Elizabeth: A Era de Ouro

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Enredo desequilibrado e visual de pavão exibicionista prejudicam continuação do drama histórico de 1998

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Todo mundo sabe que a maioria das continuações de filmes de sucesso é desnecessária. Quase sempre essas produções não têm nada a acrescentar ao que foi dito anteriormente, tendo sido planejadas apenas para aproveitar o rescaldo deixado pelos elogios ao antecessor. Realizado nove anos depois que a cinebiografia da rainha britânica do século XVI arrastou multidões aos cinemas de arte nos EUA, “Elizabeth: A Era de Ouro” (Elizabeth: The Golden Age, Reino Unido/França/Alemanha) sofre desta síndrome. Embora esteja longe de ser um filme ruim, possui a opulência visual de um pavão exibicionista, exibindo uma profusão de pompa e cores que obviamente se destina a camuflar um roteiro apressado e irregular, que comprime informação demais em filme de menos, e imperfeições históricas.

“Elizabeth: A Era de Ouro” reúne grande parte do time responsável pela criação, em 1998, do retrato de uma líder poderosa que emergiu do nada para assumir o trono inglês em período conturbado. Aquele filme fez sucesso porque mostra a rainha como uma mulher moderna, que encarar os homens de igual para igual. A temática era claramente feminista, e sua nesga de originalidade estava justamente neste aspecto – e a intenção de criar uma figura histórica feminina firme, dentro de um gênero dominado por homens, resultou em identificação com o espectador. Com a ação situada 30 anos à frente, a seqüência do longa-metragem de 1998 se preocupa em mostrar as mudanças íntimas da personagem causadas pelo tempo. A mulher firme e voluntariosa, que não tinha medo de transgredir regras sociais e nem de exibir uma sexualidade imponente, se transformou numa soberana solitária, mergulhada em dúvidas e incomodada com a chegada da meia-idade.

A história se bifurca em duas linhas narrativas bem distintas. A primeira, que ocupa os dois primeiros atos, traça o perfil da intimidade de Elizabeth (Cate Blanchett). Solitária e com medo da velhice, ela flerta com um aventureiro charmoso e mais jovem (Clive Owen), criando um inverossímil triângulo amoroso com a mais jovem e bela de suas criadas (Abbie Cornish). Ao mesmo tempo, o filme acompanha a turbulência religiosa na Europa de 1585, quando a Igreja Católica sente os efeitos do domínio político protestante na Inglaterra e incentiva o rei Felipe II, da Espanha, a conspirar para destronar Elizabeth em favor da rainha da Escócia (Samantha Morton). A intriga política pode resultar em guerra, especialmente se a rainha inglesa se mantiver indecisa sobre o que fazer.

Boa parte dos críticos norte-americanos observou que as duas linhas narrativas poderiam render filmes distintos. Eles estavam corretos. O diretor indiano Shekhar Kapur demonstra indecisão clara no entrelaçamento das duas histórias, gerando um enredo irregular e artificial, que salta de maneira desajeitada entre a crise de meia-idade de Elizabeth e a intriga político-religiosa que ela é obrigada a enfrentar. A trama intimista ganha mais destaque na mesa de edição, mas quando o filme entra no terceiro ato, as preocupações existenciais da rainha vão para segundo plano, de maneira abrupta, e “Elizabeth: A Era de Ouro” se transforma num subproduto adolescente de séries de fantasia, como “Piratas do Caribe” (toda a seqüência da batalha naval, que representa um clímax frouxo para o filme) e “O Senhor dos Anéis” (o discurso inflamado que Elizabeth grita às tropas, vestida de armadura e sobre um cavalo branco, antes de voltar para o castelo e assistir à ação de uma distância bem segura).

O bom elenco, que inclui o sempre eficiente Clive Owen e o coadjuvante Geoffrey Rush, até que consegue injetar um pouco de emoção em um filme cujo diretor parece mais interessado em exibir belas imagens carnavalescas (os figurinos e cenários, caríssimos, lembram um desfile de gala na Marquês do Sapucaí) do que em contar uma história. Como de hábito, é a australiana Cate Blanchett quem rouba a cena, recriando com respeito e reverência o papel que lhe transformou em estrela de Hollywood. As cenas silenciosas que a flagram na solidão do quarto real, diante do espelho, sem roupa e sem peruca, correspondem aos melhores momentos da produção, e reforçam a idéia de que os grandes atores prescindem de diálogos para dar vida e coerência aos personagens, mesmo em filme sem nada de relevante a dizer.

O DVD da Universal contém o filme, acompanhado de comentário em áudio do diretor cenas cortadas, documentário de bastidores e quatro featurettes enfocando aspectos visuais da produção. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) é boa, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1).

– Elizabeth: A Era de Ouro (Elizabeth: The Golden Age, Reino Unido/França/Alemanha)
Direção: Shekhar Kapur
Elenco: Cate Blanchett, Clive Owen, Geoffrey Rush, Abbie Cornish
Duração: 115 minutos

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