Entre o Céu e o Inferno

13/09/2007 | Categoria: Críticas

Apesar dos excessos de estilo, filme é interessante história de redenção de duas almas atormentadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

À primeira vista, “Entre o Céu e o Inferno” (Black Snake Moan, EUA, 2007) dá a impressão de ser um daqueles filmes independentes, de enredo esquisito, que forçam a barra para serem “diferentes”, e acabam sendo mais do mesmo. Na prática, porém, o drama independente de Craig Brewer (“Ritmo de um Sonho”) acaba se revelando uma surpresa de relativo interesse, atrapalhada apenas por excesso no campo do estilo – há música demais, edição demais, efeitos de iluminação/montagem demais. Se eliminados os excessos, contudo, o que sobre é uma história de redenção, que focaliza dois personagens solitários apoiando-se um no outro para superar traumas.

A história é narrada do ponto de vista de Lazarus (Samuel L. Jackson), velho guitarrista de blues que ganha a vida com uma plantação na zona rural de uma pequena cidade no sul dos EUA. Certo dia, Lazarus encontra uma garota desmaiada na estrada do sítio. Ela é Rae (Christina Ricci), jovem junkie e ninfomaníaca, surrada na noite anterior por um amigo do namorado (Justin Timberlake), um recruta do Exército que acaba de ir servir no Iraque. Triste com a viagem do rapaz, Rae só consegue suprir a ausência dele cedendo ao desejo incontrolável que nasce de traumas do passado: sexo sem freios, com qualquer sujeito que apareça pela frente, sempre tomando todas e ficando chapada.

Lazarus, que também não vem lidando muito bem com seus próprios problemas (não aceita a separação exigida pela esposa, que ainda por cima começa a namorar o próprio irmão dele), enxerga na aparição inesperada de Rae uma espécie de mensagem divina, e decide “exorcizar” os demônios interiores da menina. Como ela não quer ser curada, precisa fazê-lo à força, prendendo uma corrente na cintura da moça e amarrando-a no aquecedor da casa. Entre acessos de fúria e crises causadas pela abstinência sexual forçada, Rae começa a se afeiçoar ao músico. A aproximação entre os dois não é fácil, mas promete render bons frutos a ambos – desde que eles consigam superar os desentendimentos, algo não exatamente simples.

De certa forma, a narrativa de “Entre o Céu e o Inferno” trai muitas semelhanças com o filme anterior de Craig Brewer, o elogiado “Ritmo de um Sonho”. Nos dois casos, o diretor conta a história de pessoas “do mal” que são redimidas pela música. A diferença é o ritmo – rap no primeiro longa, blues no outro. Samuel L. Jackson, que aprendeu a tocar guitarra exclusivamente para o papel, realiza uma bela interpretação. Christina Ricci, que emagreceu bastante e aloirou os cabelos para incorporar a personagem, faz aquilo que sabe melhor: o papel de uma doidinha inofensiva que, apesar dos defeitos, acaba provocando empatia junto à platéia.

Ela passa metade do filme vestindo apenas uma calcinha branca e uma camiseta rasgada, e esta imagem bem feminina (acrescida da grossa corrente que adorna a cintura dela) é de certa forma prejudicial, porque transforma a personagem numa espécie de fetiche masculino ambulante, algo infelizmente ressaltado em algumas cenas equivocadas (confira o trecho em que Rae tenta seduzir um adolescente, forçadíssimo). Além disso, Brewer perde bastante tempo enfatizando as perturbações da garota, através de seqüências de sonho/pesadelo que abusam de trechos de canções. A trilha sonora, repleta de clássicos blues às vezes elétricos, às vezes acústicos, é de ótima qualidade, mas o excesso acaba tornando o tom geral meio histérico.

Mesmo com os defeitos, “Entre o Céu e o Inferno” é um filme interessante, com uma dinâmica muito boa entre os atores e algumas seqüências eficientes. A melhor de todas é o momento (musical, para variar) que marca o clímax do filme, com Lazarus pegando a guitarra em cima de um palco após anos de aposentadoria, como se fosse um morto ressuscitado (provavelmente vem daí o nome do personagem). Sem muitas palavras, Brewer cria um momento essencialmente cinematográfico, uma metáfora coerente para o exorcismo de um trauma que teimava em grudar na alma dos dois protagonistas. Um pouquinho mais de silêncio e delicadeza não faria mal, mas mesmo assim o resultado é positivo.

O DVD, da Paramount, vem sem extras, mas com qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) muito boa.

– Entre o Céu e o Inferno (Black Snake Moan, EUA, 2007)
Direção: Craig Brewer
Elenco: Samuel L. Jackson, Christina Ricci, Justin Timberlake, S. Epatha Merkerson
Duração: 116 minutos

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