Era uma Vez na América

04/12/2006 | Categoria: Críticas

Épico operístico sobre mafiosos judeus de Nova York é exemplo perfeito da habilidade de Sergio Leone

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Entre todos os grandes diretores, dois em particular aprenderam a manipular o tempo cinematográfico (a duração de um acontecimento visto na tela, que nem sempre é igual ao que teria a mesma cena na vida real) com uma perícia que superou os demais colegas. Um deles, Alfred Hitchcock, se tornou uma unanimidade. O outro, Sergio Leone, nem tanto. Mas é certo que nenhum outro cineasta a não ser Leone, nem mesmo o mestre inglês do suspense, conseguiria construir uma seqüência tensa e angustiante a partir da mais trivial das imagens do cotidiano: um homem mexendo açúcar numa xícara de café. Esta cena está em “Era uma Vez na América” (Once Upon a Time in America, EUA, 1984). Ela é quase imperceptível dentro da narrativa épica de quase quatro horas, mas ilustra perfeitamente como funciona o cinema operístico – um cinema grandioso, maior que a vida – de Leone.

Trata-se de um momento de confronto entre os dois personagens principais do filme, os amigos Noodles (Robert De Niro) e Max (James Woods). Ambos são mafiosos judeus violentíssimos, que organizaram uma gangue mafiosa em Nova York e dirigem juntos o negócio, mas andam se estranhando. Naquele instante em particular, estão a ponto de brigar – e os demais membros da gangue sabem que se isso acontecer, vai haver sangue. Desta forma, o silêncio dentro da sala é absoluto. Ouve-se apenas o ruído da colher de Max batendo contra as paredes de porcelana branca da xícara. O barulho soa cada vez mais alto. A câmera corta entre planos gerais e close ups dos homens dentro da sala, chegando cada vez mais perto do nariz de cada um. Eles se entreolham. Suam. Ao fim de dois minutos, todos (a platéia também) estamos de músculos esticados e respiração presa. Um filme não pode gerar mais tensão do que isto. Agora pense: que outro diretor conseguiria um resultado semelhante sem parecer involuntariamente cômico?

“Era Uma Vez na América” foi o projeto da vida de Leone. Embora tenha ficado famoso dirigindo faroestes – “Três Homens em Conflito” (1966) é um dos maiores filmes dos anos 1960 – o italiano jamais deixou de sonhar com uma narrativa épica sobre o século XX nos Estados Unidos. Para Leone, não era à toa que os EUA tinham se tornado a maior potência do planeta. A nação norte-americana unia em partes iguais elementos aparentemente incompatíveis: finesse e truculência, bom gosto e vulgaridade, pendor artístico e violência. Cultura e barbárie conviviam sem contradições na alma de um norte-americano típico, pelo menos para Leone. O diretor queria explorar este conceito em uma narrativa nostálgica sobre os velhos e os novos tempos da máfia. Imagine “O Poderoso Chefão”, ainda mais solene e ambicioso. Se havia alguém capaz de transformar uma idéia dessas em um filme que não parecesse um pastiche sem sentido, era Sergio Leone.

O cineasta levou quase dez anos (1966-1975) para tomar coragem de apresentar o projeto a estúdios norte-americanos, os únicos com dinheiro suficiente para bancar a empreitada. Foram necessários outros nove anos (1975-1984) para erguer o filme, ao custo de US$ 30 milhões. Neste meio-tempo, muitas batalhas. Leone só conseguiu entrar nos sets amarrado por uma série de cláusulas contratuais que lhe tiravam a liberdade da montagem final, e este detalhe gerou muito desgosto ao diretor nos meses subseqüentes. A primeira edição, que jamais viu a luz do dia, tinha 250 minutos. Os executivos da Warner obrigaram o diretor a encurtar a metragem para 139 minutos. Lançado o filme, tome bomba: críticas ruins, bilheterias piores. Com o tempo, uma versão ampliada para 236 minutos chegou aos cinemas europeus, fez sucesso, e acabou por aterrisar nos EUA, para uma nova rodada de apreciação, desta vez positiva. O aperreio, contudo, acabou por debilitar a saúde do italiano, que morreu em 1989, aos 60 anos, sem conseguir filmar de novo.

Não precisava. Na obra relativamente curta que deixou, Leone refinou um estilo único, que nenhum outro diretor logrou igualar. Era um diretor de extremos, que adorava os contrastes épicos criados pela contraposição de tomadas panorâmicas (com a câmera colocada o mais longe possível dos personagens) e planos fechadíssimos (invariavelmente, rostos). A música vibrante de Ennio Morricone, que o acompanhou por toda a carreira, e a montagem sempre personalista, que incluía sua marca registrada – esticar o tempo cinematográfico de certas cenas, como a citada na abertura deste texto – lhe garantiram uma assinatura autoral amplamente reconhecível. Todas estas características estão presentes em “Era Uma Vez na América”. Não é o melhor filme do cineasta italiano, posto que cabe ao inigualável “Três Homens em Conflito”, mas funciona como uma das maiores óperas cinematográficas sobre o soerguimento da maior potência econômica dos nossos tempos.

Para dar conta de uma tarefa tão ambiciosa, Leone remou contra a maré. Nada de contar a vida de um figurão; para ele, a verdadeira força dos EUA residia nos anônimos, os pés-rapados estavam no lugar certo e na hora certa, e sabiam explorar bem a rara combinação de cultura e barbárie que é inata naquela sociedade. Sendo assim, Leone estruturou seu filme através de uma narrativa em três tempos: juventude, vida adulta e velhice de um grupo de bandidos judeus do Brooklyn, o bairro operário de Nova York. Os dois líderes são os já citados Max e Noodles. Juntos, estes dois sujeitos enigmáticos, que equilibram candura e psicopatia, sairão do nada para construir um império criminoso. Leone narra a trajetória dos dois em retrospectiva, através das memórias de Noodles, enquanto um telefone solitário toca em algum lugar do passado.

É impressionante observar o completo domínio dos elementos fílmicos de Leone. Observe, por exemplo, as transições elegantes e sempre impecáveis entre os três tempos (passado, presente e futuro), feitas de modo tão fluido que a platéia não tem como se confundir, apesar do enorme número de personagens coadjuvantes e ações paralelas acontecendo na tela. Tudo parece tão simples que os espectadores menos atentos sequer notarão os saltos de décadas. Além disso, a parte visual, concebida pelo escudeiro fiel Tonino Delli Colli, é espetacular, repleta de panorâmicas gloriosas em tonalidades pastéis, que evocam um passado nostálgico. Claro: há inúmeras referências a “O Poderoso Chefão”, mas seria burrice se Leone não considerasse, na hora de pensar o visual do filme, a absurda popularidade do épico de Coppola junto à platéia. Nenhum fã de Al Pacino e Marlon Brando engoliria uma história sobre a máfia que não comprasse as mesmas soluções visuais desenvolvidas por Coppola e seu fotógrafo Gordon Willis.

Outro destaque está na nostálgica trilha sonora de Morricone; trata-se de um dos grandes momentos da carreira deste que é, talvez, o maior maestro do cinema contemporâneo. É a música poderosa e evocativa que estabelece o tom de “passado” do filme, e Morricone providencia que o inesquecível tema principal seja executado de modos diferentes a cada nova cena – um arranjo de cordas aqui, uma versão mais pesada e percussiva acolá. Um dos personagens do filme até mesmo assobia a melodia em alguns momentos, uma piada genial tornada possível pelo hábito excêntrico do diretor, que supervisionava a confecção da banda sonora antes das filmagens.

O elenco gigantesco não deixa a peteca cair. A qualidade das interpretações é tão homogênea que Robert De Niro não consegue se destacar sozinho, compondo um personagem que parece sempre à margem dos outros, um tanto deslocado – o que é absolutamente correto, já que Noodles possui uma personalidade solitária, sempre procurando evitar maiores envolvimentos emocionais com a quadrilha. Como destaques, preste atenção na fascinante Tuesday Weld (a tardia e ninfomaníaca esposa de Max) e na beleza insinuante de uma jovem Jennifer Connelly, que interpreta Deborah, a amada de Noodles, quando jovem. Há, ainda, o comentadíssimo e interessante final, que não é conclusivo a respeito do destino do personagem Max.

Se tudo isso não for suficiente, veja com muita atenção a seqüência maravilhosa em que um dos garotos da gangue judia decide perder a virgindade com uma prostituta-mirim do bairro, uma gulosa adolescente que troca sexo por doces. Pobre como o diabo, o menino compra uma apetitosa bomba de creme na padaria e vai à casa dela. Enquanto espera que a garota acabe de tomar banho, ele namora o doce, sentado na escada. Abre o pacote, olha o interior, lambe os beiços, fecha. Abre de novo, tira a cereja, põe de volta, fecha. Coça o barbante, esconde a mão no bolso. O final da cena não importa – este é outro exemplo magnífico de como Sergio Leone, como nenhum outro diretor, sabia manipular o tempo cinematográfico do jeito que queria, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Como se fosse Deus.

O longa-metragem teve o privilégio de ser o primeiro DVD lançado no Brasil, através da Flashstar, em 1998. A edição simples, contudo, era bem fraca, com som (Dolby Digital 2.0) e imagem (fullscreen) abaixo da média. Depois, a Warner lançou uma edição especial dupla, com o filme distribuído nos dois CDs, em cópia excelente (imagem widescreen anamórfica, som DD 5.1), e um pequeno documentário (25 minutos) completando o pacote.

– Era uma Vez na América (Once Upon a Time in America, 1984)
Direção: Sergio Leone
Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld
Duração: 236 minutos

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