Em Carne Viva

13/11/2004 | Categoria: Críticas

Jane Campion tenta unir trama policial a drama feminino, mas falha e faz filme insosso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Meg Ryan nua. Toda a campanha promocional feita em cima do novo filme de Jane Campion (“O Piano”) se baseou nessas três palavras. Qualquer espectador que tiver esse motivo em mente para ver “Em Carne Viva” (In The Cut, EUA, 2003), contudo, vai sair do cinema sem muita razão para comemorar. A seqüência mais forte do longa-metragem tem sexo oral em close e explícito, mas a atriz apenas espia o tal momento, não participa dele. E essa é precisamente a sensação do espectador diante da obra: um filme frio, distante, sem norte, a que a platéia assiste sem conseguir se envolver emocionalmente.

“Em Carne Viva” é um filme barra pesada e mistura, de forma pouco clara, uma trama policial com um drama emocional forte. A professora Frannie Averey (Ryan) é uma mulher solitária, à beira da depressão. Ela gosta de poesia e trabalha num livro sobre gírias, e por isso possui um convívio íntimo com o submundo de Nova York. Além disso, a irmã dela, Pauline (Jennifer Jason Leigh), é uma prostituta que vive no primeiro andar de uma boate de strip tease. Os amigos da dupla são cafetões e vagabundos. Frannie, que aparentemente acredita na qualidade literária de anúncios de metrô, tem uma atração evidente por esse submundo, mas não pertence a ele.

Isso fica claro quando Frannie conhece Giovanni Malloy (Mark Ruffalo), um detetive de Homicídios que investiga o assassinato seguido de decapitação de uma prostituta cuja cabeça foi encontrada no jardim de Frannie. Ele suspeita de existência de um serial killer na cidade, mas a investigação fica um tanto embaçada quando os dois começam a se envolver sexualmente. O relacionamento é incentivado por Pauline, e ao mesmo tempo Frannie se vê assediada por um aluno negro, Cornelius (Sharrieff Pugh), e por um ex-namorado psicótico (Kevin Bacon, em ponta de luxo). O assédio triplo parece só aumentar a sensação de solidão da garota.

A cineasta Jane Campion acerta em duas coisas. A primeira é a excelente ambientação do filme, que tem uma fotografia suja e uma direção de arte sórdida, exibindo uma Nova York decadente, a milhas de distância dos cartões postais da cidade; é como se o clássico “Taxi Driver” sofresse uma atualização de 20 anos. Outro trunfo é a marca registrada da diretora, um mergulho na alma feminina. As cenas que mostram conversas entre Frannie e Pauline são as melhores do filme; os diálogos dizem muita coisa sem necessariamente serem lógicos. Mulheres vão adorar, e homens podem achar tudo sem sentido. As atrizes claramente se deliciam com essas cenas, em especial Jason Leigh, que faz o estilo bagaceira com um pé nas costas.

Os elogios param por aí. O filme jamais se decide se é um drama feminino ou uma investigação policial. É provável que Campion tivesse a melhor das intenções e desejasse unir as duas coisas, mas falhou feio e não fez nenhuma certo. A investigação conduzida pelo excelente Mark Ruffalo nunca engrena, e por vezes é esquecida durante longos minutos para dar vez a seqüências de sexo pesado. O sexo é a forma de escape de uma realidade sufocante, mas soa artifical e forçado demais, como se os personagens não conseguissem se concentrar nas tarefas básicas do cotidiano, como trabalhar.

Resumindo, “Em Carne Viva” poderia funcionar muito bem se pretendesse ser apenas um drama sobre a vida das mulheres no submundo de uma metrópole, mas deseja mais do que isso. Ambição demais, todos sabemos, raramente dá bons resultados. Como filme policial, é fraco e repetitivo, sem conseguir oferecer surpresas ou reviravoltas que deixem o espectador intrigado.

– Em Carne Viva (In The Cut, EUA, 2003)
Direção: Jane Campion
Elenco: Meg Ryan, Mark Ruffalo, Jennifer Jason Leigh, Kevin Bacon
Duração: 119 minutos

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