Encantadora de Baleias, A

06/08/2004 | Categoria: Críticas

Talento da protagonista-mirim e belas imagens constroem libelo contraditório contra a globalização

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“A Encantadora de Baleias” (Whale Rider, Nova Zelândia, 2002) é um filme que tematiza, indiretamente, a globalização. O longa-metragem de Niki Caro não aborda o assunto de frente. Não glorifica esse fenômeno de virada de século, e tampouco faz um panfleto aberto contra o movimento. Mas o filme ensaia alguns comentários sociais que têm implicações diretas na maneira como as comunidades periféricas encaram a globalização. E o faz, como veremos, de maneira contraditória.

A película abre com um curto flashback. Num hospital, uma mulher neozelandesa dá à luz um casal de gêmeos. A menina sobrevive, enquanto mãe e garoto morrem. O pai, um fotógrafo de arte, fica traumatizado e sai do país para viver na Alemanha. A menina, batizada de Paikea, fica sob os cuidados dos avós, descendentes de uma linhagem de chefes da tribo Whangara, uma das comunidades Maori que vivem na costa neozelandesa. Eles são nativos que praticam uma vida em comunhão com o mar e a natureza. Ou, pelo menos, deveriam fazer isso.

O longa-metragem é narrado por Paikea (Keisha Castle-Hughes, numa interpretação excepcional). Aos 11 anos, a menina é uma líder nata na escola. Escreve bem, é dedicada e inteligente, claramente a garota mais graciosa da idade dela – tudo o que se esperaria de alguém que descende de ancestrais poderosos. Mas para o avô da menina, Koro (Rawiri Paratene), isso não significa muita coisa.

Koro é um homem profundamente devoto às crenças Maori. Ele rejeita Paikea porque, no fundo, a culpa pela morte do irmão. Na cabeça do teimoso chefe nativo, somente a reencarnação do legendário antepassado poderia restaurar a dignidade perdida pela tribo. Reza a lenda local que o antepassado deles aportou na Nova Zelândia no dorso de uma baleia. O garoto morto poderia se transformar no novo líder.

O grande conflito nasce do amor genuíno que a criança sente pelo avô. Rejeitada de todas as formas (o desinteresse do velho pela criança transforma-se gradualmente em hostilidade aberta), Paikea vai tentar, de todas as formas, atrair a atenção do avô. Enquanto isso, o filme busca discutir assuntos mais nobres: menos a noção de família, e mais a maneira como os costumes ocidentais corrompem a pureza das comunidades mais primitivas.

É aí que se encaixam os comentários sobre a globalização. “A Encantadora de Baleias” defende uma espécie de versão light do mito do bom selvagem de Russeau. Nada parece tematizar melhor essa idéia do que a própria família de Paikea. O pai da criança, apesar de ser um homem bom, rejeita o rótulo de líder da tribo para ir morar no estrangeiro. Enquanto isso, os jovens locais passam as tardes bebendo cerveja, jogando sinuca e fumando maconha – atividades nada nobres para uma comunidade indígena.

Tudo isso é mostrado, contudo, do ponto de vista lúdico, ingênuo até, de uma criança – lembre-se que o filme é inteiramente narrado por Paikea. Além disso, a fotografia usa muito bem as paisagens belas do litoral da Nova Zelândia, bem como várias tomadas submarinas de baleias nadando. São imagens de beleza plástica inquestionável, utilizadas com o propósito de envolver o público emocionalmente no tom que a história pede.

Tudo isso contribui acaba desembocado no maior problema da película, pois ela termina exatamente da maneira que uma produção de Hollywood o faria. É como se um cineasta ácido como Robert Altman fosse contratado para filmar “Free Willy”. O final parece ser mesmo um elemento calculado para provocar emoção na platéia, algo que comprovadamente dá certo, como provam os aplausos de vários minutos que o filme recebeu em festivais como Sundance e Rottendã.

Enfim, uma película que denuncia o lado ruim da globalização não deveria incorrer no erro de narrar uma história seguindo o manual globalizante de Syd Field. Infelizmente, isso acontece aqui. Mesmo assim, “A Encantadora de Baleias” é uma obra que merece uma conferida atenta.

– A Encantadora de Baleias (Whale Rider, Nova Zelândia, 2002)
Direção: Niki Caro
Elenco: Keisha Castle-Hughes, Rawiri Paratene, Vicky Haughton, Cliff Curtis
Duração: 105 minutos

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