Em Algum Lugar do Passado

30/05/2005 | Categoria: Críticas

Massacrado pela crítica e amado pelo público, filme sobrevive aos paradoxos criados pelo roteiro desleixado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um filme massacrado pela crítica e amado pelo público passa, via de regra, por um processo curioso após o lançamento. Depois de alguns anos, é natural que ocorra uma reavaliação da obra e aí, quase sempre, os analistas conseguem perceber qualidades que haviam antes passado despercebidas. Este é o caso do drama romântico “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in Time, EUA, 1980), uma interessante tragédia amorosa que lida de modo problemático com a questão dos paradoxos temporais causados por viagens no tempo.

Quem nunca assistiu ao primeiro longa-metragem do ator Christopher Reeve após “Super-Homem” deve ser avisado que a produção não se enquadra no gênero da ficção científica. Apesar do tema, trata-se de uma produção de época, cheia de pompa e circunstância, passada no conservador e sisudo sul dos EUA do início do século. Ou seja, o filme está mais para “E o Vento Levou” do que para “De Volta Para o Futuro”. Na verdade, o tema da viagem no tempo é secundário. “Em Algum Lugar do Passado” lembra mais uma obra romântica de meados do século XIX, quando o tema do amor impossível era extremamente popular.

Esse enfoque foi, talvez, responsável pelas críticas negativas. Aparentemente despreocupado com as questões científicas que envolvem o tópico das viagens temporais, o roteirista Richard Matheson deixou incríveis buracos no texto, que fazem a trama ter sérios problemas para ser levada a sério. O maior exemplo está no relógio de bolso que dá partida à trama. Antes de abordar o paradoxo, porém, é preciso explicar resumidamente a história do filme, que envolve um homem apaixonado por uma mulher que viveu 68 anos atrás.

A abertura do filme flagra o dramaturgo Richard Collier (Reeve) na noite de estréia de uma peça sua, na pequena Millfield (EUA). Ele recebe a estranha visita de uma senhora idosa, que lhe entrega o tal relógio de bolso e faz uma súplica: “volte para mim”. Collier não entende nada. Oito anos depois, contudo, o sujeito enfrenta um bloqueio criativo e viaja para tentar superá-lo. Numa passagem fortuita por Millfield, ele se hospeda no clássico Grand Hotel e se apaixona pela foto de uma bela mulher, pendurada na parede do salão histórico do lugar.

Obcecado, Collier tenta se informar sobre a mulher. Descobre que ela foi Elise McKenna (Jane Seymour), uma atriz famosa que fez uma peça no teatro do hotel, no ano de 1912. Mas a maior surpresa vem depois. Durante a pesquisa para saber mais detalhes sobre McKenna, Collier descobre que era dela o relógio de bolso que ele possui. Intrigado, o rapaz começa a pesquisar sobre as chances reais de fazer uma viagem no tempo para encontrá-la. Acaba ouvido de um psicólogo que a hipnose poderia, em tese, permitir a experiência científica inédita.

Quem assistir ao filme vai perceber o paradoxo do relógio quando assistir à cena em que Elise McKenna se torna a proprietária do objeto. E esta é apenas uma das muitas cenas que ilustram paradoxos semelhantes relacionados com a viagem para o passado. Isto é algo que filmes como “De Volta Para o Futuro” solucionaram com criatividade, e que “Em Algum Lugar do Passado” não parece nem um pouco interessado em resolver.

Apesar disso, os defensores do filme não vêem o menor problema nesse detalhe, até porque há uma segunda leitura possível para explicar a bizarra experiência de Richard Collier: ele apenas teve um sonho incrivelmente longo e real, e não retornou realmente ao passado, apesar de todas as evidências em contrário. O mais curioso, entretanto, é que amantes do longa-metragem – sempre românticos empedernidos – costumam rejeitar essa segunda leitura, pois ela implicaria em aceitar a natureza impossível do amor obsessivo de Collier. A verdade é que as pessoas querem acreditar que o amor pode tudo, até mesmo romper a barreira do tempo, e “Em Algum Lugar do Passado” oferece essa possibilidade sedutora, mesmo que por apenas alguns instantes.

Para além desses problemas de lógica, “Em Algum Lugar do Passado” é um filme interessante. Possui uma caprichada produção de época, com figurinos impecáveis, apesar de ter sido feito com o magro orçamento de US$ 5,1 milhões. O diretor Jeannot Szwarc (de “Tubarão 2”) conduz a trama de forma burocrática, comum, sem brilhar mas sem comprometer. Um destaque importante está na trilha sonora, que usa incessantemente a “Rapsódia Sobre um Tema de Paganini”, de Rachmaninoff, para criar o clima melancólico de romance impossível que o longa-metragem pede. “Em Algum Lugar do Passado” é açucarado, mas nesse nível funciona muito bem. Para românticos inveterados, é uma ótima pedida.

A Universal cometeu um sério deslize ao lançar essa obra cult no Brasil em DVD, em 2005. Ao invés de aproveitar a boa edição comemorativa de 20 anos, disponível nos EUA desde 2000, a distribuidora preferiu montar o DVD com imagens em tela cheia (ou seja, com cortes laterais no enquadramento original), trilha de áudio Dolby Digital 2.0 (com apenas dois canais) e nenhum extra. O disco importado contém vídeo e áudio remasterizados, comentário em áudio do diretor e um ótimo documentário de 50 minutos, que relembra as filmagens e analisa o sucesso da obra.

– Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, EUA, 1980)
Direção: Jeannot Szwarc
Elenco: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer, Teresa Wright
Duração: 103 minutos

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