Em Busca da Terra do Nunca

12/06/2005 | Categoria: Críticas

Filme explora bastidores da criação de ‘Peter Pan’ com competência, mas sem brilho

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Nós, pobres mortais comuns, morremos de curiosidade a respeito do processo de criação dos artistas, especialmente dos mais talentosos. Não é por outro motivo que há infindáveis discussões a respeito da existência, ou não, de elementos lendários como inspiração ou musas. “Em Busca da Terra do Nunca” (Finding Neverland, EUA/Inglaterra, 2004) é a contribuição do cineasta alemão Marc Forster para jogar luz sobre os bastidores da mais famosa história infantil do século XX: a fábula de Peter Pan, história do menino que se recusava a crescer. O filme pretende revelar quais elementos da vida do escritor inglês J.M. Barrie encontraram lugar na ficção. E faz isso com competência, embora sem muito brilho.

A temática da relação entre os acontecimentos da vida de um artista e a obra que ele compõe já deram vida a filmes bem distintos. Longas ousados, como “Medo e Delírio em Las Vegas” e “Anti-Herói Americano”, são ambos projetos fascinantes, que encontraram público mais alternativo. Mas é evidente que “Em Busca da Terra do Nunca” segue a trilha aberta pelo engraçadinho e vitorioso “Shakespeare Apaixonado”. Com a comédia romântica sobre a atormentada vida do bardo inglês durante o período de criação de “Romeu e Julieta”, os estúdios Miramax ousaram ganhar o Oscar de melhor filme em 1998. “Em Busca da Terra do Nunca” não disfarça a intenção de alçar o mesmo patamar.

Em muitos momentos, ameaça conseguir, embora seja um filme de narrativa claramente convencional. A maior ousadia a que Marc Forster se permitiu foi retirar todo e qualquer traço de sexualidade da trama. Nela, o escritor J.M. Barrie (Johnny Depp), um autor teatral em franca decadência, vê crescer a inspiração depois de conhecer, em um parque londrino, a prole de Sylvia Davies (Kate Winslet), uma jovem viúva com quatro filhos pequenos. O sujeito se entrega a tardes inteiras de brincadeiras infantis, bem como a uma amizade crescente com a mulher, enquanto deixa a esposa insatisfeita (Radha Mitchell) em casa.

Embora a platéia espere que a aproximação entre Barrie e Sylvia resulte em um convencional romance proibido, isso jamais acontece. Barrie é retratado por Johnny Depp como um homem quase assexuado. Ele possui um lado infantil pronunciado, que liberta em definitivo depois que percebe como o casamento está desmoronando. No filme, porém, Barrie sublima a evidente atração que sente por Sylvia, e vice-versa. O romance jamais engrena, e esse fato acaba sendo uma surpresa bem-vinda, pois deixa a relação entre os dois bem parecida com a vida como ela é.

Talvez Barrie seja mostrado de forma tão assexuada, no filme, por medo do que um homem tão ligado a crianças possa acabar ganhando contornos de pedófilo, aos olhos da platéia. De qualquer forma, o resultado final é positivo, algo certamente influenciado pelas boas interpretações do casal central. Johnny Depp está à vontade com um homem que sofre com o casamento mal-sucedido, e compensa isso mergulhando em um mundo de fantasia. Kate WInslet não precisa fazer muito para encarnar a jovem viúva com alma de menino e um pesado fardo a ser carregado. A interação entre os dois é muito boa, e a trupe de crianças também se sai bem.

O filme desenvolve a amizade entre adultos e crianças de maneira visualmente criativa, “transportando” Barrie e as crianças para dentro dos cenários da Terra do Nunca quando as brincadeiras entre eles sugerem ao escritor um elemento novo para a peça que está escrevendo. O destaque vai para as belas cenas que acontecem dentro de um mar de fantasia, feito de rolos de espuma azul. O mar de espuma é inclusive justificado por uma fala do produtor Charles Forhman (Dustin Hoffman), que reprova a idéia de reconstituir o mar dentro de um teatro avisando que “tanta água pode deixar a peça muito cara”. As seqüências lembram um pouco o inesquecível oceano de papel celofane que Fellini ergueu em “Amarcord”.

Por outro lado, a estrutura narrativa, absolutamente convencional, é o maior passo em falso do projeto. Todo o desenvolvimento da trama é burocrático e previsível: o início da amizade, as brincadeiras no parque, o surgimento de um empecilho (a mãe de Sylvia, Emma, interpretada por Julie Christie) ao envolvimento de Barrie com a família, a montagem difícil de uma peça inicialmente desacreditada e os triunfos e tragédias que encerram a trama. Marc Forster também esqueceu a realidade e ergueu sua própria ficção, distorcendo e alterando radicalmente alguns fatos históricos, como a morte do marido de Sylvia, que só aconteceu muito depois de “Peter Pan” ter estreado. “Em Busca da Terra do Nunca” é competente, mas não vai muito além disso.

O lançamento brasileiro em DVD é da Imagem Filmes.

– Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, EUA/Inglaterra, 2004)
Direção: Marc Forster
Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Radha Mitchell
Duração: 106 minutos

| Mais


Deixar comentário