Enigma de Outro Mundo, O

05/06/2007 | Categoria: Críticas

Thriller sci-fi de John Carpenter tem efeitos especiais impressionantes e impõe atmosfera claustrofóbica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um estudioso da pós-modernidade pode encontrar com facilidade, em “O Enigma de Outro Mundo” (The Thing, EUA, 1982), sinais das principais teorias relacionadas à cultura pós-moderna. O principal sinal é a crise de identidade que toma conta dos doze habitantes do acampamento científico norte-americano, estabelecido na Antártica, cenário da ação principal: eles sabem que entre eles há um inimigo, mas não sabem quem é. Pior ainda: o dito-cujo pode mudar de hospedeiro, de forma que cada um dos doze homens pode ser outra pessoa no momento seguinte. As identidades mutantes estão entre as mais importantes características da cultura pós-moderna.

Por dramatizar este conceito com simplicidade, sem precisar expô-lo em palavras, o thriller de ficção científica dirigido por John Carpenter já merece freqüentar qualquer lista de obras mais representativas dos anos 1980, época em que o conceito de pós-modernidade ganhou força. Melhor atitude, porém, é deixar de lado esse papo científico-filosófico e se concentrar na força claustrofóbica de um filme que é tão simples e coeso quanto eficiente. Graças a efeitos especiais revolucionários e a uma direção segura, “O Enigma de Outro Mundo” emplaca fácil um lugar entre os melhores títulos de Carpenter, nome imprescindível para compreender o moderno cinema de horror.

Projetado como refilmagem de um longa-metragem de 1951, “O Enigma de Outro Mundo” ganhou fôlego próprio graças à abordagem autoral aplicada pelo cineasta. Do filme original de Howard Hawks (diretor que Carpenter sempre venerou), restou apenas o argumento: grupo de cientistas enclausurado no duro inverno do Pólo Sul encontra, enterrado sob o gelo, um ser alienígena de 100 mil anos, capaz de se transmutar em qualquer forma viva. Depois que o alien malvado se infiltra no grupo, seus integrantes passam a desconfiar um dos outros, uma vez que qualquer um pode ser o vilão. Em condições cada vez mais inóspitas, os cientistas vão morrendo um a um, dizimados tanto pelo ET quanto pela paranóia injetada no grupo pela presença invisível do alien.

“O Enigma de Outro Mundo” é talvez o filme em que John Carpenter conseguiu trabalhar de forma mais eficiente a construção de uma atmosfera realista. Sem qualquer preocupação em desenvolver os personagens, o cineasta se preocupa em construir um suspense sólido, enfatizando sempre a sensação de isolamento extremo e esquizofrenia gerada pela situação. A trilha sonora minimalista do mestre Ennio Morricone (basicamente duas notas graves insistentemente repetidas) deixa os nervos à flor da pele, e os efeitos especiais do mago Rob Bottin, então estreando no cinema aos 22 anos, colocaram o filme na galeria dos thrillers sci-fi mais realistas já produzidos.

Algumas cenas eletrizantes merecem destaque, em especial a sanguinolenta seqüência que começa com uma massagem cardíaca aparentemente inofensiva. A abertura, que mostra um cientista norueguês aparentemente maluco perseguindo um lobo com um rifle e um helicóptero, é brilhante em termos de narrativa e atmosfera, pondo o espectador na mesma situação dos norte-americanos: não sabemos de nada, mas instintivamente sabemos que há algo de muito estranho e perigoso acontecendo. Um final amargo e depressivo encerra o thriller com chave de ouro.

O DVD , simples e lotado de extras, faz parte de uma coleção especial desenvolvida com carinho pela Universal. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é excelente. Os extras incluem um excelente documentário (83 minutos), duas cenas de animação em stop motion que acabaram excluídas da montagem final, takes de efeitos especiais não-finalizados, takes da locação original, trailer, galerias de fotos e storyboards, erros de gravação e comentário em áudio com Carpenter e Russell. O material extra, infelizmente, só tem legendas em inglês.

– O Enigma de Outro Mundo (The Thing, EUA, 1982)
Direção: John Carpenter
Elenco: Kurt Russell, Wilford Brimley, T.K. Carter, David Clennon
Duração: 109 minutos

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