Entrando Numa Fria

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Robert De Niro tira sarro dos personagens mau-humorados que já interpretou em comédia eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Robert De Niro no papel de um sujeito paranóico, mau-humorado e olhar ameaçador. Você já viu esse filme antes, certo? Bom, desse que estou falando, só se você já assistiu à comédia “Entrando Numa Fria” (Meet The Parents, EUA, 2000). Trata-se de um daqueles filmes simpáticos que acabam cativando o público pela despretensão, pelas gargalhadas gostosas que provoca e pela química entre os atores.

A obra foi responsável por uma consolidação do astro De Niro numa carreira diferente: um comediante que brinca com a persona fechado que o astro ostentava nos filmes do mentor Martin Scorsese. De Niro já havia ensaiado um sopro de vitalidade depois do bom “Máfia no Divã”, com Billy Crystal, onde fez um chefão mafioso com síndrome de pânico. Como não é bobo, viu a chance de brincar com seus próprios estereótipos e ainda ganhar elogios.

“Entrando Numa Fria” não surgiu nas mãos do astro por acaso. O roteiro lhe foi trazido pela sócia Nancy Tenenbaum, depois que ela viu um curta-metragem do ator Greg Glienna e comprou os direitos da história. O roteiro foi recriado em cima da situação básica: o namorado apaixonado que vai passar um final de semana na casa dos pais da noiva, para conhecê-los e tentar obter a aprovação para o casamento. De Niro, que já havia feito seis comédias desde 1997, não desperdiçou a chance e conseguiu obter os US$ 55 milhões de orçamento.

Desde o início, o papel do namorado já tinha dono: Ben Stiller, escolha pessoal de De Niro, então já associado como produtor do filme. O resto do elenco ficou nas mãos de rostos desconhecidos – a julgar pelo desempenho deles, aliás, vão continuar assim. Depois da dupla de atores, que se entendeu às mil maravilhas, a terceira figura a brilhar no filme é o gato Jinx. O ator/diretor independente Owen Wilson e Blythe Danner (a mãe de Gwyneth Paltrow, ruinzinha de dar dó) não passam de figurantes para as peripécias de Stiller e De Niro.

A química entre os dois fica evidente desde o primeiro encontro. Ambos tiram sarro o tempo inteiro com personagens que marcaram suas carreiras (o De Niro frio e psicótico de “Taxi Driver” e o sujeito sensível e atrapalhado que Stiller fez em “Quem Vai Ficar com Mary?”). Os dois se deram tão bem nas filmagens que bagunçaram inteiramente o roteiro, reescrevendo cenas e improvisando em quase todos os momentos – o primeiro jantar da família, por exemplo, foi inteiramente mudado na hora, quando Stiller inventou uma historinha sobre ordenhamento de gatos. Já a seqüência em que De Niro submete Stiller ao detector de mentiras foi escrita apenas para o trailer, mas os dois atores provocaram tantas gargalhadas na equipe com os improvisos que ela acabou incluída no filme.

A obra ainda toca, ainda que superficialmente, na enxurrada de preconceitos que é marca registrada da sociedade norte-americana. Greg Foker (o sobrenome, traduzido no Brasil como Fornika, faz do sujeito um saco de pancadas ambulante, já que a pronúncia dispensa explicações) é enfermeiro e judeu, apaixonadíssimo pela professora Pam Byrnes (Teri Polo, muito fraca), e decide pedi-la em casamento durante a visita à casa dos pais dela, para o casamento da irmã, num final de semana. Só que o pai da garota, Jack Byrnes (De Niro), detesta o futuro genro de cara. Não demora muito para Greg descobrir que a confusão é muito maior: o sogro não é um comerciante de flores raras, como ele pensava, mas um espião da CIA, especialista em descobrir espiões infiltrados na agência – um expert em flagar mentirosos.

Dessa antipatia inicial surgem as melhores piadas do filme. A cada tentativa que faz para conquistar o sogrão, Greg acaba se enrolando nas próprias mentiras involuntárias e só consegue aumentar a desconfiança do velho. O desempenho dos dois é realmente um show à parte. De Niro mostra timing de comédia perfeito, e Stiller consegue ser charmoso e atrapalhado sem precisar abrir a boca. O roteiro também amarra as confusões armadas por Greg de forma inteligente e a direção deixa os atores livres para fazerem o que sabem.

O resultado foi tão legal que o DVD do filme apareceu em terceiro lugar na lista de vendas da maior loja do mundo, a Amazon, meses antes do lançamento. O disco em si possui um documentário burocrático, algumas cenas cortadas e erros de gravação (bem menos engraçados do que os presentes em “Máfia no Divã”). Há tanmbém dois comentários em áudio, um com o diretor Jay Roach e outro reunindo os dois protagonistas, o cineasta e a produtora Jane Rosenthal. Detalhe: nenhum extra tem legendas.

Entrando numa Fria (Meet The Parents, EUA, 2000)
Direção: Jay Roach
Elenco: Robert De Niro, Ben Stiller, Teri Polo, Owen Wilson
Duração: 120 minutos

| Mais
Tags:


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »