Embriaguez do Sucesso, A

19/07/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Alexander Mackendrick tem aparência bem-comportada, mas é subversivo como poucos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“A Embriaguez do Sucesso” (Sweet Smell of Success, EUA, 1957) tem a aparência de um filme clássico de Hollywood, mas vai muito além deste rótulo bem-comportado e politicamente correto. De fato, sob a fachada luxuosa da febril vida noturna que retrata, o longa-metragem de Alexander Mackendrick carrega uma das mensagens mais subversivas que um grande estúdio era capaz de produzir naquela época, quando a censura ainda imperava e fustigar celebridades poderosas não era exatamente uma prática saudável, Orson Welles que o diga.

Mackendrick ousou mexer em casa de marimbondos ao criar um personagem fictício que satirizava de forma implacável o comportamento nocivo do colunista social Walter Winchell, um dos mais prestigiados jornalistas da época. Com o tempo, J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) se tornaria um personagem inesquecível e universal, por emular com perfeição a maneira escorregadia e obscura com que jornalistas de ética questionável lidam com a alta sociedade e se relacionam com suas fontes (há exceções, mas não são muitas). O panorama do mundo das altas rodas que emerge de “A Embriaguez do Sucesso” é o de um mundo de aparências, de falsidade, de mentiras. Um mundo real.

O filme, porém, não é sobre Hunsecker, e sim sobre Sidney Falco (Tony Curtis), um assessor de imprensa que ainda não conseguiu florescer na carreira. Ou melhor, é sobre a relação conturbada que se estabelece entre os dois. Falco persegue Hunsecker como um cachorrinho, sujeitando-se a todo tipo de humilhação e mendigando uma notinha aqui, outra acolá, sobre seus clientes. O colunista faz questão de rebaixá-lo publicamente, mas enquanto pisa numa mão, oferece a outra: poderá publicar mais notas de Falco caso o asssessor consiga estragar o noivado da irmã mais nova (Susan Harrison) com um músico pobretão (Martin Milner).

A relação entre os dois personagens principais, ambos traiçoeiros e antiéticos, é filmada magnificamente por Mackendrick. Além de manter uma forte e permanente tensão homossexual entre ambos (Hunsecker põe um cigarro na boca e pede: “Sidney, me acenda”), o diretor ainda faz alusões obscuras a temas picantes como incesto (a obsessão bizarra do colunista com a vida íntima da irmã) e chantagem. Além disso, a construção dos personagens é meticulosa e perfeita: Falco, sempre sem dinheiro, vive num quartinho escondido por trás do escritório, e sai de casa sem sobretudo, no maior frio, para não ter que dar gorjeta aos porteiros dos bares que freqüenta.

Como se não fosse o bastante, a escalação dos dois atores é espetacular. O ar altivo e o olhar frio, penetrante e de cima para baixo que Burt Lancaster dirige a Sidney Falco fizeram dele um dos grandes atores de Hollywood. Por outro lado, Tony Curtis deixa de lado o tradicional papel de galã que fazia na época para compor um homem humilde, mas decidido a se dar bem. Ambicioso e egocêntrico, Sidney Falco não vê problemas em mentir e enganar para conseguir seu objetivo, e não sofre com dilemas morais por causa disso. A relação entre ambos é construída maravilhosamente. Eles são dois lados da mesma moeda.

Alexander Mackendrick capricha e se sai muito bem na tentativa de capturar a atmosfera de festa e mentiras do ambiente que deseja retratar. A trilha sonora de Elmer Bernstein, repleta de clássicos de jazz e big bands que viram lancinantes solos de guitarra nos momentos mais dramáticos, encaixa muito bem no clima noturno do filme. Além disso, os diálogos são acelerados (na linha das antigas screwball comedies dos anos 1930, como “Jejum de Amor”) e cheios de expressões idiomáticas da noite. Com isso, o ritmo excitante e febril é passado para a tela com perfeição.

O filme está disponível em DVD da Classic Line. A edição é simples, e com uma falha grave: é colorizada por computador. Ainda assim, tem qualidade razoável de imagem (fullscreen) e som (Dolby Digital 1.0). Não traz extras. Dica: tire a cor da TV e bom programa.

– A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success, EUA, 1957)
Direção: Alexander Mackendrick
Elenco: Tony Curtis, Burt Lancaster, Susan Harrison, Martin Milner
Duração: 96 minutos

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