Entreatos

11/12/2006 | Categoria: Críticas

Documentário sobre a campanha de Lula em 2002 é peça histórica, independente do valor cinematográfico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Logo no início de “Entreatos” (Brasil, 2004), um breve trecho narrado pelo diretor João Moreira Salles explica o tema e o foco do filme que será visto nas próximas duas horas. A idéia inicial era acompanhar as últimas semanas da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando o PT chegou à Presidência da República após 20 anos. Com 240 horas gravadas de material bruto, o cineasta teve que se decidir por algum critério para cortar. Optou por desprezar os momentos oficiais da campanha – comícios, caminhadas, encontros públicos com autoridades e empresários – e concentrar-se na intimidade do candidato, durante aqueles 30 e poucos dias.

Obviamente, Salles sabia muito bem que estava produzindo um filme histórico, fosse ele bom ou ruim do ponto de vista cinematográfico. Afinal de contas, era ele o cineasta privilegiado que estava acompanhando, tão de perto quanto possível, os bastidores da campanha que levaria, pela primeira vez em 500 anos, um trabalhador oriundo das classes populares ao posto político mais alto da República. Como o planeta reconheceria depois, era a primeira vez que o um representante legítimo do povão chegava ao poder diretamente, por vias eleitorais, no mundo ocidental. Goste-se ou não de Lula, o momento que ele protagonizou é histórico.

O próprio Lula sabia disso muito bem. Em um dos momentos mais lúcidos do documentário, durante uma viagem no avião de campanha, o candidato trava uma discussão política animada com correligionários, e faz uma análise histórica sem falsa modéstia de seu papel na história política brasileira. “O único político de prestígio nacional no Brasil de hoje sou eu”, avalia Lula. “E o PT é um partido que não tem paralelo no mundo inteiro, porque nasceu do um movimento operário legítimo, e não de um núcleo de intelectuais e estudantes engajados que se misturaram aos povo para doutriná-lo no que achavam correto”. Ele está certo.

A face política de Lula é um dos feixes de interesse de “Entreatos”, mas está longe de ser o único. Com acesso irrestrito aos bastidores da campanha, João Moreira Salles e o fotógrafo Walter Carvalho documentam tudo: reuniões sigilosas, viagens entediantes, encontros reservados, momentos familiares. É possível ver momentos curiosos (o vice José Alencar mandando um assessor comprar para ele os mesmos remédios para rinite que o futuro ministro da Fazenda, o médico Antônio Palocci, receita para Lula) e emocionantes (Lula e a esposa Marisa, chorando descalços e sentados no chão, assistindo pela TV a uma reportagem da Globo sobre a vitória, logo após sair o resultado da eleição).

É verdade que não foram necessários muitos anos para que as imagens gravadas ganhassem uma nova conotação, a partir do chamado “escândalo do mensalão”. Afinal, várias figuras que viraram persona non grata no governo petista (José Dirceu, Duda Mendonça, Sílvio Pereira) aparecem no documentário em doses generosas. O publicitário, por exemplo, aparece ensinando Lula a batucar numa mesa com uma frase que parecia apenas engraçada na época, mas depois se tornaria irônica e até cruel: “de batucada e briga de galo eu entendo”. Aqueles que estavam entre os melhores amigos do presidente, aqueles que ele chama a todo momento de companheiros, acabaram o primeiro mandato como vilões, sob acusações pesadas de corrupção.

De todo modo, quem se sobressai em “Entreatos” é o Lula homem. E o retrato que emerge daquelas imagens é a do sujeito simples e bem-humorado, que continua indo ao mesmo cabeleireiro vagabundo desde os tempos de operário, e que não perde uma oportunidade sequer de mergulhar nas memórias de sindicalista, contando histórias saborosas do tempo em que fazia política na porta da fábrica e nos intervalos para o almoço. Apesar de sempre risonho (mesmo no único momento de irritação, com os fotógrafos de jornais que não lhe deixam em paz, ele não perde a oportunidade de fazer piada), Lula deixa nas entrelinhas que sua época mais feliz acabou muito antes da Presidência. Isto fica mais do que claro quando, a certo momento, perguntado se não tem vontade de passar algum tempo sozinho, ele desabafa: “Sempre sonho em almoçar sozinho e depois fumar minha cigarrilha sem falar com ninguém, mas sei que não vai acontecer, e não reclamo. Essa vida fui eu que escolhi”.

O DVD da Videofilmes é espetacular, desde já um dos melhores lançamentos produzidos no Brasil. O motivo principal chama-se “Atos: A Campanha Pública de Lula”. O nome é auto-explicativo. Trata-se de um novo documentário de 140 minutos, colocado na íntegra no disco 2 do pacote, e destacando também o último mês da campanha presidencial, só que por outro ponto de vista. O material, editado por Eduardo Escorel com as sobras do material captado por Salles, é excepcional.

Aliás, falar em sobras não é apenas injusto, mas incorreto mesmo, já que o filme praticamente refaz toda a trajetória vista antes em “Entreatos”, só que com duas diferenças básicas: o critério de escolha do material (entram os atos públicos de campanha, não apenas os bastidores) e o estilo bem diferente. Ou seja, deixa-se de lado, aqui, a preocupação da equipe em “desaparecer” da frente das câmeras, o que torna “Atos” um filme metalingüístico, no sentido em que é auto-consciente de si mesmo enquanto peça cinematográfica. O resultado é um produto totalmente diferente, mas de igual qualidade, contando com grande número de momentos antológicos da campanha (o telefonema hilariante de George W. Bush congratulando Lula pela vitória).

Vale lembrar que o disco 1 traz o filme oficial com excelente qualidade técnica de som (Dolby Digital 2.0) e imagem (widescreen anamórfica), e que “Atos” também mereceu a mesma qualidade impecável. Para quem se interessa por cinema, história e política brasileiros, trata-se de um lançamento essencial.

– Entreatos (Brasil, 2004)
Direção: João Moreira Salles
Documentário
Duração: 117 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »