Encontro, O

09/07/2004 | Categoria: Críticas

Argumento promissor baseado em lendas medievais resulta em filme sem pulso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O cineasta Brian Gilbert tinha um objetivo ao desenvolver o projeto de “O Encontro” (The Gathering, Inglaterra, 2002): criar um longa-metragem com o espírito e o clima dos filmes de terror B da década de 1970. O diretor diz que o primeiro “A Profecia”, ótimo exemplar do gênero, era sua inspiração. Apesar de partir de uma premissa interessante, contudo, “O Encontro” atinge um resultado oposto ao da película que revelou ao mundo o talento de Richard Donner (“Superman – O Filme” e a série “Máquina Mortífera”).

Há boas idéias no filme de Gilbert, mas elas acabam diluídas em clichês, sejam pequenos (os sustos conseguidos através do aumento abrupto do volume de som) ou grandes (o final redentor para um personagem aparentemente malvado). O clima desolado das locações tipicamente européias – uma pequena vila de aspecto medieval, cerca de bosques e estradas rurais – é a única coisa que lembra de fato as obras de terror B. De resto, “O Encontro” parece bem mais com “O Sexto Sentido” e “O Chamado”, ambos filmes melhores e sem um pingo sequer de aura B.

A premissa de “O Encontro” poderia render um filme bacana. O diretor bolou o enredo a partir de duas lendas medievais muito conhecidas e interessantes. A primeira diz respeito à suposta visita de José de Arimatéia à Inglaterra, logo após a morte de Jesus Cristo, numa viagem em que teria levado o cálice do Santo Graal para solo inglês. A segunda versa sobre o Judeu Errante, um sapateiro que teria recusado ajuda a Jesus durante o calvário e, por isso, fora condenado a vagar pela Terra até o final dos tempos.

A maneira como o roteiro do filme utiliza elementos dos dois mitos para organizar um roteiro original é a melhor qualidade de “O Encontro”. Cassie Grant (Christina Ricci) é uma turista norte-americana em viagem pelo interior da Inglaterra. A garota é atropelada pela esposa de um arqueólogo, Simon (Stephen Dillane). O professor está trabalhando nas escavações de um igreja do século I d.C., onde foi encontrado um mural sinistro. Grant perde a memória e vira hóspede temporária do casal, que tem um par de filhos pequenos. Ela logo começa a ter visões macabras, e desconfia que os delírios têm relação com as escavações.

Infelizmente, o argumento do filme é bem melhor do que sua realização. A fotografia de Martin Fuhrer, por exemplo, é uma sucessão de equívocos. Como a maior parte das cenas foi filmada em externas, há luz demais, e o uso excessivo de filtros resulta em imagens de cores fortes, quase berrantes. Por isso, o visual do longa não reflete o clima sombrio que o enredo exige, para que possa funcionar.

O roteiro também tem problemas sérios, especialmente no que toca ao desenvolvimento dos personagens, que não são aprofundados. As motivações de Simon e o conflito deste com o padre Dan (Ioan Gruffudd), também estudioso de Arqueologia, nunca ficam explicados, swendo mencionados apenas de passagem. O filho do professor, Michael (Harry Forrester), compartilha das visões de Cassie (fator “O Sexto Sentido” com conexão “O Chamado”), sem que jamais o espectador compreenda porque isso acontece.

Além disso, a própria trama sofre com o ritmo irregular. Brian Gilbert perde tanto tempo criando clima de suspense que a investigação do mistério demora demais a começar; quando inicia, segue aos saltos, de forma abrupta e mal explicada. Além disso, algumas situações soam forçadas e sem lógica – qual a família que entregaria uma criança de cinco anos para que uma desconhecida a levasse ao colégio?

Por causa desses problemas, “O Encontro” acabou indo mal nas bilheterias e tendo uma distribuição vagabunda. Nos EUA, fez carreira ruim nos cinemas e demorou muitos meses para ganhar um lançamento em formato digital. Já no Brasil, teve os direitos adquiridos pela independente Paris Vídeo. Tente fuçar nas prateleiras, se o tema realmente lhe interessa, porque não é um filme fácil de encontrar.

– O Encontro (The Gathering, EUA/Inglaterra, 2002)
Direção: Brian Gilbert
Elenco: Christinna Ricci, Stephen Dillane, Kerry Fox, Peter McNamara
Duração: 92 minutos

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