Embalos de Sábado à Noite, Os

26/09/2007 | Categoria: Críticas

Filme tem Bee Gees e John Travolta dançando, mas é um drama adolescente cruel e realista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A idéia do longa-metragem “Os Embalos de Sábado à Noite” (Saturday Night Fever, EUA, 1977) nasceu a partir de um artigo jornalístico que radiografava a explosão da disco music em Nova York. Meses depois, o filme feito a partir de um texto sucinto comprovaria a força massificadora do cinema, ao transformar em fenômeno mundial algo que era apenas um movimento jovem restrito a uma metrópole. As canções dançantes dos Bee Gees e os ternos brancos apertados de John Travolta se tornaram coqueluche internacional, a ponto de se tornarem símbolos máximos de uma década inteira de cultura pop.

Curiosamente, o título adquiriu uma fama tão legendária que, com o tempo, passou a irradiar aos cinéfilos uma imagem bem diferente daquilo que o filme realmente é. Aqueles que nunca viram “Os Embalos de Sábado à Noite” imaginam uma produção pop alegrinha e inofensiva – e estão errados. O retrato da juventude que emerge do filme é, pelo contrário, bastante amargo e realista, até mesmo cruel. Nele, os globos de espelhos das boates funcionam apenas como fantasia escapista para jovens suburbanos cuja perspectiva de futuro é, para dizer o mínimo, sombria.

O foco narrativo cai sobre o vendedor de uma loja de tintas no esplendor de seus 19 anos. Tony Manero (Travolta) possui duas características que o diferenciam dos colegas: além de extraordinário dançarino, ele tem plena consciência do futuro negro que lhe aguarda, a alguns anos de distância. “A dança não vai durar muito”, reflete, em certo momento. Tony sabe que a juventude tem dias contados. Ele já trabalha duro para sustentar uma família em que o pai está desempregado. Somente relaxa nas noites de sábado, quando pode colocar um par de sapatos cuidadosamente engraxados, calças justas e camisas coloridas de poliéster, e esquecer o dia-a-dia cheio de suor.

Nestes instantes, a fantasia escapista se manifesta com toda força: o reles vendedor torna-se o herói carismático que dá show na pista de dança da boate Odissey 2001, no bairro classe média do Brooklyn. O filme acompanha Tony durante algumas semanas, compondo um registro bem realista da vida dele. O cotidiano no rapaz é esmiuçado com olhar implacável: a relação tumultuada com os pais, o sexo promíscuo e violento, as drogas (lícitas ou não), a cultura machista e racista da turma jovem do bairro, a vontade de transgredir as barreiras invisíveis que separam o universo barra-pesada do Brooklyn das ruas elegantes de Manhattan.

Embora mantenha o foco firme em Manero, o diretor John Badham encontra espaço para desenvolver bons personagens secundários. Annette (Donna Pescow) representa a paixão visceral que Tony provoca nas garotas do bairro, e desenvolve por ele uma paixão juvenil pura, ingênua e impossível. Bobby (Barry Miller) é o retrato mais cruel do futuro sem perspectivas que aguarda a rapaziada, quando cai em si depois que a namorada engravida. Stephanie (Karen Lynn Gorney) funciona como uma luz no fim do túnel, mostrando que com sorte e esforço a rapaziada pode, pelo menos, aspirar a um futuro menos árido.

Tudo isso é mostrado em tons realistas que, no entanto, se desfazem em um caleidoscópio de cores nas noites febris de sábado, que Tony e os amigos aguardam com tanta ansiedade durante a semana. Na pista de dança, ele não é um vendedor anônimo, mas o rei do pedaço, uma lenda em seu tempo. De fato, o desempenho de John Travolta – não apenas nas fantásticas seqüências de dança, mas sobretudo nos momentos barra-pesada do dia-a-dia de Tony Manero – ilumina o filme como um todo. É uma dessas performances que marcam a carreira de um intérprete de modo definitivo.

Visto em 2006, “Os Embalos de Sábado à Noite” convida a uma reflexão meio pessimista sobre o cinema no século XXI. Em 1977, no contexto em que foi produzido, o longa-metragem pretendia ser um mero filme para adolescentes, um filme-pipoca, que tencionava apenas divertir. No entanto, a qualidade dramática do filme de John Badham é muito superior às produções despretensiosas que, em 2006, visam o mesmo objetivo de diversão descerebrada, como “Penetras Bons de Bico” (2005) e “Piratas do Caribe 2” (2006). Os três filmes citados foram, nos respectivos anos em que foram produzidos, os títulos mais populares entre os jovens; a diferença é que “Os Embalos de Sábado à Noite” é cinema de qualidade, universal e atemporal, e tem algo a dizer.

O DVD simples da Paramount é caprichado. O filme tem excelente qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), e há extras saborosos: um documentário bacana produzido para a TV (31 minutos), galeria com três cenas cortadas e comentário em áudio do diretor, tudo com legendas em português. Há ainda uma edição dupla, que celebra os 30 anos do lançamento original, com extras diferentes: outro documentário (52 minutos) e três featurettes (20 minutos).

– Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, EUA, 1977)
Direção: John Badham
Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali
Duração: 119 minutos

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