Encurralado

15/12/2005 | Categoria: Críticas

Telefilme de estréia de Steven Spielberg é aula eletrizante de suspense feito sem dinheiro e com criatividade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A história a seguir aconteceu com um amigo cinéfilo, em meados dos anos 1980. Certo dia, enquanto ele alugava um filme em uma locadora do Recife, uma senhora pediu uma sugestão de filme de suspense. “Encurralado”, respondeu. A mulher perguntou qual a história. “Um caminhão perseguindo um carro”, respondeu ele. “Só isso?”, retrucou a mulher, torcendo o nariz e virando as costas. Perdeu um filmaço. “Encurralado” (Duel, EUA, 1971), primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, é uma demonstração inequívoca de que, em cinema, criatividade é tudo. Com um fiapo de trama e praticamente sem dinheiro, o futuro Rei Midas de Hollywood produziu um filme eletrizante, verdadeira aula de suspense.

A estréia de Spielberg em filmes de longa duração aconteceu de modo incomum. Ele teve que lutar pelo emprego depois de ler o conto original de Richard Matheson na revista Playboy. Além disso, não se tratava de um projeto para o cinema, mas de uma produção para a TV, dentro de um quadro semanal chamado “Filme da Semana” do canal NBC. Spielberg tinha que filmar tudo em apenas 10 dias, trabalhar com um orçamento total de US$ 300 mil, editar o material em apenas três semanas (usando cinco editores simultâneos!) e fechar a duração em 73 minutos. Nem mais, nem menos. Uma tarefa hercúlea.

Para completar o quadro de dificuldades, o próprio cineasta acrescentou mais uma: queria filmar em locação, não em estúdio. Para poder cumprir prazo e orçamento à risca, preferiu não trabalhar com storyboards, decidindo os enquadramentos no próprio set (e fazendo-o com brilhantismo, como comprovam tomadas originais como aquela que mostra o protagonista através do vidro de uma máquina de lavar roupas, durante uma parada em um posto de gasolina). Spielberg utilizou, para se orientar, um mapa gigante que afixou na parede do hotel onde estava hospedado. O desenho apresentava a estrada escolhida como cenário e toda a minutagem do filme, com indicações precisas de onde seria feita cada cena, quanto tempo ela deveria durar na montagem final e em que ponto do filme estava localizada. E tudo deu certo.

Desde o primeiro minuto de projeção, fica evidente que “Encurralado” não é um telefilme comum. Os créditos são apresentados durante uma longa tomada subjetiva, algo bastante incomum em TV, que mostra um veículo saindo de uma garagem e deixando uma cidade para pegar a estrada. Spielberg inclusive comete uma ousadia bem-vinda: põe o personagem principal, o vendedor David Mann (Dennis Weaver), para viajar sozinho, sem ninguém com quem dividir o pavor de estar sendo perseguido por um completo estranho.

Essa decisão obriga o cineasta a trabalhar com a criatividade, através de artifícios diversos (narração em off, closes fechados nos olhos), comunicar a platéia o estado de nervos de David. Isso precisa ser feito porque o motorista não tem com quem conversar – e o silêncio enervante de quase toda a viagem, quebrado apenas pelo rádio e pelo ronco aterrador do caminhão que o persegue, ajuda colocar o espectador no lugar do vendedor. Além disso, Spielberg deixa para apresentar o protagonista depois do primeiro incidente entre ele, motorista de um Plymouth vermelho, e o desconhecido condutor do velho caminhão-tanque que se arrasta pelas estradas como um dinossauro, soltando rolos de fumaça preta.

O grande truque do roteiro de Richard Matheson (da série “Além da Imaginação”) para manter o espectador grudado na cadeia é sempre acrescentar à trama básica pequenos incidentes, que mantêm o elemento inesperado, o senso de excitação e a novidade. Aos poucos, vamos descobrindo que o simples ato de ultrapassar o caminhão pode ter despertado a fúria do psicopata que o dirige. Ato após ato, o desconhecido caminhoneiro mostra que não vai medir limites para infernizar a vida do pobre vendedor, que afunda cada vez mais no pânico e não tem a mínima idéia do que fazer a seguir. O suor frio que banha sua testa quase pinga do lado de cá da tela.

Com a tensão crescendo a cada minuto, Spielberg utiliza uma velha lição do mestre Alfred Hitchcock para manter o suspense durante toda a duração do filme: ele manipula o tempo, esticando-o (a parada do vendedor na lanchonete, quando tenta descobrir a identidade do caminhoneiro) e espremendo-o (o clímax, que ocorre quando os dois veículos atravessam uma montanha), apenas para jogar com os nervos do espectador. Aliás, o diretor de “E.T.” admite abertamente a influência, dizendo que tratou “Encurralado” como se fosse um projeto de Hitchcock e classificando o telefilme como “Os Pássaros sobre rodas”. Slogan perfeito.

Apesar de tantos acertos, a chave do sucesso do filme veio mesmo de Richard Matheson, que desde o primeiro tratamento do roteiro ancorou o enredo em uma premissa básica: o rosto do caminhoneiro jamais seria mostrado. Vemos as mãos, os pés, a silhueta ao volante, mas jamais o rosto. Dessa maneira, “Encurralado” apela para um dos temores mais primais do ser humano – o medo do desconhecido, daquilo que não se pode ver. O caminhão sinistro, escolhido por Spielberg porque o formato da carroceria lembra o rosto distorcido de um monstro, vira um arquétipo em que cada membro da platéia pode visualizar seu medo interior. É por isso que muitos fãs continuam a considerar “Encurralado” como um dos melhores filmes de Spielberg.

A Universal lançou na Brasil a edição de colecionador em DVD de “Encurralado”. É um disco simples, mas repleto de material extra. São três documentários. O mais longo traz Spielberg relembrando detalhes das filmagens (35 minutos). Um segundo mostra o cineasta relembrando seus tempos de diretor de TV (10 minutos). O terceiro enfoca o roteirista Richard Matheson comentando o processo de produção do conto (10 minutos). Todos estão legendados. Há ainda uma galeria de fotos dos bastidores.

Já o filme aparece com excelente qualidade de imagem, apresentada no formato original (standard 1.33:1) e com 16 minutos a mais. Essa “versão do diretor” foi montada um ano após a exibição na TV, quando a NBC decidiu lançar “Encurralado” nos cinemas europeus e precisava ampliar a duração para o mínimo de 90 minutos. Em termos de som, a novidade é melhor ainda. Além de trilhas em inglês e português no formato Dolby Digital 5.1, há uma pista sonora em inglês no formato DTS, formato superior em que a equalização sonora (muito importante nas cenas de perseguição) ganha em volume e distribuição espacial.

– Encurralado (Duel, EUA, 1971)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Dennis Weaver, Jacqueline Stone, Eddie Firestone
Duração: 90 minutos

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