Escola do Rock

29/09/2004 | Categoria: Críticas

Jack Black se junta a crianças que tocam música de verdade em DVD delicioso para quem curte rock’n’roll

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

No elogiado “Alta Fidelidade”, o ator Jack Black interpretava um vendedor de loja de disco alternativa, um tipo meio seboso mas muito simpático, fanático por música barulhenta e cheio de energia. O personagem impagável ressurge, com outro nome e ocupação, na comédia “Escola de Rock” (School of Rock, EUA, 2003), uma delícia de filme para quem gosta desse tipo de música. O guitarrista Dewey Finn, composto por Black, parece uma aventura solo do mesmo gordinho do filme de Stephen Frears. E isso é ótimo.

Não vale a pena perder muitas linhas descrevendo a trama de “Escola de Rock”, pois estamos falando de uma comédia norte-americana tradicional para adolescentes. Nesse aspecto, o filme é montado sobre o mesmo esqueleto de trama que já foi filmada centenas de vezes. Finn é um guitarrista falido que acaba de ser demitido da banda em que toca. Para pagar o aluguel, ele se faz passar por um amigo e aceita um emprego de professor numa escola primária. A idéia inicial é apenas faturar uns trocados enquanto monta um novo grupo, mas o plano logo evolui para algo mais ousado, quando Finn descobre que algumas das crianças a quem deve ensinar têm talento musical.

Dito assim, o filme parece bobo e infantil demais. De certa forma, é. Mas existem dois charmes inquestionáveis no filme do diretor alternativo Richard Linklater (que fez o excêntrico e verborrágico “Waking Life”). O primeiro é a atuação empolgante de Jack Black, cheia de improvisos, caras e bocas. O segundo é a interação impressionante que o comediante consegue junto às desconhecidas crianças com quem contracena.

Na verdade, o diretor Linklater exigiu que todas as crianças fossem instrumentistas de verdade, e não atores. Portanto, todas tocam seus instrumentos muito bem. Como Jack Black também é músico e tem uma banda de sucesso nos EUA, a Tenacious D, a química é completa. O resultado transforma “Escola de Rock” no primeiro filme de ficção em que os atores realmente conhecem os instrumentos que estão tocando. E o melhor é que Linklater conseguiu extrair boas performances dos astros mirins.

Além disso, é claro, há uma trilha sonora impecável para quem gosta de rock’n’roll clássico: AC/DC, Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, The Clash, Ramones, Stooges, Cream e Metallica, só para citar algumas. Quem conhecem bem o repertório do rock de arena feito nos anos 1970 e 1980 corre o sério risco de ter orgasmos múltiplos consecutivos. A cena em que Jack Black ensina os garotos a tocar “Iron Man” (Sabbath) e “Smoke On The Water” (Purple), por exemplo, é digna os maiores elogios, pois simula exatamente aquilo que acontece um primeiro ensaio de banda adolescente. Quem já suou a camisa em alguma garagem vai se reconhecer imediatamente na cena.

De quebra, o filme ainda tece uma crítica nada lisonjeira à geração MTV, através da “filosofia” de vida de Dewey Finn, que resgata os primeiros anos do rock (alguém mais ligado ao cancioneiro brasileiro vai lembrar imediatamente de Raul Seixas) e enfatiza a importância de rebelar-se contra toda e qualquer autoridade. Para ser curto e grosso, “Escola de Rock” é um filme muito bacana, uma comédia leve e muito bem dirigida, com atuações espontâneas que transformam a obra em algo muito além do roteiro previsível sobro o qual foi construído.

Para completar, “Escola do Rock” possui, talvez, as imagens mais interessantes que acompanham créditos num filme feito em Hollywood: uma longa jam session cheia de improvisos verdadeiros, travada entre Black e as crianças, ao som do velho clássico “It’s a Long Way To The Top (If You Want Rock’n’Roll)”, do AC/DC, a verdadeira inspiração do ator (e do filme como um todo, como você pode conferir na foto que ilustra essa página). Não perca.

O DVD é ótimo: além do filme, possui uma trilha de áudio com comentários de Jack Black e Richard Linklater e um ótimo documentário documentário de bastidores, tão engraçado quanto o filme. E ainda tem o vídeo hilariante que Jack Black gravou (com uma platéia enorme!), para pedir ao Led Zeppelin (banda que raramente libera canções para filmes) que cedesse a música “Immigrant Song”. Só para constar, o rapaz foi bem sucedido.

– Escola de Rock (School of Rock, EUA, 2003)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Jack Black, Joan Cusack, Mike White
Duração: 100 minutos

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