Era do Gelo 3, A

30/09/2009 | Categoria: Críticas

Longe de ser obra-prima, terceira parte da série supera as anteriores em vibração selvagem e diversão para crianças

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Pergunte a qualquer pessoa, inclusive aquelas ligadas ao meio cinematográfico, quem é o diretor brasileiro mais prestigiado internacionalmente na primeira década do século XXI. As respostas vão oscilar entre Fernando Meirelles (a maioria, provavelmente) e Walter Salles Jr. (a turma mais ligada ao cinema “de arte”). Ninguém, ou quase ninguém, vai lembrar de mencionar o nome do carioca Carlos Saldanha. No entanto, esse cara é o principal artífice pela construção de uma das mais sólidas franquias da animação digital contemporânea. “A Era do Gelo 3” (Ice Age 3: Dawn of the Dinossaurs, EUA, 2009), terceira parte da série, supera as anteriores em vibração selvagem e diversão para crianças.

Esse esquecimento tem algo de revelador, e não apenas relacionado ao nome de Saldanha. O fato de o cineasta ser radicado em Nova York, tendo construído a carreira inteiramente lá e dirigido filmes que nada – ou pouco – têm a ver com o Brasil, certamente influi na pouca fama que ele desfruta no Brasil. Ainda mais sintomático é o fato de Saldanha jamais ter trabalhado com filmes live action (atores de carne e osso), o que expõe mais uma vez o preconceito com que as animações infantis são encaradas pelo público em geral, e mais ainda pelo especializado.

No entanto, os filmes dirigidos por Carlos Saldanha não apenas têm orçamentos bem mais generosos (“A Era do Gelo 3” foi feito com US$ 90 milhões), mas são vistos por bem mais gente. A franquia, na verdade, é a mina de ouro da Fox no terreno mais lucrativo do cinema do século XXI – as animações dirigidas ao público infantil. Embora produzidas pelo pequeno estúdio Blue Sky, do qual Saldanha é o segundo nome no comando, essas animações são financiadas e distribuídas internacionalmente pela major.

Repare que nada disso tem relação direta com a qualidade do trabalho. “A Era do Gelo 3”, como de resto toda a série que apresenta as aventuras pré-históricas de um mamute (Manny), uma preguiça (Sid), um tigre dentes-de-sabre (Diego) e um esquilo enlouquecido (Scrat), não chega perto do nível de excelência de qualquer longa-metragem da Pixar, a empresa top de linha do setor. Nem no aspecto puramente tecnológico, e muito menos na narrativa. O que os filmes da turma de John Lasseter têm de ressonância emocional, “A Era do Gelo 3” tem de diversão alucinada e descerebrada.

Neste terceiro exemplar, o grande acerto de Saldanha foi apostar diretamente no estilo mais anárquico e cartunesco de Chuck Jones, o grande animador da Warner nos anos 1950. Nos dois primeiros filmes, apenas as gags incluindo o esquilinho Scrat investiam nesse tipo de humor estridente (pense em Pernalonga e Papa-Léguas); neste aqui, uma espécie de road movie em alta velocidade, em que os personagens da franquia passeiam por um mundo desconhecido que têm enorme influência do primeiro “King Kong” (1933), todos os esquetes abraçam com força o estilo acelerado e energético.

O resultado é uma espécie de montanha-russa inesgotável, com ação incessante e generosas doses de humor. Pode-se reclamar do excesso de personagens (além do quarteto citado, remanescente do primeiro filme, temos uma mamute-fêmea e duas doninhas meio doidas que se juntaram à trupe no segundo longa, o mais fraco de todos; uma nova doninha – ainda mais maluca – uma esquilo-fêmea voadora e um grupo de dinossauros incha o elenco para uma quantidade proibitiva de personagens, capaz de dar nó nas cabeças das crianças menores), mas não dá para negar que o resultado final oferece muita[os ganchos para gargalhadas e as melhores piadas de toda a série.

Curiosamente, o genial esquilinho Scrat, que roubava a cena toda vez que aparecia nos dois primeiros longas, ganhou um interesse romântico que dilui um bocado o humor anáquico de seus esquetes. Em “A Era do Gelo 3”, é outro personagem que se destaca – a doninha solitária Buck, cujo longo período vivendo num mundo perdido abaixo da superfície gelada do planeta lhe deixou com um (ou vários) parafusos frouxos. As muitas cenas estilo montanha-russa, com os personagens viajando à velocidade da luz, são outro destaque. Esqueça as lições de morais bobocas sobre o onipresente tema “família” e curta sem pensar muito. Melhor assim.

O DVD da Fox, simples, traz o filme com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio OK (Dolby Digital 5.1).

– A Era do Gelo 3 (Ice Age 3: Dawn of the Dinossaurs, EUA, 2009)
Direção: Carlos Saldanha
Animação
Duração: 94 minutos

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