Elektra

02/05/2005 | Categoria: Críticas

Aventura solo da ninja assassina atormentada é filme infanto-juvenil pouco inspirado e sem sangue

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Depois de ter o uniforme dos quadrinhos modificado para um traje negro, sem qualquer motivo aparente, em “Demolidor”, a ninja Elektra finalmente veste a roupa de couro vermelho com que ficou conhecida pelos amantes de gibis. Esta é a melhor lembrança que o antigo fã da personagem vai ter, quando vê-la surgir num longa-metragem todo seu. O sexy uniforme vermelho, porém, é uma exceção. De forma geral, “Elektra” é um filme pouco inspirado, que pode agradar aos moleques de 13 ou 14 anos, mas vai decepcionar aqueles que esperavam uma produção mais fiel à atormentada personagem dos quadrinhos.

Talvez seja um problema de orçamento. Jennifer Garner, a atriz que interpreta a ninja assassina de aluguel, diz que a grana disponível para fazer o filme obrigou o diretor, Rob Bowman, a reduzir o tempo de filmagens pela metade, além de cortar cenas de efeitos especiais. Como se sabe, filmes com super-heróis envolvem muitos milhões de dólares gastos em seqüências espetaculares criadas com uso de computação gráfica. Mas nada, nem isso, substitui um roteiro robusto e criativo. As séries “X-Men” e “Homem-Aranha” comprovam isso. E, infelizmente, “Elektra” tem roteiro burocrático.

É possível perceber que o trio de escritores tentou preservar algumas características da personagem original dos gibis, criada por Frank Miller. Elektra (Garner) é uma mulher atormentada por recorrentes pesadelos do passado, que envolvem o assassinato da mãe. Ela sofre de insônia e toma remédio para dormir, além de levar uma vida solitária, sem conseguir se relacionar com amigos. Namorado, nem pensar. A vida de Elektra, que mata por dinheiro, só tem espaço para um agente que lhe consegue trabalho. Pensou em uma espécie de A Noiva (conexão “Kill Bill”) remunerada? Pensou certo.

Só que, aqui, temos um exemplo clássico de como acrescentar detalhes a respeito da vida de um personagem pode encher um longa-metragem de informações desnecessárias, sem que esses detalhes consigam tornar o personagem complexo ou profundo. Elektra sofre, por exemplo, de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Ela conta os passos em grupos de cinco toda vez que anda. Essa peculiaridade é responsável por toda uma seqüência envolvendo a ninja e a garota Abby Miller (Kirsten Prout), mas a cena está no filme meramente para encher lingüiça. O TOC não é mencionado uma vez sequer depois dela, e não tem papel algum no desenrolar dos acontecimentos.

É o caso de perguntar, então: por que a seqüência ficou no filme? Talvez para reforçar, de alguma maneira, o relacionamento que se desenvolve entre a ninja e a garota. Seja como for, a cena não alcança esse efeito. Elektra permanece, até o final do longa-metragem, uma personagem inacessível. Pode-se argumentar, sem dúvida, que um filme claramente direcionado a uma platéia jovem (13-14 anos, como já falei antes) não necessita de personagens complexos. É verdade. Para essa turma, boas cenas de pancadaria já valem o preço do ingresso.

Elas existem? Sim, existem, mas não são sensacionais. Como não teve orçamento para fazer lutas longas, com coreógrafas e trabalho de fios, Rob Bowman optou por fotografar as lutas de maneira picotada, enfatizando tomadas curtas (no máximo de um segundo) e focalizando os corpos sempre em detalhes. Então, ao mostrar um personagem socando o outro, o diretor não uma única imagem. Ao invés disso, usa quatro tomadas rapidíssimas: o movimento de um braço, um punho avançando, a mão batendo em outro rosto, o outro rosto movendo-se para trás. Os cortes são tão rápidos que produzem a ilusão de um soco que, na realidade, não existiu. Nada de errado com a técnica, mas ela é repetida tantas vezes que a edição do filme fica confusa, e as lutas pouco verossímeis.

Além de tudo isso, a trama básica é pobre. Elektra é contratada, por US$ 2 milhões, para assassinar um alvo desconhecido. Ela vai para o local combinado, um paradisíaco resort à beira de um lago, e espera por instruções. No local, conhece Abby e o pai, Mark (Goran Visnjic). Só depois descobre que os dois são o misterioso alvo do assassinato que precisa cometer. Na trajetória, o caso envolve uma gangue de assassinos japoneses com poderes sobrenaturais, e também uma sugestão de envolvimento amoroso para Elektra.

O filme não esconde nem por um segundo sua vocação de aventura infanto-juvenil. Logo na abertura, que mostra um assassinato sendo cometido pela ninja, Elektra esfaqueia um homem pelas costas com seus punhais especiais, e a cena é mostrada em close. Surpreendentemente, não aparece sangue no momento em que a assassina retira a arma do pobre coitado. Em um longa adulto, o sangue esguicharia.

Além disso, no filme, a existência de sexo não é nem ao menos sugerida, e o envolvimento amoroso da ninja é mostrado com dois rápidos beijos. Sem língua. Nada poderia ser mais diferente do gibi explosivamente sangrento e sensual de Frank Miller. Em outras palavras, se você é adolescente, pode encarar. E se é fã do gibi, melhor ficar prevenido.

O DVD de locação contém apenas o filme, em formato widescreen e trilhas de áudio em inglês, português e espanho, todas no formato Dolby Digital 5.1.

– Elektra (EUA, 2004)
Direção: Rob Bowman
Elenco: Jennifer Garner, Terence Stamp, Goran Visnjic, Kirsten Prout
Duração: 97 minutos

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