Enigma de Fermat, O

21/05/2008 | Categoria: Críticas

Mistura de enredo estilo Agatha Christie com charadas de palavras cruzadas é divertimento sem culpa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O que se pode esperar de um filme cuja ação dramática se resume a quatro matemáticos trancados dentro de uma sala, resolvendo enigmas, durante uma hora e meia? Errou quem imaginou que o tédio dominaria um longa-metragem com esta sinopse. “O Enigma de Fermat” (La Habitación de Fermat, Espanha, 2007) funciona como uma mistura ágil e repleta de tensão entre uma trama calcada em Agatha Christie e charadas de revistas de palavras cruzadas. É um thriller legítimo que marca a estréia de uma dupla de cineastas espanhóis novatos, cujo objetivo principal é proporcionar entretenimento com cérebro. Apesar da semelhança exagerada com pelo menos duas franquias de certo prestígio, o filme funciona.

A premissa traçada pelos dois diretores estreantes, que também assinam o roteiro, dificilmente poderia ser mais simples e direta. A história começa quando vários matemáticos de prestígio, na Espanha, recebem cartas contendo um desafio em forma de números. Os quatro que conseguem decifrar o enigma recebem convites, oriundos de um misterioso sujeito que se autodenomina Fermat, para participar de um encontro secreto, a fim de tentar resolver uma equação matemática secular. Ao se reunirem, numa elegante mansão localizada numa estrada deserta, eles descobrem que foram atraídos para uma armadilha, e que terão de solucionar charadas para escapar da morte certa, enquanto tentam desesperadamente descobrir uma saída.

Originalidade não é bem o forte de Piedrahita e Sopeña, que buscaram referências em duas séries de filmes bem conhecidas pelos amantes de horror tipo B. Não é preciso ser nenhum especialista para perceber que a situação dramática proposta pela obra remete diretamente à criativa série “Cubo”, de Vicenzo Natali, e à descarga sádico-adolescente de sangue chamada “Jogos Mortais”. Há, ainda, uma pequena trama paralela (usando a lógica, os matemáticos tentam descobrir o autor da brincadeira de mau gosto, nos intervalos dos enigmas que chegam via telefone celular) que descende diretamente dos trabalhos de Agatha Christe, como “O Caso dos Dez Negrinhos”. Como os romances da escrita inglesa, “O Enigma de Fermat” não tem muita substância, mas prende o espectador sem jamais desprezar sua inteligência, detalhe raro e elogiável para o gênero.

A direção de Piedrahita e Sopeña, discreta como convém, não abre muito espaço para que os intérpretes se destaquem, já que a composição de personagens não tem muita importância no contexto da ação dramática. O roteiro acerta, sobretudo, pela estrutura compacta, em que cada cena tem uma razão exata para estar ali. No começo do filme, por exemplo, alguns espectadores podem estranhar o fato de o histórico de apenas três dos quatro personagens serem explorados, antes da chegada à mansão fatídica. O motivo para isso, porém, logo vai ficar claro, à medida que os diretores liberam, pouco a pouco, informações novas que interligam os passados dos quatro matemáticos. Melhor: todas as informações são obtidas através do raciocínio lógico, bem na linha Agatha Christie.

Um pequeno problema está, por outro lado, na qualidade dos enigmas propostos pelo roteiro. Eles envolvem pouco de matemática e muito de lógica (ou seja, não faz muito sentido que todos os personagens sejam matemáticos), e a qualidade geral cai muito após as duas ou três primeiras charadas serem decifradas – não por coincidência, é o momento exato em que os personagens passam a dedicar mais tempo a buscar compreender melhor a situação, e encontrar uma saída para ela, do que aos enigmas em si, o que os empurra para segundo plano, dentro da estrutura dramática. De resto, os mais atentos irão encontrar pelo menos um furo de lógica – algo grave, num filme todo estruturado nesse tipo de raciocínio – que ocorre já no terceiro ato, quando a ação dramática já está tão acelerada que o espectador nem se preocupa mais com furos, pois apenas torce para que todo mundo escape ileso.

“O Enigma de Fermat” foi um grande sucesso de crítica e público na Espanha, no segundo semestre de 2007, tornando-se a segunda produção mais lucrativa do país no período (perdeu apenas para o horror “O Orfanato”). O longa-metragem ganhou, ainda, dois prêmios no Fantasporto, maior festival de cinema fantástico da Europa. Uma curiosidade é que os dois diretores/roteiristas, assim como parte do elenco, são mais conhecidos na Espanha pelos trabalhos em programas cômicos de televisão. Que eles tenham escolhido um gênero tão distinto para estrear na tela grande é, talvez, um sinal positivo. Tomara que continuem assim.

– O Enigma de Fermat (La Habitación de Fermat, Espanha, 2007)
Direção: Luis Piedrahita e Rodrigo Sopeña
Elenco: Lluís Homar, Alejo Sauras, Ellena Ballesteros, Santi Millán
Duração: 88 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »