no tempo quando lê os diários e relembra determinadas passagens da infância. Quando faz isso, contudo, descobre que provoca alterações radicais no futuro dele e de amigos próximos de infância – em especial Kayleigh (Amy Smart), por quem foi apaixonado.

Dessa maneira, Evan inicia uma série de viagens no tempo que desencadeiam uma espiral de acontecimentos terríveis ou surpreendentes, à medida que vai conseguindo preencher os lapsos de memória que tanto preocuparam sua mãe (Melora Walters, de “Magnólia”) quando ele era menino. O filme consegue ser especialmente excitante durante essa seqüência de surpresas, já que os diretores, Eric Bress e J. Mackie Gruber, são hábeis o suficiente manter o suspense e ir revelando, aos poucos, detalhes obscuros a respeito de cada um dos personagens crianças.

Se existe algo realmente ruim no filme é o final, cujo tom sereno e agridoce destoa do clima angustiado, depressivo até, que acompanha o protagonista em quase toda a jornada. Ao preferir evitar ambigüidades (até poucos minutos antes do final, o espectador permanece sem saber se as viagens no tempo ocorrem realmente ou se são alucinações esquizofrênicas de uma mente perturbada), os cineastas causam decepção na platéia.

Talvez esse final hollywoodiano tradicional tenha permitido a produção do filme, já que o roteiro de “Efeito Borboleta” passou anos rodando pelos estúdios sem que ninguém tenha se animado em produzi-lo, até que o astro Kutcher topou com ele e assinou a produção executiva (basicamente, emprestou o prestígio do seu nome para conseguir que a película fosse bancada). De qualquer forma, é fato que essa concessão criativa impede que “Efeito Borboleta” desfrute do mesmo status cult de “Donnie Darko”. Mesmo assim, é um bom programa.

O DVD do filme tem dois pequenos documentários como maior destaque. O mais bacana enfoca as possibilidades reais, científicas mesmo, das viagens no tempo. É muito legal. Vale a pena.

– Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, EUA, 2003)
Direção: Eric Bress e J. Mackie Gruber
Elenco: Ashton Kutcher, Amy Smart, Melora Walters, Eric Stoltz
Duração: 112 minutos

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