Ensaio Sobre a Cegueira

01/01/2009 | Categoria: Críticas

Fernando Meirelles propõe experiência cinematográfica e sensorial, que pode ser tão ousada e bonita quanto dura e desconfortável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Fernando Meirelles era apenas um talentoso publicitário que sonhava em fazer cinema quando leu, em 1995, o romance “Ensaio Sobre a Cegueira”, do escritor português José Saramago. Ficou tão fascinado que decidiu: aquela história seria perfeita para marcar sua estréia no mundo da Sétima Arte. Meirelles entrou em contato com o romancista, que foi enfático na negativa. Saramago não queria ceder os direitos do livro para nenhum cineasta, fosse veterano ou novato. O diretor brasileiro deixou para lá e foi ficar famoso no mundo todo com “Cidade de Deus” (2002). Mas quis o destino que os caminhos de Fernando Meirelles e da parábola criada pelo português voltassem a se encontrar, 13 anos depois. O resultado foi “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008), uma sofisticada e corajosa investigação sobre aspectos sombrios da natureza humana.

Trata-se de um longa-metragem que exibe uma série de arrojos e acertos, tanto de ordem estética quanto narrativa. Pode-se até dizer que foi melhor, para o projeto, que Fernando Meirelles ganhasse experiência e fama internacional, antes de debruçar-se sobre ele. Além de atrair para o filme um elenco de gabarito, o diretor brasileiro também pôde ter nas mãos um orçamento generoso (US$ 20 milhões), bancado por um consórcio de três produtoras (uma canadense, uma japonesa e uma brasileira) que não tinham a mesma preocupação comercial dos grandes estúdios de Hollywood. Graças a esta conjunção de fatores, Meirelles teve dinheiro e tranqüilidade para bancar todas as experiências técnicas com som e imagem que a natureza da história exigia, sem precisar se preocupar em fazer concessões para atrair grandes platéias.

“Ensaio Sobre a Cegueira” exigiu dos envolvidos uma abordagem diferente, que pusesse o espectador no mesmo estado de desorientação e desconforto experimentado pelos personagens. A história, povoada por personagens sem nome, é uma parábola intrigante. Em local e época propositalmente não identificados, uma doença desconhecida começa a afetar as pessoas de forma rápida e indiscriminada – uma espécie de cegueira branca (“como se todas as luzes se acendessem ao mesmo tempo”, descreve um dos personagens). Como não existe explicação médica para o fenômeno, os primeiros habitantes a sofrerem do problema são encarcerados em um hospício e abandonados à própria sorte. Vivendo num ambiente de decadência e depravação, o grupo precisa se defrontar com a própria natureza instintiva de cada um. É o ambiente propício para que cada ser humano mesmo o que tem de melhor – e também de pior – dentro de si.

O tema principal da história, claro, é a dicotomia cultura X natureza. A parábola imaginada por Saramago encarcera um grupo bem heterogêneo de pessoas – um oftalmologista (Mark Ruffalo), uma prostituta (Alice Braga), uma criança (Mitchell Nye), um negro de tapa-olho (Danny Glover), um casal de japoneses (Yusuke Iseya e Yoshino Kimura) e outros – dentro de um ambiente onde as regras de convívio social são eliminadas. É um estado de pura anarquia, de caos absoluto. Num ambiente assim, as pessoas não têm nada a obedecer além do instinto de sobrevivência. Viram verdadeiros animais. A parábola, portanto, permite que a equipe criativa investigue aspectos da condição humana que de outra forma estariam mascarados. O resultado, graças às opções de estilo feitas pela equipe criativa, pode parecer frio, mas recompensa quem fizer um esforço extra para entrar no espírito do filme.

Fernando Meirelles escolheu uma abordagem bastante singular para dramatizar a situação extrema. Ele utiliza todas as ferramentas disponíveis para contar a história – fotografia, design de som, direção de arte, trilha sonora – de forma sofisticada e nunca óbvia. Embora a narrativa seja classicamente dividida em três atos (rua/hospício/rua), Meirelles e o roteirista Don McKellar acertam em cheio ao adotar, durante todo o filme, o ponto de vista único da mulher do médico (Julianne Moore). Não por acaso, ela é a única personagem que continua enxergando normalmente. Para poder ficar dentro do manicômio junto com o marido, ela mente – e torna-se a única pessoa a assistir, com os próprios olhos, ao inesgotável processo de degradação humana que os encarcerados experimentam. É uma duríssima jornada emocional, que a fará passar por mudanças profundas.

Meirelles sabia que para compreender – e, mais do que isso, sentir – as nuances emocionais do duro processo de aprendizado que todas aquelas pessoas precisam enfrentar, o publico teria que permanecer perto da única personagem que, como o espectador, consegue ver tudo. É exatamente por isso que o talento da tal atriz precisava ser imenso para o filme funcionar em um nível emocional, e não apenas provocar admiração em uma escala puramente intelectual. Por isso, a chave para entrar no clima de “Ensaio Sobre a Cegueira” está na escalação de Julianne Moore para o papel principal. Somente uma atriz maiúscula poderia sensibilizar o público para o drama da personagem, porque não é um drama fácil – e as escolhas estéticas do Meirelles tornam a fruição ainda mais difícil, já que as experiências com imagem e som nunca deixam a platéia esquecer que está vendo um filme.

Julianne Moore, claro, tem o talento exigido para a tarefa. Ela não precisa de diálogos ou de artifícios dramáticos rasos para provocar na platéia a mais genuína empatia. A atriz lidera um elenco muito bom, que dá vivacidade e alma a personagens que nunca conhecemos em profundidade. Mark Ruffalo, Danny Glover e Gael Garcia Bernal, os dois últimos em participações pequenas, são outros destaques. O ator mexicano, inclusive, é responsável pelos raros toques de humor existentes na história, graças às improvisações freqüentes que fazia nos sets de filmagem. Veio delas, por exemplo, a hilariante cena dos cegos cantando um hit de Stevie Wonder (o improviso custou a bagatela de US$ 50 mil pelos direitos de uso da canção, valor que não seria possível bancar se a produção não fosse de tamanho médio).

Com o elenco certo nas mãos, o cineasta paulistano pôde arriscar bastante nas áreas técnicas, e o resultado é arrojado e original. A parceria com o fotógrafo César Charlone, por exemplo, rendeu uma fotografia ousada. Priorizando as tonalidades frias, com muito branco e azul, Charlone usa vários recursos para eliminar a estabilidade da imagem e provocar um senso permanente de desorientação. O primeiro ato, por exemplo, é inteiramente filmado com a câmera na mão, com movimentos claramente improvisados. Durante todo o filme há muita manipulação do foco, com uso abundante de imagens desfocadas, ou com mudanças radicais do foco entre o primeiro e o segundo planos. O uso de reflexos em espelhos e janelas também é intenso. Na iluminação, Charlone usa o diafragma bem aberto, deixando que a película capte mais luz do que o normal. Assim, obtém imagens leitosas, esbranquiçadas, que às vezes cegam a platéia. Tudo isso ajuda o espectador a compartilhar um pouco da experiência dos personagens.

O design de som é outro aspecto planejado para desorientar a platéia. Meirelles utiliza o som, com freqüência, como elemento de transição, de ligação entre seqüências (com o áudio de uma cena terminando dentro da próxima, ou começando antes de vermos as imagens correspondentes). Aos poucos, essa falta de sincronia entre a imagem e o som vai sendo ampliada, até vermos, já no terceiro ato, uma dessincronia quase que completa. No final do filme, temos várias seqüências em que ouvimos o áudio de uma cena completamente distinta do que estamos vendo. Durante uma caminha dos personagens pelas ruas da cidade devastada, por exemplo, ouvimos um diálogo entre eles que não está acontecendo naquele mesmo momento. O casamento incomum entre som e imagem é muito feliz, e contribui para colocar o espectador numa posição em que ele precisa, como os personagens, reaprender a usar os sentidos.

Por fim, a trilha sonora de Marco Antônio Guimarães amarra com firmeza este pacote técnico incomum. O músico mineiro cria sons discretos, com arranjos exóticos, atonais e dissonantes, muitas vezes utilizando instrumentos raros como xilofone e berimbau, modulando zumbidos de intensidades variadas ou criando ruídos de percussão, com o uso de garrafas e latas. A música, portanto, é utilizada com a mesma função de desestabilizar o senso de orientação da platéia. Com tudo isso, “Ensaio Sobre a Cegueira” acaba se mostrando uma completa ousadia cinematográfica e sensorial, mais do que um simples filme. É certo que tanto experimentalismo retira muito da espontaneidade e da delicadeza que se esperaria de uma história com veia poética pronunciada, mas o filme propõe uma experiência tão ousada e bonita quanto dura e desconfortável.

A edição nacional do DVD para locação, da Fox, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1). 

– Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008)
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael Garcia Bernal
Duração: 120 minutos

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=HNCddSsgm-8[/youtube]

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