Entrevista com o Vampiro

15/04/2007 | Categoria: Críticas

Em clima de superprodução, Neil Jordan ousa filmar uma história de amor gay entre dois vampiros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Versão cinematográfica do best-seller milionário da escritora Anne Rice, “Entrevista com o Vampiro” (Interview with the Vampire, EUA, 1994) foi concebido como uma superprodução. Feito no rastro do “Drácula” de Francis Ford Coppola (1992), título com quem divide a atmosfera gótico-decadente e a grandiloqüência quase teatral, o filme de Neil Jordan reuniu três dos maiores símbolos sexuais masculinos da época (Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas), colocou na trilha sonora uma canção da banda do momento (Guns n’Roses) e recebeu tratamento de gala, com filmagens em New Orleans, Paris, Londres e San Francisco. A resposta do público, contudo, foi apenas morna. Um mistério?

Na verdade, não. A rejeição das platéias, em especial nos Estados Unidos, tem uma explicação bastante simples: não são muitas as pessoas que aceitam bem a idéia de assistir, durante mais de duas horas, uma história de amor gay em que o casal protagonista é interpretado pelos dois galãs mais incensados da década de 1990. Para piorar as coisas, o irlandês Neil Jordan faz uma opção arriscada, eliminando da trama quaisquer resquícios de ação física, e concentrando-se na jornada espiritualista-filosófica de um vampiro. Pois assim é Louis (Brad Pitt), o narrador e protagonista: um morto-vivo que não perdeu a humanidade, e sente a necessidade cada vez mais forte de compreender quem é, de onde veio e para onde está indo – ou seja, as questões metafísicas que movem o ser humano desde que o mundo é mundo.

A abordagem de Jordan pode ser algo simplista, talvez, e mesmo assim resulta infinitamente mais interessante do que seria, caso optasse por narrar um conto clássico de vampiros. As coisas aqui são um pouco mais ricas do que a dualidade maniqueísta mocinho-bandido. Grosso modo, Louis poderia ser encaixado no estereótipo do herói, pois possui uma natureza bondosa e se revolta contra a imortalidade, considerando-a uma maldição (“o inferno pode não existir, mas eu vivo nele”). O sedutor Lestat (Tom Cruise), por sua vez, está mais perto do papel do vilão, já que é amoral, cínico e vaidoso. Ambos, porém, são essencialmente humanos, e fazem o que fazem por razões que cada um de nós reconhece, obedecendo a impulsos da raça. Queremos, como Louis, sobreviver. E queremos, como Lestat, companhia. Fugir da solidão. Amar e ser amados.

O longa-metragem cobre um período de 200 anos, narrados em flashback por Louis, que desfila suas memórias para um jornalista (Christian Slater). O roteiro de Anne Rice proporciona uma viagem de dois séculos pela história ocidental, indo de 1792 em New Orleans até os dias atuais em San Francisco, passando pela gótica e vitoriana Paris do século XIX. A saga inicia no momento em que Louis é transformado em vampiro, por um Lestat solitário e carente. O ritmo é tranqüilo, o espetáculo visual é grandioso, e Neil Jordan nos brinda com excelentes interpretações, incluindo a fantástica performance de Kirsten Dunst como Claudia, vampira de 9 anos de idade que forma uma família excêntrica e incomum com Louis e Lestat (a quem ela chama de “pai” e “mãe”). A participação de Antonio Banderas é pequena e eficiente, e Stephen Rea dá o toque final ao compor Sebastian, aterrorizante morto-vivo que vive nos subterrâneos de um teatro parisiense (referência bacana a Louis Feuillade, primeiro cineasta a filmar vampiros, em 1915). Não é obra-prima, mas é ótimo.

A Warner lançou o filme em DVD simples, de dupla face, com a mesma versão do filme, mas formatos de tale diferentes: widescreen anamórfico no lado A, e fullscreen no lado B. Ambas possuem áudio Dolby Digital 5.1. Não há extras.

– Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire, EUA, 1994)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Brad Pitt, Tom Cruise, Kirsten Dunst, Antonio Banderas, Stephen Rea
Duração: 123 minutos

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