Enigma da Pirâmide, O

18/11/2005 | Categoria: Críticas

Produção de Steven Spielberg tem o mérito de apresentar o primeiro personagem em CGI do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Grande parte das aventuras que deixaram marcas afetivas na memória de quem foi adolescente na década de 1980 tem o dedo de Steven Spielberg. Na época, o diretor de “E.T.” tinha a fama de ser o maior conhecedor dos gostos do público jovem a trabalhar em Hollywood. Dessa forma, as produções que saíram do forno da produtora dele, a Amblin, sempre eram recebidas com grande expectativa, vide o que ocorreu com a série “De Volta para o Futuro” e com “Os Goonies”, entre outros. Um dos títulos dessa safra que menos fez sucesso foi “O Enigma da Pirâmide” (Young Sherlock Holmes, EUA/Inglaterra, 1985). A obra assinada por Barry Levinson, no entanto, cavou um lugar na história por outros meios.

Embora tenha passado em branco nas bilheterias, “O Enigma da Pirâmide” ganhou fama por ser o primeiro filme de Hollywood a colocar um ator de carne e osso contracenando com um personagem 100% digital (o chamado CGI). A cena em questão acontece na primeira metade do filme e ocorre durante uma alucinação produzida por uma poderosa droga ministrada às vítimas de um misterioso assassino encapuzado através de uma zarabatana. A alucinação faz um sacerdote ver um cavaleiro medieval descer do vitral da igreja e atacá-lo com uma espada.

A cena, que levou quatro meses para ser finalizada nos computadores da Industrial Light & Magic, foi concebida por um talentoso animador que havia trabalhado na Disney e estava prestes a criar seu próprio estúdio de animação digital. O nome dele era John Lasseter, e ele se tornaria não apenas o diretor do primeiro longa-metragem feito inteiramente no computador (o divertido “Toy Story”), mas também o homem mais poderoso do estúdio independente mais admirado por onze entre dez cinéfilos do planeta: a Pixar.

Apesar do fracasso financeiro, não há nada de errado com o filme. “O Enigma da Pirâmide” não fez o sucesso pretendido por um grupo de razões que não tem relação com a qualidade cinematográfica. Para começar, as referências ao universo de Sherlock Holmes eram desconhecidas pelo público-alvo, formado por garotos que nem sabem direito quem foi o personagem de Sir Arthur Conan Doyle. Depois, a trama é ambientada no ano de 1870, durante a era vitoriana de Londres, uma época com que os adolescentes não têm familiaridade. Para encerrar, há diversas alusões à cultura egípcia no enredo, e o terceiro elemento alienígena a cultura pop adolescente foi a pá de cal em cima da produção.

Pena: “O Enigma da Pirâmide” tem todos os ingredientes de uma aventura despretensiosa, divertida e inteligente para o público jovem. O filme fantasia como o detetive Sherlock Holmes (Nicholas Rowe) e o fiel escudeiro Watson (Alan Cox) teriam se conhecido, no colégio interno, quando ambos eram estudantes. Aliás, o primeiro encontro entre eles é uma das melhores cenas; nele, Holmes dá uma amostra vívida do seu famoso raciocínio lógico, adivinhando não apenas o nome do novo colega de classe, mas também a origem do rapaz, a profissão do pai dele e até os gostos culinários.

A ambientação vitoriana é perfeita, a fotografia de Stephen Goldblatt e Stephen Smith constrói composições originais e interessantes (as tomadas voadoras do protótipo de avião que o professor aposentado Waxflatter, por exemplo, são excelentes), e o roteiro do futuro diretor dos dois primeiros filmes de Harry Potter, Chris Columbus, é bem divertido. O mistério a ser desvendado pelo futuro detetive não é muito complicado de desfiar, para os cinéfilos, mas pode servir como um verdadeiro teste para adolescentes, que afinal são o público principal da aventura. Ótimo programa.

O DVD é um lançamento da Paramount. O filme foi restaurado, tem imagem no corte original (widescreen 1.78:1) e trilha de áudio em inglês (Dolby Digital 5.1) e português (DD 2.0). Não há extras.

– O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes, EUA/Inglaterra, 1985)
Direção: Barry Levinson
Elenco: Nicholas Rowe, Alan Cox, Sophie Ward, Anthony Higgins
Duração: 109 minutos

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