Era do Gelo 2, A

04/07/2006 | Categoria: Críticas

Continuação do sucesso de 2002 abre mais espaço para Scrat, o esquilinho alucinado, e agrada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O destino do personagem Scrat, durante a produção do filme “A Era do Gelo” (2002), é um bom exemplo de como a atenção ao feeling das platéias pode ser uma atitude benéfica. O desastrado esquilo pré-histórico foi concebido para estrelar apenas o trailer de promoção do longa-metragem, mas não estaria no longa-metragem. Depois de perceber o sucesso do personagem junto à criançada, os diretores da animação decidiram inseri-lo na história e criaram algumas cenas adicionais com ele. Na opinião geral, Scrat acabou sendo a melhor coisa do filme de 2002. Por isso, é natural que o enredo da continuação, “A Era do Gelo 2” (Ice Age 2: The Meltdown, EUA, 2006), abra mais espaço para o personagem.

A decisão, bastante lógica, foi tomada pelo brasileiro Carlos Saldanha logo nos estágios de desenvolvimento da história. Saldanha, co-diretor do primeiro exemplar da franquia, é o segundo homem na hierarquia do estúdio Blue Sky, o braço de animação da Fox, e pilota sozinho, pela primeira vez, um lançamento animado em grande escala. O resultado é muito bom. Embora não possua o toque mágico dos filmes da Pixar, “A Era do Gelo 2” tem charme, subindo um degrau no nível já excelente das animações da Blue Sky e mostrando uma história encantadora que passeia com naturalidade por diferentes gêneros, como aventura, comédia, romance e suspense.

Em linhas gerais, “A Era do Gelo 2” funciona como uma fusão do mundo família da Disney (“O Rei Leão”) com as comédias amalucadas de Chuck Jones (criador do Papa-Léguas e do Pernalonga). De fato, o longa-metragem de 91 minutos tem duas histórias correndo em paralelo. A principal reencontra os três personagens principais do filme de 2002: o mamute Manny, o tigre dentes-de-sabre Diego e o bicho-preguiça Sid. A outra, claro, mostra a interminável batalha do esquilo Scrat para conseguir uma noz.

Ao contrário do primeiro exemplar da franquia, quando as intervenções de Scrat eram esparsas, em “A Era do Gelo 2” o esquilinho frenético aparece regularmente, a cada 10 minutos de projeção, em cenas divertidíssimas que levam a criança às gargalhadas. O desastrado bichinho fica preso no gelo, entra em guerra contra uma águia e, claro, provoca uma gigantesca avalanche que compromete o futuro do vale onde vivem Manny, Diego, Sid e dezenas de outros animais. Inspiradas diretamente nas aventuras do Papa-Léguas, as seqüências cartunescas envolvendo Scrat funcionam como pequenos esquetes alucinadas que são, de longe, os melhores momentos de “A Era do Gelo 2”.

Não que o resto do filme seja fraco. Longe disso. A história principal mostra Manny, Diego e Sid liderando uma multidão de animais para longe do vale gelado onde viviam, pois as avalanches provocadas pelo esquilo anunciam um degelo global que promete inundar o vale em questão de dias. Ameaçados pelo dilúvio, os animais então iniciam uma migração que ecoa histórias bíblicas, como a Arca de Noé e o êxodo do Egito. Carlos Saldanha, no entanto, é esperto o suficiente para jamais insinuar diretamente qualquer conotação religiosa. O foco do filme, tanto no enredo coletivo quando nos dilemas pessoais de cada personagem, é a necessidade de enfrentar o medo do desconhecido para progredir, uma lição que os pequenos espectadores podem transportar para as próprias vidas sem grande esforço.

Uma das melhores sacadas do longa-metragem é a forma desenvolta como passeia por gêneros diferentes, sem que o ritmo do filme como um todo seja afetado. A história envolvendo Manny, que acredita ser o último mamute do planeta até descobrir uma fêmea da própria espécie, é um ótimo exemplo. O desabrochar sexual do gigante peludo é uma excelente oportunidade para o filme flertar com o romance (aliás, a seqüência noturna que mostra os dois mamutes conversando sob a luz de vaga-lumes é mais bonita do que qualquer afetação de “Memórias de uma Gueixa”), mas Saldanha não esquece que o público-alvo é formado por crianças, e apimenta a história com fartas doses de comédia – Ellie, a pretendente, foi criada por marsupiais, e pensa ser um deles.

Além do sexo, outro tema espinhoso tratado com simplicidade pelo filme é a morte. Em certa seqüência que lembra visualmente o primeiro “Tubarão”, quando o congelamento já criou lagos enormes dentro do vale dos animais, um predador aquático ataca e devora uma tartaruga. A morte é descoberta pelo companheiro do animal, uma espécie de cágado pré-histórico, em uma cena dura: a carapaça vazia da morta é cuspida de dentro do lago e cai ao lado do bicho. O cágado não hesita e encerra a cena com uma piada hilária: “alguém aí deseja comprar uma casa pré-fabricada?”. Bem legal.

Outro tópico de destaque é a qualidade da animação. Dessa vez, os animadores da Blue Sky tiveram que criar os visuais de duas dezenas de espécies de animais pré-históricos, sendo que muitos deles tinham cenas com diálogos. Isso exige um tratamento diferenciado na elaboração das faces (os bichos precisam ter expressões faciais ligeiramente humanizadas, para que o público consiga perceber o que eles estão sentindo). O resultado é sensacional: abutres, tamanduás, veados e lontras estão entre os bichos pré-históricos que ganham versões animadas perfeitas.

O trabalho visual da Blue Sky, que já havia sido excelente em “Robôs” (2005), continua espetacular, o que fica evidente, por exemplo, na maneira como os animadores constroem pêlo digital com perfeição, algo que pode ser conferido quando o mamute Manny é mostrado de perto; sozinho, o personagem tem dois milhões de pelos, cujo movimento é controlado individualmente. Aliás, os mamutes são a melhor demonstração de como pequenos detalhes fazem a diferença, no campo da animação: é possível distinguir o macho da fêmea apenas observando as presas dos dois animais. As linhas dos dentes de Manfred são mais distorcidas, fazendo-o mau-humorado e ameaçador; já Ellie tem presas com linhas mais suaves e harmônicas, quase arredondadas, bem femininas. É uma maneira criativa de ilustrar a diferença de machos e fêmeas.

Experientes com a produção do primeiro filme, em 2002, os animadores da Blue Sky também fazem um trabalho excepcional na criação dos cenários. As superfícies translúcidas do gelo são construídas e iluminadas de forma brilhante, aparecendo opacas quando há sombras e espelhadas quando existe sol. Dessa vez, também o desafio de realizar cenas subaquáticas é vencido sem problemas. Tudo bem, você pode dizer que “A Era do Gelo 2” não traz nada de 100% original, nem na história e nem na técnica de animação. Não está errado. O maior mérito do filme do brasileiro Carlos Saldanha é usar a melhor tecnologia disponível para construir, com criatividade, um produto redondo e saboroso para a criançada.

O DVD da Fox tem cópia de excelente qualidade, com qualidade perfeita de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen 2.35:1 anamórfico).

– A Era do Gelo 2 (Ice Age 2: The Meltdown, EUA, 2006)
Direção: Carlos Saldanha
Animação (vozes de Diogo Vilela, Cláudia Jimenez, Márcio Garcia)
Duração: 91 minutos

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