Equilibrista, O

07/07/2009 | Categoria: Críticas

Narrado em ritmo de thriller, documentário resgata uma história não apenas curiosa, mas que encapsula um ato de resistência cultural cada vez mais raro em tempos de globalização

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O dia 7 de agosto de 1974 amanheceu claro e frio em Nova York. Uma névoa suave envolvia os prédios enormes da área chique de Manhattan, particularmente as duas torres gigantes do World Trade Center. Pouco antes das 7h, os poucos nova-iorquinos que se dispuseram a interromper o tradicional andar apressado pelas ruas do centro financeiro e olharam para cima puderam vislumbrar um espetáculo único. Durante pouco mais de 30 minutos, um francês meio doido caminhava numa corda bamba, atada entre as extremidades das duas torres, indo de um lado para o outro. Com essa insólita atitude de resistência cultural, Philippe Petit cravava seu nome em um rodapé de página da história do século XX.

Um dos grandes méritos de “O Equilibrista” (Man on Wire, EUA/Reino Unido, 2008), documentário vencedor do Oscar 2009 que reconstitui cuidadosamente a façanha de Petit, é o resgate desse evento histórico que, após dissipada a névoa de excentricidade e excitação que o envolvida, parecia fadado ao esquecimento. Atos iconoclastas como esse, desafiadores da lógica material que rege a sociedade contemporânea, são importantes porque restabelecem uma verdade inerente à condição humana: o princípio fundamental do prazer que nos faz homens nunca está ligado diretamente a coisas materiais – carreira, dinheiro, mulheres – mas sim a experiências estéticas.

Esta é a verdade fundamental do filme de James Marsh. A abordagem adotada pelo diretor demonstra a compreensão que ele tinha desse fenômeno, difícil de descrever em palavras. Marsh se abstém de julgar a atitude de Phillippe Petit. Não o apresenta como louco visionário, nem como excêntrico maluco-beleza, nem como acrobata marqueteiro, nem como porra-louca de plantão. Petit era tudo isso – ou nada disso – e mais um pouco. Em resumo, era um ser humano que cultivou um sonho durante anos, como todos nós. No caso do francês, um sonho delirante e absolutamente desnecessário, mas que ele teve a tenacidade necessária para levar adiante, superando todos os obstáculos que apareceram pelo caminho. É por isso que a trajetória de Philippe Petit é tão encantadora, tão alto astral, tão intensa e, sobretudo, tão humana.

James Marsh conta essa história como se estivesse narrando um thriller cheio de suspense. Sim, todos estamos cansados de saber como a aventura de Petit terminou, mas Marsh sabe que a tensão não precisa estar ligada ao conhecimento prévio do final. Ele usa uma série de técnicas ficcionais – inclusive a justaposição de depoimentos dos personagens da narrativa que focalizam divergência internas no grupo que forneceu suporte logístico para a aventura de Petit – para manter a platéia em um estado permanente de tensão.

Não raro, Marsh cria parênteses narrativos que ampliam ainda mais o suspense. Um bom exemplo está no modo como o diretor narra a preparação, no dia anterior, da corda que seria utilizada por Phillippe Petit. A certa altura, o diretor interrompe a narração e deixa que os participantes do plano descrevam, em detalhes minuciosos, a dramática passagem de um segurança pelo andar onde Petit e os colegas estavam escondidos, para instalar o cabo de aço entre as torres. Embaixo de uma lona, sem poder se mexer ou fazer qualquer barulho, os rapazes tiveram que esperar durante longos minutos até que o guarda finalizasse a inspeção, entre goles de café e conversas via rádio com outros seguranças. A montagem das entrevistas é tão bem feita que torna-se impossível não prender a respiração.

O sucesso da estratégia narrativa utilizada por James Marsh fica patente quando o documentário se aproxima do final, e o momento glorioso de Phillippe Petit caminhando entre as duas torres surge na tela. Embora a platéia já conhecesse esse final de cor e salteado, o sentimento que sobra é de catarse, de satisfação – ali está um homem realizando o sonho de uma vida. Embora o documentário termine com uma nota melancólica, sobra a sensação estimulante de que “O Equilibrista” é um filme necessário, que resgata uma história aparentemente apenas curiosa, e que na verdadeencapsula um ato de resistência cultural cada vez mais raro em tempos de globalização.

O DVD do filme é um lançamento da Califórnia Filmes. Aspecto de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) são originais.

– O Equilibrista (Man on Wire, EUA/Reino Unido, 2008)
Direção: James Marsh
Documentário
Duração: 94 minutos

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