Enterrado Vivo

25/02/2011 | Categoria: Críticas

Espanhol Rodrigo Cortés mostra criatividade ao encerrar a platéia junto com um homem desesperado dentro de um caixão durante 95 minutos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma das seqüências mais tensas do segundo volume de “Kill Bill” (2004) acompanha a personagem de Uma Thurman tentando escapar de um caixão, onde foi enterrada após levar um tiro com uma bala de sal (que não mata). Quem viu o filme sabe: apesar do humor negro tradicional da obra de Quentin Tarantino, é impossível conter um arrepio de medo quando a gente se coloca na desesperadora situação da vítima. Agora imagine esse episódio, que dura cinco minutos em “Kill Bill”, expandido para a duração completa de um longa-metragem. Pensou na agonia da platéia? Pois bem: dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés, “Enterrado Vivo” (Buried, Espanha, 2010) faz exatamente isso – e constrói uma experiência audiovisual das mais claustrofóbicas.

Em certo sentido, o filme é radical. Durante 95 minutos, os espectadores são confinados dentro do espaço mínimo de um caixão com o motorista Paul Conroy (Ryan Reynolds). Contratado por uma empresa norte-americana para trabalhar no Iraque, ele teve o comboio atacado por terroristas, desmaiou e acordou dentro do esquife, enterrado em lugar incerto do deserto iraquiano. O filme documenta os esforços desesperados de Conroy para conseguir escapar da armadilha. Detalhe: a câmera não deixa o caixão nem por um segundo. Não há flashbacks, sonhos ou quaisquer recursos narrativos para diluir a sensação de sufocamento que a situação dramática nos obriga a sentir.

O medo de acordar dentro de um caixão sob a terra provavelmente é um dos pesadelos mais recorrentes do imaginário de horror do ser humano. Não foram poucos os filmes que exploraram esse medo; pense na cena de abertura de “Dublê de Corpo” (1984), de Brian De Palma, ou no episódio de CSI “Perigo a Sete Palmos” (2005), dirigido por Tarantino, ou ainda no clássico gótico “Obsessão Macabra” (1962), de Roger Corman, apenas para ficar em três exemplos mais conhecidos. O filme de Rodrigo Cortés, contudo, é possivelmente o primeiro longa-metragem que obriga o espectador a permanecer dentro do caixão, junto com a vítima do enterro prematuro, durante toda a duração do filme. Quem sofre de claustrofobia deve evitar “Enterrado Vivo”, sob o risco de enfrentar uma crise de pânico.

É preciso aplaudir a iniciativa do cineasta por enfrentar com criatividade todos os desafios logísticos e narrativos impostos pela situação dramática. Do ponto de vista técnico, por exemplo, havia o problema da iluminação. Como iluminar o ator Ryan Reynolds (especialmente o rosto, através do qual podemos acompanhar sua crescente agonia), sem romper o postulado original, o que poderia dar um ar artificial e involuntariamente cômico ao cenário? Como lançar luz suficiente às cenas para que o espectador possa acompanhar as pequenas e agoniadas ações físicas que nos dão o tamanho exato do desespero do personagem, sem abrir mão da escuridão, elemento fundamental para manter o clima claustrofóbico do filme?

A solução pensada por Cortés é simples e criativa: ainda nos primeiros minutos do filme, Paul Conroy descobre que um isqueiro foi depositado junto a seu corpo. Ao longo do filme, ele vai descobrir que outras fontes de luz foram colocadas no caixão: uma lanterna, bastões luminosos do tipo que os militares usam, e um telefone celular. Esse último objeto desempenha papel crucial na trama, porque permite resolver também um desafio narrativo – nenhum ser humano normal se poria a falar sozinho dentro de um caixão; se isso ocorresse, o público talvez pensasse que ele estava enlouquecendo. O telefone celular, então, lhe dá a possibilidade de se comunicar com outras pessoas, amigas e inimigas, expondo assim tanto o conflito dramatúrgico essencial (como sair dali antes que o ar acabe?) quanto enfatizando um lado afetivo, psicológico e emocional do personagem, o que permite à platéia se identificar com ele.

“Enterrado Vivo” possui, ainda, a vantagem de oferecer diversas leituras possíveis à platéia. Em certo sentido o filme é puro escapismo – um thriller de suspense de primeira – mas, por outro lado, também permite leituras políticas (em certo momento há uma crítica velada ao sistema trabalhista dos EUA, país em que alguns críticos enxergaram uma suposta abordagem pró-terrorismo na construção da narrativa, uma acusação estúpida e cega, para dizer o mínimo) e expõe até mesmo um improvável lado humano, através da caracterização bem cuidada do protagonista; ele vai deixando para trás toda uma vida (ordinária, naturalmente) que extrapola os limites da tela, algo sempre positivo em um filme. O terceiro ato, de quebra, carrega o longa até um clímax apavorante e corajoso.

Filmado durante 17 dias num estúdio de Barcelona, “Enterrado Vivo” consiste num curioso filme espanhol em que pouco, ou nada, entrega sua nacionalidade. Todos os atores (embora Ryan Reynolds seja o único membro do elenco que aparece em cena, ele interage com alguns colegas através do telefone) são americanos, e as situações dramáticas armadas pelo roteiro para amplificar o drama de Paul Conroy soam universais, além de críveis e perfeitamente naturais. No entanto, não se engane: toda a equipe técnica é espanhola e faz seu trabalho muito bem, com destaque para o ótimo desenho de som de James Muñoz. Um belo filme, que deve ser evitado apenas por pessoas cuja claustrofobia pode disparar sensações desagradáveis.

– Enterrado Vivo (Buried, Espanha/EUA/França, 2010)
Direção: Rodrigo Cortés
Elenco: Ryan Reynolds
Duração: 95 minutos

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