Escrito nas Estrelas

24/01/2004 | Categoria: Críticas

Comédia romântica no meio da neve de Nova York no Natal não é novidade, mas vira programa garantido para casais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Se o filme espanhol “Os Amantes do Círculo Polar” fosse refilmado em Hollywood, é bem provável que o resultado acabasse semelhante a “Escrito nas Estrelas” (Serendipity, EUA, 2001). Como a obra de Julio Medem, a comédia romântica estrelada por John Cusack trabalha com a questão dos acasos e coincidências na trajetória de um casal. A diferença é que o faz a partir de um registro adocicado demais. Mas, mesmo sendo previsível, “Escrito nas Estrelas” preenche um perfil de filme que o espectador brasileiro costuma gostar.

Se o roteiro (escrito pelo estreante Marc Klein) tivesse uma menor quantidade de reviravoltas mirabolantes, o resultado certamente seria mais simpático. Mesmo assim, a ambientação da película (na congelada e sempre bela Nova York da época natalina, o que justifica o atraso de mais de um ano para a estréia o filme no Brasil) e a naturalidade do casal protagonista marcam pontos a favor do filme. “Escrito nas Estrelas”, aliás, é programa infalível para namorados.

O filme começa em 1990. O corretor Jonathan Trager (John Cusack) e a psicóloga Sarah Thomas (Kate Beckinsale) se esbarram sem querer numa atulhada loja de roupas, enquanto tentam comprar luvas para frio. Um princípio de discussão logo desemboca em paquera explícita. Encantados um com o outro, eles fazem o circuito tradicional dos namorados em comédias novaioquinas: saem para jantar, andam de patins e passeiam no Central Park. Mas há um problema: os dois namoram parceiros diferentes. Por sugestão dela, deixam ao destino a tarefa de uni-los (ou não). Um diz o nome ao outro, mas não os telefones; ela anota o dela num livro que vende num sebo, enquanto ele rabisca o dele numa nota de 5 dólares e a passa à frente.

Já a partir desse momento, é impossível não perceber que o filme tem dono, e ele se chama John Cusack. Basta dizer que o livro escolhido pela garota é “Amor nos Tempos do Cólera”, do colombiano Gabriel Garcia Marquez (para refrescar a memória: o mesmo romance é citado numa das boas piadas do filme anterior do ator, “Alta Fidelidade”). Infelizmente, “Escrito nas Estrelas” não mantém o bom nível dessa nem da comédia anterior que o ator produziu, “Matador em Conflito”. É possível até dizer que Cusack começa a dar sinais de esgotamento criativo.

Os primeiros dez minutos são a melhor coisa do filme. O texto é sedutor, Cusack faz o que sabe fazer melhor (interpreta a ele mesmo) e Kate Becksinsale está mais linda do que nunca. Mas eis que a ação dá um salto de dez anos. Os dois estão prestes a casar com outros, mas nunca foram capazes de esquecer a noite mágica que viveram juntos. Sem saber, começam a se procurar. E é aí que o filme ultrapassa a fronteira das coincidências e acasos fortuitos (algo que “Os Amantes do Círculo Polar” trabalha à perfeição) para enveredar por uma trama complicada, absolutamente inverossímil.

Ok, há algumas piadas bacanas, a maioria envolvendo os melhores amigos de cada par (Jeremy Piven, também interpretando ele mesmo, pois conhece Cusack desde pirralho, e Molly Shannon, sempre engraçada). O problema é que a sutileza é trocada por um verdadeiro de bombardeio de coincidências, numa sucessão de acontecimentos que fazem o ato de ganhar sozinho na Sena acumulada parecer trivial. O roteiro dá tantos nós – e termina de forma tão previsível – que acaba irritando um pouco. Menos mal que a duração é curta (90 minutos) e o charme dos protagonistas acaba garantindo a diversão.

O DVD do longa tem um documentário de bastidores de rotina, comentário em áudio do diretor Peter Chelsom, um punhado de cenas cortadas da edição final e alguns trailers de outros lançamentos. A imagem está em fullscreen, com cortes laterais. Apesar disso, a mutilação não tem tanta importância, já que a cinematografia do filme é banal e não apresenta nada demais.

– Escrito nas Estrelas (Serendipity, EUA, 2001)
Direção: Peter Chelsom
Elenco: John Cusack, Kate Beckinsale, Molly Shannon
Duração: 90 minutos

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