Eleição

21/02/2006 | Categoria: Críticas

Comédia cruel e de humor ácido ironiza “sonho americano” dentro de escola secundarista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Alexander Payne construiu reputação como cineasta independente de olhar especialmente crítico sobre a América a partir do segundo trabalho como diretor: “Eleição” (Election, EUA, 1999). Por um equívoco do marketing que promoveu o longa-metragem, perfeitamente compreensível por sinal, a obra foi um retumbante fracasso de bilheteria. É que, por se tratar de um filme sobre o universo escolar norte-americano, “Eleição” foi vendido como comédia adolescente, quando não é. Ou melhor, é bem mais do que isso – trata-se de uma sátira demolidora sobre a classe média dos EUA, com humor mais ácido e inteligente do que a média.

Os dois personagens principais são professor e aluna de uma modorrenta cidadezinha. Ao contrário do que muitos poderiam esperar, contudo, não se trata de um filme sobre a paixão avassaladora de um homem mais velho por uma ninfeta. Bem ao contrário. Jim McAllister (Matthew Broderick), um dedicado e premiado professor de escola média no estado conservador do Nebraska (EUA), sofre de antipatia congênita por Tracy Flick (Reese Whiterspoon, indicado ao Globo de Ouro pelo papel). A aluna, ambiciosa e empreendedora ao extremo, é a única concorrente à eleição para o grêmio estudantil, cargo que ela claramente vê como um degrau a mais na sua escada particular para vencer na vida.

Payne a retrata como uma criatura mecanizada que persegue uma versão suburbana do “sonho americano” sem refletir sobre o que faz. Tracy é uma aluna estudiosa, quase perfeita, que em teoria deveria ser amada por Jim, um professor que valoriza os bons estudantes. Mas por algum motivo ele não a suporta. Tenta ignorá-la até mesmo quando faz uma pergunta à classe e ela é a única a saber a resposta, situação que incomodamente se repete com freqüência alarmante. Por causa dessa antipatia, Jim acaba estimulando o galã da escola, Paul (Chris Klein), a lançar uma candidatura alternativa ao grêmio, apenas para pôr uma pedra no caminho de Tracy. O filme atribui a antipatia ao decisivo papel da aluna na demissão de outro professor (Mark Harelik), um bom amigo de Jim. Mas o buraco é, na verdade, mais embaixo. Tracy e Jim são os dois lados dessa moeda chamada “sonho americano”.

Alexander Payne conduz o espetáculo dramático com humor afiado. A câmera adota a narração e o ponto de vista de Jim, pondo a platéia na posição de, também, antipatizar com Tracy – ela é perfeita demais, ambiciosa demais, irritante demais. A narrativa, porém, não poupa o próprio professor, enfocando-o como alguém impessoal, fútil e vazio, um fracassado de paletó e gravata. As cenas que mostram o relacionamento frio e quase assexuado com a esposa (Molly Hagan) são uma demonstração inequívoca do fracasso de Jim como homem, como pessoa. Ensinar é tudo o que lhe resta. E a decisão aparentemente boba de se colocar contra Tracy dentro da escola pode se revelar uma estratégia perigosamente suicida para alguém como ele.

Alexander Payne acerta duplamente na escalação do elenco: Reese Whiterspoon é uma atriz claramente mais talentosa do que fazem crer as comédias bobas que ela já protagonizou, e Matthew Broderick não só é bom ator como ainda traz, como bagagem para um público um pouco mais velho (digamos, na faixa dos 30 anos), a lembrança do seu personagem mais famoso, o estudante farrista Ferris Bueller, do clássico oitentista “Curtindo a Vida Adoidado”. Ao vê-lo enterrado na identidade de um professor secundarista anônimo, não dá para reprimir um pensamento que Payne certamente deve ter orquestrado com um quê de sadismo: “Então é nisso que se transforma um aluno gazeteiro quando cresce – um professor fracassado, exatamente aquilo que ele mais odiava?”. Muito bom.

Remando ao contrário da maré, “Eleição” não poupa seus personagens, revelando-se muitas vezes mais cruel com eles do que poderíamos imaginar. É justamente nesse ponto que “Eleição” se afasta de outra pérola independente que lida com o mesmo universo estudantil, o ótimo “Três é Demais”, de Wes Anderson, que ampara seu protagonista com indisfarçável carinho. Em resumo, “Eleição” é um filme inteligente que alfineta sem pudor, mas com elegância, a hipocrisia do “sonho americano”, e merece ser redescoberto pelo público que faria dos trabalhos posteriores de Payne (os bons “As Confissões de Schmidt” e “Sideways”) verdadeiros ícones do cinema independente dos EUA.

O DVD é da Paramount. Tem vídeo com enquadramento original (wide 2.35:1), som razoável (Dolby Digital 5.1, porém com fraca exploração dos canais traseiros) e apenas um comentário em áudio, sem legendas, do diretor.

– Eleição (Election, EUA, 1999)
Direção: Alexander Payne
Elenco: Matthew Broderick, Reese Whiterspoon, Chris Klein, Jessica Campbell
Duração: 103 minutos

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