Em Boa Companhia

19/10/2005 | Categoria: Críticas

Comédia romântica de narrativa clássica cria um panorama interessante do mundo empresarial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A comédia, especialmente quando possui elementos românticos, é um dos gêneros escolhidos por cineastas que desejam abordar um conteúdo mais avançado sem, no entanto, fazer um filme progressista demais para Hollywood. “Em Boa Companhia” (In Good Company, EUA, 2004) é um bom exemplo dessa prática. O filme de Paul Weitz (da série “American Pie” e do sensível “Um Grande Garoto”) tem a estrutura clássica que os comediantes da indpustria cinematográfica utilizam há décadas, mas a usa para criticar os bastidores da selva empresarial que domina o mercado de trabalho. Um mercado em que as pessoas vivem sob a sombra da demissão inesperada, e onde garotos cheirando a leite chefiam bons funcionários com o dobre de suas idades.

Esse é o problema vivido por Dan Foreman (Dennis Quaid), publicitário de 51 anos que chefia a equipe de marketing de uma revista esportiva. Após a empresa ser comprada por um magnata dono de um conglomerado de comunicações, Foreman é rebaixado a assistente de um rapaz de 26 anos, Carter Duryea (Topher Grace, do seriado “That 70’s Show”), sujeito dedicado que não entende muito do negóico e, ainda por cima, recebe a tarefa de fazer um corte duro na folha salarial da equipe.

Por trás da ambição que move sua vida, Duryea é um sujeito imaturo e carente, capaz de marcar uma reunião com todos os funcionários da revista em uma tarde de domingo, apenas porque não tem amigos e nem família. As circunstâncias acabam por aproximá-lo de Foreman, que passa a funcionar como uma espécie torta de figura paterna. Além disso, Carter também se apaixona pela filha mais velha do subordinado, Alex (Scarlett Johansson), uma garota que está de mudança para Nova York, onde vai estudar Literatura.

A história de “Em Boa Companhia” não é original, mas é eficiente. A ótima abertura estabelece o tom – trata-se de uma comédia agridoce, em que a platéia não vai gargalhar, mas ficar com um sorriso no canto da boca durante toda a projeção – e apresenta os personagens em duas cenas paralelas, curtas e interessantes. Na primeira, o velho Foreman encontra um teste de gravidez na lixeira e passa o dia apreensivo, sem saber qual das duas filhas adolescentes aprontou, mas à noite recebe a nbotícia de que é a própria esposa, Ann (Marg Helgenberger, do seriado “CSI”), quem está esperando um terceiro e inesperado filho. Já Duryea ganha a promoção no emprego apenas para chegar em casa e encontrar a jovem esposa de mala prontas para deixá-lo.

A partir dos primeiros minutos, portanto, já conhecemos as personalidades dos dois protagonistas. Dan Foreman, o velho, representa o estilo de vida conservador, que prioriza a família. Suas relações no emprego são de amizade verdadeira. Já Duryea fica com a cara do mundo empresarial do séxulo XXI: impessoal, frio, onde não há espaço para amizade ou para valores familiares, mas apenas pensamentos sobre estatísticas, números e cifras. Claro que, durante a projeção, Carter Duryea vai aprender uma coisinha ou duas com o velho e confiável Dan.

“Em Boa Companhia” faz crítica aberta ao ambiente empresarial das grandes empresas, tanto no aspecto macro (as fusões, compras e vendas sucessivas de empresas) quanto no micro (os funcionários atordoados com tantas mudanças e permanentemente com medo das demissões). Em certa cena, Dan Foreman questiona o vocabulário usado por Duryea quando vai demitir um funcionário: por que ele usa a expressão “vou deixar você ir” ao invés de “vou demiti-lo”? Simples e eficaz.

A direção de Paul Weitz é econômica e discreta, abrindo espaço para que os atores possam brilhar. Dennis Quaid e Topher Grace não decepcionam, e estabelecem desde o início uma química que funciona. Já a subtrama que envolve o romance entre Carter e Alex, a filha mais velha de Foreman, não funciona bem. O romance é superficial e pouco empolgante. Vale destacar, ainda, a boa trilha sonora de Stephen Trask (responsável pelas composições do genial “Hedwig”), que reúne pérolas de Peter Gabriel, Aretha Franklin e Steely Dan, além de incluir uma canção de Damien Rice (responsável pela trilha do filme anterior do diretor, “Um Grande Garoto”) em uma cena que lembra demais o drama “Closer”. Mas não se engane: esta aqui é uma comédia suave e interessante, e não o drama barra-pesada de Mike Nichols.

O DVD é da Universal. O filme tem a imagem (widescreen 1.85:1) we som (Dolby Digital 5.1) preservados. Como extras, uma faixa de comentário com o diretor e Topher Grace, dois pequenos featurettes, e uma galeria de sete cenas cortadas. O material tem legendas.

– Em Boa Companhia (In Good Company, EUA, 2004)
Direção: Paul Weitz
Elenco: Dennis Quaid, Topher Grace, Scarlett Johansson, Marg Helgenberger
Duração: 110 minutos

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