Era do Rádio, A

15/12/2009 | Categoria: Críticas

Cheio de esquetes baseadas em recordações de infância de Woody Allen, filme está encharcado de nostalgia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um dos mais obscuros trabalhos assinados por Woody Allen, “A Era do Rádio” (Radio Days, EUA, 1987) é freqüentemente comparado com o clássico italiano “Amarcord” (1973), de Federico Fellini. As semelhanças são óbvias: são dois filmes compostos de esquetes isolados, sem relação entre si, que celebram a nostalgia da infância. A produção de Woody Allen filtra, através das recordações de um moleque judeu filho de uma família de classe média baixa, como era passar a infância na NovaYork dos anos 1940. Com um elenco numeroso e uma trilha sonora de puro jazz, Allen ousa encontrar no rádio o fio condutor de uma história encantadora, embriagada de nostalgia.

Por que o rádio? Porque era a mídia que havia naqueles dias, quando os Estados Unidos saíam da Grande Depressão e atravessavam a II Guerra Mundial. A televisão ainda não havia invadido os lares, o cinema era diversão de fim de semana. A família, cuja noção é elemento forte do enredo, era um conceito mais compacto e importante do que é nos dias de hoje. Depois do jantar, os filhos e pais, tios e avós se reuniam na sala para escutar a música das grandes orquestras de jazz e ouvir seriados de aventura (Zorro), enquanto batiam papo despretensiosamente, fofocando sobre os vizinhos ou sobre os seios da menina que morava na esquina.

As memórias daquele tempo de glamour e aparências, quando as pessoas comuns imaginavam os atores de voz grave do rádio como deuses gregos (quando eram, na verdade, tão velhos e baixinhos e carecas quanto a maioria de nós), são filtradas por Woody Allen através dos olhos de uma criança. Joe (Seth Green) é um pirralho magro e ruivo que mora nos arredores na praia de Rockaway. Além de espiar as garotas da vizinhança e esperar ansiosamente pela próxima aventura do Justiceiro Mascarado, a maior diversão do menino é vigiar o mar chuvoso e encapelado, procurando possíveis submarinos nazistas. A família de Joe é extremamente numerosa. O filme relembra episódios de diversas pessoas ligadas a ele, como a tia solteirona (Dianne Wiest) que procura desesperadamente um marido.

Produzido numa época em que o diretor e roteirista estava extremamente inspirado, “A Era do Rádio” consegue se safar sem dificuldade do maior problema deste tipo de produção, baseada em esquetes: a irregularidade. Praticamente todas as cenas rendem gags e piadas engraçadíssimas. Logo na abertura, por exemplo, você acompanha a história dos ladrões que atenderam ao telefone depois de arrombar uma casa deserta na vizinhança (a família havia saído para jantar). Era um concurso de rádio. O ouvinte tinha que adivinhar os nomes de três canções. Se conseguisse tal feito, ganhava uma mobília completa. O empolgado ladrão acerta todas as alternativas antes de roubar tudo e ir embora, mas a tristeza da família só dura uma noite, já que na manhã seguinte um caminhão da rádio pára na porta da casa e entrega os novos móveis.

Declaradamente autobiográfico, o roteiro busca inspiração na realidade em diversos personagens e episódios verdadeiros (a famosa transmissão de rádio de Orson Welles, sobre a invasão dos marcianos, rende um esquete hilariante). A reconstituição de época é fascinante, a começar pelas músicas, e o elenco gigantesco impressiona – Allen reuniu quase cinco dezenas de atores, boa parte deles colaboradores habituais do diretor, incluindo Dianne Wiest, Jeff Daniels e as duas maiores musas da carreira dele, as ex-mulheres Diane Keaton e Mia Farrow. Difícil mesmo é explicar porque um filme tão delicioso continua semi-desconhecido no Brasil.

O filme foi lançado no Brasil em DVD pela Fox. A edição é simples e não contém extras. O filme tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– A Era do Rádio (Radio Days, EUA, 1987)
Direção: Woody Allen
Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Diane Keaton
Duração: 85 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »