Enigma de Kaspar Hauser, O

27/09/2006 | Categoria: Críticas

História aborda, de forma espontânea, questões que a Filosofia e a Religião não conseguem responder com clareza

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um dos mais conhecidos e importantes longas-metragens alemães produzidos na década de 1970, “O Enigma de Kaspar Hauser” (Jeder für sich und Gott gegen alle, Alemanha, 1974) é uma demonstração perfeita de que o Cinema pode ser, mais do que uma arte, também uma ferramenta científica importante. Ao narrar com uma abordagem concisa um episódio real ocorrido na cidade de Nuremberg, durante a primeira metade do século XIX, o cineasta Werner Herzog abordou, de forma espontânea, questões essenciais que a Filosofia e a Religião não conseguem responder com clareza.

O filme discute temas áridos oriundos da mais pura metafísica – a natureza da fé, a existência de Deus, a diferença entre sonho e realidade – mas o faz sem a necessidade de verbalizar essas questões. Certa vez, ao comentar a obra de Krysztof Kieslowski, Stanley Kubrick comentou que o diretor polonês tinha o raro talento de dramatizar suas idéias através de histórias, de ações, sem a necessidade de transformá-las em palavras. É precisamente esta a maior qualidade de “Kaspar Hauser”: fazer o espectador questionar conhecimentos tão fortemente enraizados que não pensamos mais neles.

A história real de Kaspar Hauser ocorreu em 1828, na Alemanha. Certo dia, no mês de abril, um rapaz de 17 apareceu na praça principal da cidade. Ele não sabia falar e nem andar. Trazia um livro de orações e uma carta, na qual era explicado que o garoto havia sido criado dentro de um porão, na companhia de uma cama e um cavalo de madeira. O único contato humano que tivera era a ocasional companhia de um homem, que lhe ensinara a escrever a expressão “Kaspar Hauser” – que os moradores de Nuremberg interpretaram como o nome do rapaz – e a pronunciar uma única frase (“quero ser cavaleiro, como meu pai”).

Os habitantes da cidade ficaram fascinados. Hauser foi exibido como atração de circo e também estudado por pesquisadores de diversas disciplinas, todos interessados em observar a reação do rapaz quando exposto a um novo conhecimento. Werner Herzog tinha exatamente a mesma intenção ao abordar a história no filme: explorar a idéia de que tudo aquilo que fazemos, mesmo as atividades mais simples, são sociais (e, portanto, aprendidas durante a infância). Quer um exemplo? Veja a cena em que Kaspar Hauser (Bruno S.) é exposto a uma vela. Curioso, ele põe a mão na chama e a retira depressa quando sente dor, mas não faz caretas e nem grita – apenas olha para frente, assustado, enquanto as lágrimas caem. O recado é claro: para Herzog, até mesmo a forma como choramos é um ato social usado para chamar a atenção.

Para interpretar o personagem principal, um ator comum não bastaria. Herzog sabia disso, e encontrou a pessoa perfeita assistindo a um documentário sobre músicos de rua. Foi assim que ele descobriu Bruno S. O rapaz, que tinha quase 40 anos na época das filmagens, era filho de uma prostituta e havia passado a maior parte da adolescência numa instituição para deficientes mentais. Bruno era surrado regularmente pela mãe e ficara surdo por um período devido às pancadas. O resultado é que se tornou um adulto recluso, fechado, que não sabia conversar e não conseguia expressar emoções, mas possuía talento verdadeiro para música. Era parecido com o Kaspar Hauser original.

A interpretação de Bruno é o verdadeiro prato de resistência do filme. Na verdade, talvez nem seja possível falar em interpretação, uma vez que Bruno não estava representando. Ele se sentia mesmo tremendamente desconfortável na presença de outras pessoas (“por que tenho que aprender tudo? Por que as coisas não são tão naturais quanto respirar?”, pergunta ele a certa altura, resumindo lindamente seu drama). Recitava as frases monocordicamente, de forma quase inexpressiva. Seria o pior ator do mundo em outro filme, mas aqui está 100% dentro do personagem. A decisão de Herzog de escalar Bruno para o papel faz de “Kaspar Hauser” um filme, mais do que apenas inteligente, profundamente comovente, e sobretudo humano.

O DVD da Versátil não tem extras, mas a cópia do filme tem excelente imagem (widescreen 1.77:1 anamórfico) e som OK (Dolby Digital 2.0). A edição foi baseada no DVD norte-americano da Anchor Bay, mas perdeu o comentário em áudio de Herzog.

– O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle, Alemanha, 1974)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Willy Semmelrogge
Duração: 110 minutos

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