Enfermeira Betty

03/10/2006 | Categoria: Críticas

Sátira deliciosa tira sarro da obsessão que certos setores da classe média nutrem por telenovelas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Depois de dirigir dois pequenos e elogiados filmes independentes, o diretor norte-americano Neil LaBute aportou na rota dos grandes estúdios com “Enfermeira Betty” (Nurse Betty, EUA, 2000), uma sátira deliciosa que tira um sarro impagável da obsessão que certos setores da classe média nutrem por telenovelas. Flertando com diversos gêneros – o thriller de mistério, o road movie, a comédia de situações – e recusando uma filiação mais concreta a qualquer um deles, LaBute conseguiu criar um filme que é não apenas original, mas também acessível a diversos tipos de público. O resultado é um triunfo de cinema inteligente.

A história parte de uma premissa que é, além de inédita, inteiramente sintonizada com o mundo atual, onde os limites entre realidade e fantasia ficam cada vez menos claros. Sinteticamente, a trama narra a história de uma garota infeliz no casamento que, após sofrer um grande trauma, passa a imaginar que está vivendo dentro de sua novela predileta, enquanto é procurada pela polícia e perseguida por uma dupla de assassinos de aluguel. “Enfermeira Betty” possui a atmosfera de um filme de David Cronenberg (há certa semelhança com o excepcional “Marcas da Violência”, de 2005), mas sem radicalismos oníricos e com uma história bastante linear. No todo, soa como uma elegante pedrada na família norte-americana tradicional, mas travestida de filme comum.

Betty (Renée Zellweger) é a protagonista. Ela trabalha como garçonete em uma pequena lanchonete em uma cidade pequena, no interior dos EUA. Está presa em um casamento infeliz com o grosseirão Del (Aaron Eckhart), e seu único refúgio é assistir todas as noites, com ar sonhador, a uma soap opera (o equivalente norte-americano às novelas das 20h do Brasil). Certo dia, ela testemunha por acidente o assassinato do próprio marido, envolvido com drogas. O trauma da visão horripilante faz com que a mente frágil de Betty renuncie à dura realidade. Subitamente, ela imagina ser outra pessoa: uma enfermeira que vive dentro da trama de sua telenovela preferida.

Desta forma, Betty decide partir, com a cara e a coragem, para a Califórnia, com o objetivo de encontrar o personagem principal da novela, Dr. David Ravell (Greg Kinnear), que na fantasia é um ex-noivo. A intenção é pedir a ele um emprego. Ela não sabe disso, mas leva no encalço não apenas a polícia local, que investiga a morte de Del, mas também uma dupla de matadores de aluguel (Morgan Freeman e Chris Rock). Os bandidos acreditam que ela pode estar com o valioso objeto de discórdia que provocou a morte do marido. Pronto: o cenário está armado para uma trama estimulante e imprevisível, que satiriza a obsessão muito feminina por celebridades e soca sem piedade a família americana por excelência.

Neil LaBute é, essencialmente, um cineasta clássico. Ele sabe que o mais importante é contar bem a história, sem chamar a atenção para detalhes técnicos, e faz isso muito bem. A estratégia abre espaço para que brilhem dois elementos fortes: o excelente roteiro e o elenco. O texto, premiado em Cannes 2000 e assinado por John C. Richards e James Flamberg, está recheado de situações inusitadas e senso de humor refinado. Isto permite que os atores se esbaldem. Renée Zellweger possui o ar ingênuo e sonhador perfeito para o papel da protagonista, Greg Kinnear está sólido como o galã canastrão, e Morgan Freeman se diverte à beça como um assassino, digamos, um tanto… emocional.

O DVD do filme é da Universal, é simples e contém uma galeria de cenas cortadas. O filme em si aparece em boa cópia, com formato correto de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1).

– Enfermeira Betty (Nurse Betty, EUA, 2000)
Duração: Neil LaBute
Elenco: Renée Zellweger , Greg Kinnear, Morgan Freeman, Chris Rock
Duração: 106 minutos

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