Eragon

03/04/2007 | Categoria: Críticas

Sem alma, aventura épica juvenil cria mistura de “O Senhor dos Anéis” com “Star Wars”, temperado com pitadas de “Harry Potter”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O sobrinho de um humilde fazendeiro encontra um artefato misterioso que pode transformá-lo num poderoso líder previsto em uma profecia, e passa a ser perseguido por feiticeiros e guerreiros a mando do malvado soberano local, um rei com poderes sobre-humanos. Parece um coquetel de “O Senhor dos Anéis” com “Star Wars”, temperado com pitadas de “Harry Potter”? E é. O filme em questão é o épico infanto-juvenil “Eragon” (EUA, 2006), um subproduto derivado das três séries citadas, produzido na esteira do sucesso dos filmes baseados em Tolkien e J.K. Rowling. Apesar de rico e tecnicamente competente, “Eragon” jamais consegue ultrapassar o nível de cópia pálida dos longas em que se inspira.

Dirigido pelo estreante Stefan Fangmeier, o longa-metragem aglutina diversos ingredientes das três séries, em uma história que gira ao redor de um protagonista com traços combinados de Luke Skywalker, Frodo Bolseiro e Harry Potter, os três principais personagens das séries citadas. Estão lá as belas paisagens naturais, as criaturas fantásticas (dragões, magos, elfos, vilões sobrenaturais) construídas em computador, longas lutas de espadas, simbolismos religiosos e ação escapista, tudo isso contando a jornada de amadurecimento de um rapaz. Embora narrada de maneira correta, “Eragon” nunca empolga, carecendo da profundidade emocional que temas como o sacrifício pessoal e a tentação do poder, eram trabalhados nas séries famosas. Ademais, as semelhanças com “O Senhor dos Anéis”, “Star Wars” e “Harry Potter” são tão abundantes que quase colocam a produção de Stefan Fangmeier na categoria de plágio.

Essa semelhanças já existiam no material original, o livro de mesmo nome publicado pelo adolescente Christopher Paolini em 2001. Concebido como trilogia quando o autor tinha apenas 15 anos, o romance aproveitou o crescente interesse por histórias épicas gerado pelos filmes de Peter Jackson e fez grande sucesso, sendo imediatamente comprado pela Fox. O estúdio então contratou Fangmeier, um experiente técnico em efeitos especiais (“Desventuras em Série”), para dirigir a aventura, alocando um orçamento de US$ 100 milhões e mesclando no elenco jovens estreantes, como o protagonista Ed Speelers, e veteranos de talento comprovado, como Jeremy Irons, John Malkovich e Robert Carlyle.

O maior problema do longa-metragem é, sem dúvida, o excesso de semelhanças da história com as séries fantásticas mais famosas. A progressão dramática é uma combinação quase clonada dos enredos das três franquias. A história gira em torno de Eragon (Speelers), um jovem órfão criado por um tio na zona rural do reino de Alagaesia. Ele encontra uma pedra azul durante uma caçada na floresta, um artefato parecido com um certo anel que conhecemos. Logo descobre que o objeto é, na verdade, um ovo de dragão, animal que se acreditava extinto. Quando nasce, o dragão Safira (voz de Rachel Weisz) desenvolve amizade telepática com Eragon, que acredita ser o messias descrito numa antiga profecia, sobre o aparecimento de descendente de antiga raça de cavaleiros (alguém falou “Star Wars”?). Ele seria o único ser com poder suficiente para derrotar o malvado rei Galbatorix (John Malkovich), uma mistura de Darth Vader com Sauron e Voldemort.

O tirano, que governa o reino com mão de ferro, não demora a tomar ciência do aparecimento de um dragão. Também conhecedor da profecia, decide cortar o mal pela raiz, evitando possíveis rebeliões, igualzinho a um certo andróide de máscara negra. Dá então ao feiticeiro Durza (Robert Carlyle), um espectro poderoso que parece uma encarnação jovem do mago Saruman, a missão de encontrar e destruir o jovem Eragon. Para fugir da perseguição, o adolescente é obrigado a cruzar um vasto território montanhoso e ir procurar refúgio na única fortaleza conhecida de homens rebeldes, mais ou menos como a segunda parte de “O Senhor dos Anéis” narrou. Conta, para isso, com a proteção do veterano Brom (Jeremy Irons), um cavaleiro aposentado, que lhe ajuda a lidar com o dragão Safira e também lhe ensina alguns segredos das artes mágicas, da mesma maneira que Aragorn fez com Frodo. Até mesmo o interesse romântico de Eragon, uma princesa élfica, remete diretamente aos tomos escritos por Tolkien cinco décadas antes.

Do ponto de vista cinematográfico, Stefan Fangmeier também adota a mesma estratégia visual, repetindo todos os cacoetes de Peter Jackson: tomadas panorâmicas de vales e cachoeiras impossíveis, planos aéreos circulares para enfatizar a passagem do tempo durante as viagens de Eragon, batalhas noturnas com uso farto de CGI (a seqüência final mistura a batalha de encerramento de “As Duas Torres” com dragões). Tudo é muito bem feito, mas sem alma e sem o ritmo contagiante que Peter Jackson soube imprimir tão bem à sua trilogia épica.

O maior destaque é o dragão Safira, criado em computador com bom nível de detalhes, mas a solução cinematográfica utilizada para mostrar a comunicação telepática entre o herói e o animal (o espectador ouve os pensamentos dos dois) exprime perfeitamente a falta de criatividade da direção, gerando cenas quase vexatórias, em que o rosto de uma criatura mítica enche a tela enquanto uma doce voz feminina soa ao fundo, como se pertencesse a outro filme. Em resumo, “Eragon” é para adolescentes a fim de pipoca e guaraná. Só isso.

O DVD nacional, da Fox, não tem extras. O filme aparece com boa qualidade de imagem (wide anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Eragon (EUA, 2006)
Direção: Stefan Fangmeier
Elenco: Ed Speelers, Jeremy Irons, Robert Carlyle, Sienna Guillory
Duração: 104 minutos

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