Entre os Muros da Escola

05/07/2009 | Categoria: Críticas

Filme de Laurent Cantet, Palma de Ouro em Cannes, oferece retrato rico do caldeirão racial em que a França se encontra mergulhada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

François Bégaudeau é romancista. Já foi músico de banda de rock, desenhista e professor de Francês em uma escola na periferia de Paris. Esta última experiência profissional rendeu um romance naturalista em que expõe, com simplicidade e certo grau de rudeza, a complexidade das relações de classe na França contemporânea. O livro (lançado no Brasil em 2008, com o título de “A Turma”) rendeu, nas mãos do cineasta Laurent Cantet, uma poderosa reflexão cinematográfica sobre este tema, um dos focos primordiais de tensão nesses tempos de União Européia – a invasão do Velho Mundo pelos habitantes humildes das antigas colônias dos países ocidentais, sobretudo africanos e muçulmanos. “Entre os Muros da Escola” (Entre les Murs, França, 2008) se revela, desde o primeiro momento, um grande filme sobre essse caldeirão racial.

Como boa parte dos melhores trabalhos cinematográficos, o longa-metragem de Cantet investe na simplicidade e consegue, através dela, investigar uma multiplicidade de temáticas que enriquece a experiência da platéia. Em uma narrativa concisa, em que a ação dramática jamais ultrapassa o limite geográfico dos muros da escola (daí o título, tanto o original quanto a tradução), Laurent Cantet discute o problema da imigração na França contemporânea, a relação traumática entre colonizadores e colonizados – e há aí, inseridos, também problemas de raça e de religião – e, de quebra, a falência de um modelo de ensino baseado numa hierarquia rígida, em que o conhecimento caminha numa avenida de mão única (professores ensinam, alunos aprendem), em um processo que vem se mostrando anacrônico já há vários anos, e não apenas na França.

A grande sacada de Cantet, uma solução dramatúrgica que enriquece o filme, foi dispensar o uso de atores profissionais e convocar o próprio Bégaudeau para interpretar a si próprio. Os alunos também o fazem. Abraçando o improviso e ao mesmo tempo tratando a encenação com grande rigor formal, Laurent Cantet obtém uma dinâmica rica, em que ao público não é dada a permissão de conhecer nada sobre os personagens, excetuando-se a imagem pública que cada um projeta dentro da escola. Estamos, dessa forma, na mesma posição que qualquer outro personagem. Só podemos julgar os outros pela linguagem corporal (roupas, cabelos, gestos) e pela linguagem oral – não é à toa, aliás, que o professor, figura central do enredo em torno do qual gravita uma turma de alunos, ensina justamente a maltratada língua francesa.

“Entre os Muros da Escola” é ao mesmo tempo universal e profundamente francês em sua essência. Traça um retrato bastante rico, crítico e duro sem ser condescendente, da relação ambivalente que os franceses têm com os descendentes de africanos que habitam os subúrbios de Paris. Uma das leituras possíveis que o filme oferece mostra a escola, situada no 19º arrondissement (ou seja, um dos bairros no limite geográfico da periferia de Paris, cuja numeração se dá do centro para as bordas, em forma de caracol), como microcosmo da própria França. A diversidade multirracial dos alunos é, portanto, tanto literal quanto metafórica – e as rusgas culturais que surgem e são amplificadas no decorrer do ano letivo, tanto entre os alunos quanto destes com o professor, refletem aspectos diversos dessa relação repleta de traumas entre a antiga colônia e os novos colonizados.

Como se sabe, o filme reencena uma série de episódios reais vivenciados pelo romancista e ator enquanto era professor. A abordagem de Laurent Cantet, porém, não abraça o ponto de vista dele; é mais objetiva, quase naturalista. E se reveste de rigor formal. Os limites de tempo e lugar são estreitos e fielmente respeitados: o filme se passa no período de um ano letivo, do primeiro ao último dia, e jamais deixa as salas de aula (há apenas meia dúzia de cenas situadas fora delas, sendo algumas reuniões de professores e o epílogo, que tem vez no pátio do colégio). Para alcançar o registro documental que procurava, o diretor rodou o filme com três câmeras simultâneas, instruindo os operadores a buscar na encenação os focos de tensão que eram continuamente criados e desfeitos nas sessões de improviso. Daí a profusão de planos médios e closes, e também da edição ágil, que não perde as nuances dos debates acirrados que se travam entre alunos e professores.

Embora seja francês em sua essência, e tenha como tema central a relação de fraturas culturais e o ódio racial dissimulado que se vê atualmente na França multicultural, o filme de Laurent Cantet mostra-se universal na crítica corajosa ao modelo pedagógico anacrônico da escola média contemporânea. Neste ponto, a obra não trata de um problema francês ou europeu, mas ocidental. Nesses tempos de Internet, telefones celulares e jogos eletrônicos, professores e alunos têm dificuldades para se comunicar. O abismo geracional que divide as duas categorias é, em pleno século XXI, maior e mais profundo do que jamais foi. Sintomática, nesse sentido, é a incisiva cena em que uma aluna explica ao professor, no último dia de aula, que não aprendeu nada naquele ano letivo. Nesse sentido, “Entre os Muros da Escola” pode servir como valioso instrumento de reflexão, por parte de todos aqueles com algum grau de envolvimento em sistemas educacionais.

O DVD da Imovision contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica, respeitando o enquadramento original) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008)
Direção: Laurent Cantet
Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Juliette Demaille
Duração: 128 minutos

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