Encontros e Desencontros

16/08/2004 | Categoria: Críticas

Poucos diálogos hesitantes, assim como na vida real, são a alma do pequeno e singelo filme de Sofia Coppola

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Há um exercício interessante que algumas pessoas (eu inclusive) costumam fazer para medir a qualidade de um filme: tentar resumi-lo em uma palavra. No caso de “Encontros e Desencontros” (Lost In Translation, EUA, 2003), a dúvida foi grande. As alternativas óbvias seriam “delicado” ou “carinhoso”. Muita gente já o descreveu assim, e estão certos. Depois de pensar um bocado sobre isso, contudo, cheguei à conclusão de que prefiro “realista”.

É uma boa palavra, mas incompleta. E, pior, pode dar uma impressão inteiramente errada do longa-metragem de Sofia Coppola. Não se trata de um realismo no sentido de “Mestre dos Mares”, o épico naval de Peter Weir, por exemplo. Fala-se, aqui, de um filme que captura como poucos a sensação genuína de estar vendo duas pessoas de carne e osso, um recorte de uma situação que poderia perfeitamente estar acontecendo fora da tela. Em resumo: “Encontros e Desencontros” tem o timing da vida real. E isso é tão raro que acaba encantando e desarmando até o mais mal-humorado dos espectadores.

Durante a projeção, uma cena de “Pulp Fiction” me veio à mente, quando Uma Thurman conversa com John Travolta sobre os silêncios embaraçosos que às vezes aparecem no meio de diálogos, quando a conversa parece morrer e não vem nada na cabeça para falar. Pouca coisa é mais real do que esses silêncios, embora Quentin Tarantino apenas discurse sobre eles, não os filme. Bem, Sofia Coppola acertou a mão e fez um filme sobre silêncios embaraçosos. Em “Encontros e Desencontros”, as pessoas hesitam, deixam frases incompletas, demoram a responder perguntas, interrompem as falas uns do outros.

Agora tente se lembrar de quantos filmes você já viu em que isso – o ritmo em que conversamos na vida real – acontece. Com certeza, você não vai recordar muitos. Isso acontece porque a indústria do cinema desenvolveu um timing particular, irreal, para filmar conversas. Os diálogos precisam ser sempre rápidos, inteligentes e conclusivos. Os personagens quase sempre têm respostas afiadas para tudo, jamais precisam parar para refletir. Se a gente observar bem, os diálogos, no cinema, não têm nada de realista. São uma distorção da realidade, criada para permitir ao espectador uma organização simples e clara das idéias.

Nada contra essa estratégia, mas é maravilhoso poder assistir a um filme que vá contra tudo isso e que exiba, no centro da ação, as fraquezas e indecisões de uma pessoa de carne e osso – ou melhor, duas. Assim são o ator de meia-idade Bob Harris (Bill Murray) e a bela Charlotte (Scarlett Johansson). São dois norte-americanos no Japão, sentindo-se como peixes fora d’água e sofrendo de jet lag. Sem conseguir dormir à noite, eles buscam refúgio no bar do hotel de luxo de Tóquio onde estão hospedados. Lá, se conhecem e desenvolvem uma bela amizade.

Algumas pessoas podem reclamar de uma suposta visão arrogante a respeito dos japoneses. Pode ser. O Japão aparece no filme como uma terra esquisitíssima, de hábitos excêntricos. Não há dúvida de que o olhar de Sofia Coppola é o olhar de um estrangeiro – ela filma os cartões postais de cidade e dirige ao país um olhar respeitoso, mas só até certo ponto, como se criticasse, mesmo sem fazê-lo de forma explícita, a obsessão dos japoneses (ou melhor, de uma certa parte da população de Tóquio, já que o mundo dos personagens é a alta sociedade da capital japonesa) pela cultura pop norte-americana.

Isso, de qualquer modo, não passa de moldura para uma das histórias de relacionamento mais interessantes que já foram filmadas (ecos de “Casablanca”, talvez). Amor? Amizade? Difícil encontrar rótulos para a experiência que Bob e Charlotte compartilham. Há, em “Encontros e Desencontros”, uma maravilhosa sensação de descoberta do outro, algo que todos nós sentimos em algum momento de nossas vidas – o nascer de um grande amor ou de uma grande amizade, não importa. Esse é o maior mérito do filme.

Não é o único. Como o longa-metragem é lento e os diálogos são escassos, Coppola fez uma pequena trapaça ao realismo e encheu o filme de músicas: Jesus & Mary Chain, Elvis Costello (na voz de Bill Murray, durante um karaokê), Roxy Music, Air. É uma pequena coleção de gemas que faria inveja a Tarantino. Todas se encaixam à perfeição na atmosfera intimista e agridoce do filme. O espectador, pelo menos aquele que desejar ver na tela o ritmo da vida, vai sair encantado. E, de quebra, vai ser presenteado com duas das interpretações mais geniais dos últimos tempos – cortesia do casal protagonista. Aproveite, pois filmes assim não são lançados todo dia.

– Encontros e Desencontros (Lost In Translation, EUA, 2003)
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Anna Faris, Giovanni Ribisi
Duração: 105 minutos

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