Eleitos, Os

18/09/2006 | Categoria: Críticas

Retrato crítico da gênese da corrida espacial é filme com ótimos diálogos e grandes personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Algumas vezes, fatores externos ao filme interferem decisivamente na recepção que a platéia lhe dá. Não é raro que uma produção elogiada seja esquecida em poucos anos, ou que um fracasso de crítica e público acabe ganhando status de obra-prima algum tempo depois. “Os Eleitos” (The Right Stuff, EUA, 1983), que narra a gênese da corrida espacial nos EUA e do nascimento da Nasa, serve como bom exemplo desta última situação. Recebido com indiferença pelo público norte-americano, o filme de Philip Kaufman foi depois elevado à categoria de clássico do cinema moderno, pelos mesmos críticos que o bombardearam na época do lançamento.

Um dos maiores críticos da produção foi o roteirista William Goldman (“Todos os Homens do Presidente”, “Fogo Contra Fogo”), que escreveu a primeira versão do script, baseada num livro-reportagem de Tom Wolfe. Ele saiu do projeto, e não foi mencionado nos créditos, por discordar de uma decisão crucial tomada pelo diretor Philip Kaufman: utilizar, como centro emocional da história, um personagem que, a rigor, jamais fez parte do programa especial dos EUA. O personagem é o piloto de testes Chuck Yeager (Sam Shepard), primeiro homem a romper a barreira do som, em 1947.

Foi uma decisão arriscada, e certamente controversa. Yeager era parte importante da narrativa jornalística de Tom Wolfe, mas de fato não teve nenhuma participação direta no surgimento da Nasa, que é o tema do filme. O piloto, contudo, incorporava à perfeição o “elemento certo” (tradução aproximada do título em inglês do filme). Era um homem calado e introspectivo, um caipira meio bronco, dono de uma coragem muito especial. Yeager jamais recusava a proposta de pilotar um novo avião, ainda que as estatísticas da época mostrassem que um piloto tinha uma em quatro chances de morrer nestes vôos quase suicidas.

Voando sempre mais rápido e mais alto do que qualquer um, desafiando a morte todos os dias como quem toma café da manhã, Chuck Yeager inspirou toda uma geração de pilotos. Foi sob a sombra deste oficial caipira que a Força Aérea escolheu os sete primeiros astronautas para iniciar o programa espacial. Inspirados por Yeager, todos eles eram pilotos de testes que reuniam qualidades especiais: baixa estatura e nenhum temor diante do risco de morrer, além de nível universitário. Este último componente, por ironia, excluiu o próprio Yeager do programa espacial. O crítico Roger Ebert observou que “Os Eleitos” é menos a história da Nasa, e mais um conto tipicamente norte-americano sobre um “tipo especial de coragem”.

É fácil perceber porque o longa-metragem fracassou nas bilheterias. Acostumado a celebrar seus heróis nacionais de forma ufanista e messiânica, o público norte-americano não estava preparado para ver o celebrado programa espacial – verdadeiro celeiro de heróis – ser abordado de forma crítica, com ceticismo, honestidade e ironia. Neste filme, o Pentágono não é uma máquina militar infalível, mas um grupo de militares quase amadores, que correm como baratas tontas diante dos avanços soviéticos na questão espacial (“os alemães deles são melhores do que os nossos”, observa um oficial, se referindo aos cientistas exilados da antiga Alemanha nazista que comandavam os dois programas).

Os sete astronautas, por sua vez, também não são mostrados como heróis infalíveis. Todos são corajosos, mas sua coragem é humana. Eles também produzem de vez em quando aquilo que a gente faz quando vai ao banheiro. Um deles, Gus Grissom (Fred Ward), sofre de claustrofobia e acaba provocando a perda de uma cápsula espacial de milhões de dólares por causa disso. Outro, Gordon Cooper (Dennis Quaid), é um rapaz inconseqüente que sonha com fama e fortuna, mas parece viver literalmente fora de órbita no que se refere aos aspectos normais da vida cotidiana.

Em outras palavras: um dos maiores motivos de orgulho para os norte-americanos – o programa espacial vitorioso e seus heróis astronautas – é pintado em “Os Eleitos” com tintas normais, realistas, cheias de defeitos. A abordagem cética e irônica da Nasa fez com que boa parte do público norte-americano rejeitasse o filme, que além de tudo é extremamente longo, com mais de três horas de duração (e isso após um enorme corte de duas horas, feito pelos produtores, após a primeira montagem).

Em quase todos os aspectos, “Os Eleitos” é cinema norte-americano clássico da melhor qualidade. A fotografia de Caleb Deschanel, por exemplo, é simplesmente espetacular; os desertos da Califórnia foram filmados com a luz ofuscante que possuem de verdade, e as seqüências de vôo, produzidas com a ajuda de modelos em miniatura, são eletrizantes. Os diálogos possuem uma qualidade quase literária, e não conduzem a trama – apenas a complementam, como deve ser um grande filme –,equilibrando humor e drama na medida certa (“o que um piloto tem que fazer para ter sua foto na parede?”, pergunta a esposa de um deles à dona do bar freqüentado pelos ases voadores; “morrer”, responde a mulher, laconicamente).

Por fim, os desempenhos dos atores são uniformemente bons, com destaque para a presença silenciosa e imponente de Sam Shepard. O ator e dramaturgo não agradava muito aos produtores no papel central de Yeager, mas Kaufman acreditou nele e até mesmo modificou o roteiro original, eliminando a maioria das falas e transformando-o num personagem quase mudo, que se impõe pelas ações e não por palavras. A presença cênica magnética de Shepard faz com que o ator roube todas as cenas em que aparece. Ele deixa evidente que a decisão de manter Yeager como centro emocional de “Os Eleitos” foi acertada. Sem ele, o longa-metragem não seria o grande filme que é.

Em 2000, a Warner lançou uma versão simples em DVD sem extras. A edição especial, dupla, saiu em 2003 e contém o filme restaurado, com melhor qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1). O disco 2 tem dois documentários interessantes, um cobrindo a filmagem (48 minutos) e outro sobre a vida do astronauta John Glenn (86 minutos). Há ainda galeria de cenas excluídas (11 minutos) e comentários em áudio do elenco e dos produtores sobre algumas cenas específicas (25 minutos), tudo com legendas em português.

– Os Eleitos (The Right Stuff, EUA, 1983)
Direção: Philip Kaufman
Elenco: Sam Shepard, Ed Harris, Scott Glenn, Dennis Quaid, Fred Ward
Duração: 193 minutos

| Mais


Deixar comentário