Era Uma Vez no México

20/03/2004 | Categoria: Críticas

Robert Rodriguez faz tudo nessa aventura estilosa e divertida, que só decepciona por causa do roteiro confuso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Orson Welles é protagonista de uma lenda famosa sobre os anos de ouro de Hollywood. Segundo a história que contam, depois de ter feito o revolucionário “Cidadão Kane”, Welles estava tão fascinado com o mecanismo de produção de filmes que exclamou, extasiado: “o cinema é o melhor trenzinho que um garoto pode ter”. O modo de encarar os filmes como uma brincadeira lúdica e meio inconseqüente parece criar uma ponte entre um dos maiores gênios da Sétima Arte e o cineasta texano Robert Rodriguez. Para o sujeito, fazer um filme é exatamente o que Orson Welles achava que era. Mas a semelhança entre ambos acaba por aí.

“Era Uma Vez no México” (Once Upon a Time in México, EUA, 2003), o primeiro filme de Rodriguez a fugir da temática infanto-juvenil desde “A Balada do Pistoleiro” (1995), repete os mesmíssimos maneirismos do autor desde a estréia dele no cinema, em, “El Mariachi” (1992). Essas três obras, aliás, formam uma espécie de trilogia torta. Atenção: quem usa a palavra “trilogia”, nesse caso, é o próprio. O fato de os três filmes compartilharem um protagonista não faz deles uma trilogia, até porque não foram concebidos assim.

Em tese, “Era Uma Vez no México” pretende dar um passo mais ambicioso na carreira muito singular do cineasta. Antes dele, Rodriguez havia dado um tempo na produção de filmes adultos para criar e aperfeiçoar um estúdio independente de produção de filmes, montado na própria casa dele. Para levantar custos e bancar o projeto, Rodriguez criou uma franquia de filmes mirins, “Spy Kids”, transportando o universo dos agentes secretos para o cotidiano de dois pirralhos. Foram três filmes de baixo custo, que lhe renderam alguns milhões de dólares e possibilitaram a concretização do estúdio caseiro. “Era Uma Vez no México” surge como primeiro produto desse bunker independente.

Como filme, é uma aventura de enredo confuso e repleta de citações (“O Corvo”, “O Gabinete do Dr. Caligari”). A começar pelo nome, que dialoga com duas obras-primas do italiano Sergio Leone, “Era Uma Vez na América” e “Era Uma Vez no Oeste”. Leone também inspira o protagonista de Rodriguez. El Mariachi (Banderas) parece uma versão pós-moderna do homem sem nome de Leone, que Clint Eastwood imortalizou, com um poncho mexicano sobre os ombros e um cigarro no canto da boca. Um sujeito de poucas palavras, sem rumo, sem ambições e com uma ética muito particular, mas dono de um talento insuspeito com uma arma de fogo nas mãos.

De certa forma, contudo, a estrela do filme é Johnny Depp, excelente como o agente secreto Sands. Celular no ouvido, Sands conduz uma armação para provocar um golpe de estado, eliminar um barão do tráfico de drogas e embolsar alguns milhões de dólares. Cada um dos vértices dessa trama, porém, tem sua própria idéia de como lidar com a situação – e o personagem de Banderas fica com a incumbência, sugerida pelo enredo, de amarrar as pontas soltas. O problema é que, pelo jeito, Rodriguez se preocupou demais em fazer um filme visualmente bem cuidado. O roteiro ficou em segundo plano, e isso fica evidente a partir da metade do filme. “Era Uma Vez no México” não tem ritmo nem criatividade narrativa.

Pena, porque dos demais pontos de vista, trata-se de um agradável projeto de filme de aventura. As cenas de ação são bem dosadas e produzidas impecavelmente, assim como a música mexicana que permeia todo o longa. Há um senso de humor pop inteligente, sem frescuras, muito bem-vindo. Aliás, cá entre nós, a presença de Mickey Rourke já é impagável, porque o cara fez tanta plástica no rosto que não consegue mais emitir nenhuma expressão facial – ou seja, não consegue interpretar, e acaba provocando gargalhadas involuntárias. Johnny Depp e Banderas, no contrapeso, oferecem duas interpretações deliciosamente exageradas, acertando no tom caricato.

O resultado disso tudo é um filme agradável, mas desequilibrado pelo roteiro tosco, que não combina com a fotografia refinada, toda produzida com câmeras digitais. Aliás, talvez esse seja o longa que melhor utiliza essa tecnologia, já que grande parte das locações eram externas, e é sabido que as câmeras digitais possuem limitações claras para filmagens nesse tipo de ambiente, pois captam a luz de forma exagerada – algo que Rodriguez soube driblar com maestria. Como sabemos que o cineasta escreveu, dirigiu, editou, fez os efeitos especiais e a música, é possível até afirmar que a polivalência do texano, dessa vez, atrapalhou. Com um roteiro mais coeso, o resultado poderia ser brilhante, ao invés de apenas agradável.

– Era Uma Vez no México (Once Upon a Time in México, EUA, 2003)
Direção: Robert Rodriguez
Elenco: Antonio Banderas, Johnny Depp, Willem Dafoe, Salma Hayek, Mickey Rourke
Duração: 104 minutos

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