Espanglês

10/08/2005 | Categoria: Críticas

James L. Brooks faz comédia inteligente que aborda a questão da falta de comunicação dentro dos núcleos familiares

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Títulos de filmes às vezes dão uma impressão errada do conteúdo. “Espanglês” (Spanglish, EUA, 2004) é um excelente exemplo dessa sentença. O filme, escrito e dirigido por James L. Brooks, tem como personagem principal uma garota mexicana que se muda para Los Angeles (EUA), a fim de trabalhar como empregada doméstica. A sinopse apenas reforça a idéia de que o tema central do longa-metragem é o choque de culturas – a hispânica de um lado, a Wasp (sigla que designa os habitantes de origem anglo-saxônica dos EUA) do outro. Há, sim, elementos dessa temática nesta comédia romântica incomum, mas eles não são o foco principal da narrativa.

Na verdade, reconhecer o tema de “Espanglês” é uma tarefa que expõe um ponto fraco do filme: não há, a rigor, um tema central. O filme faz comentários interessantes sobre a questão do choque cultural, mas não se detém nele. No início, parece querer lidar com o tópico das diferenças de gerações, já que existem três delas representadas no núcleo central de personagens, mas passa em branco. De minha parte, acredito que James L. Brooks preferiu abordar a questão da falta de comunicação dentro dos núcleos familiares. É este o tema mais recorrente e, de certo modo, isso justifica o título do longa, que faz referência à ligação que dois personagens experimentam no decorrer da trama.

De qualquer maneira, essa indefinição temática não atrapalha o desenvolvimento de um filme charmoso, sensível, com personagens interessantes e várias seqüências deliciosas, tanto cômicas quanto trágicas. “Espanglês” também confirma a excelência de James L. Brooks para conduzir elencos. Lembre-se: ele foi o cineasta responsável por “Melhor É Impossível”, que deu dois Oscar a Jack Nicholson e Helen Hunt. Aqui, ele extrai desempenhos uniformemente notáveis de atores díspares, como o comediante Adam Sandler, a espanhola Paz Vega (de “Lúcia e o Sexo”), a veterana Cloris Leachman e a versátil Téa Leoni.

Apesar da ótima qualidade geral das interpretações, ganham destaque as duas garotas de 12 anos que integram o elenco. Shelbie Bruce é a personagem que narra o filme, Cristina Moreno, uma garotinha hispânica adorável. Ela é simpática, inteligente e possui um tino especial para os negócios; quando Adam Sandler diz às crianças que elas ganharão dinheiro se juntarem seixos coloridos na praia, ela passa um dia inteiro recolhendo pacientemente pedras em um pequeno balde, até juntar o montante de US$ 640!). Já Sarah Steele faz a gorducha Bernice, uma simpatia de criança com coração de ouro. As duas são fundamentais para fazerem o filme funcionar, especialmente a primeira, que tem papel central da seqüência mais engraçada da película.

“Espanglês” gira em torno de Flor Moreno (Paz Vega). A mexicana migra ilegalmente para os EUA a fim de morar com parentes em Los Angeles, a cidade com maior comunidade hispânica do país. Contando com o apoio de uma prima, Flor arranja dois trabalhos dentro da própria comunidade, e estabelece uma rotina confortável para si e para a filha Cristina. Por isso, não precisa aprender inglês. Seis anos depois, no entanto, ela fica sem um dos empregos, o que a obriga a ter que arrumar trabalho fora da comunidade. Cristina acaba indo parar na casa dos Clasky. Patra alguém que não fala inglês, trabalhar numa resiência em que ninguém entende espanhol pode ser bem complicado.

A família é composta de mãe, pai, dois filhos e sogra. Deborah (Leoni) é a mãe. Arquiteta desempregada, jovem e bonita, ela fala pelos cotovelos, é um tanto histérica e certamente egocêntrica. Além disso, mantém uma relação conturbada com o marido John (Sandler), “o maior chef de cozinha dos EUA”, segundo o New York Times. Ele é um sujeito tranqüilo, o contraponto ideal para a metralhadora verbal que é Deborah. Os dois protagonizam uma cena de sexo das mais hilariantes que o cinema já mostrou, gargalhada amplificada pela excelente performance do par. Mas há algo de podre por trás da rotina da dupla, um algo que John Clarsky tenta desesperadamente evitar, mas que fica evidente quando Flor entra na vida dos dois.

Como bom diretor de atores, James L. Brooks abre generoso espaço para cada personagem. A pequena Bernice (Shelbie Bruce), por exemplo, aparece pouco, mas funciona como uma espécie de catalisadora dos conflitos que envolvem a relação difícil entre Flor e Deborah. A entrada de Cristina na alquimia, quando os Clasky vão passar o verão em uma casa na praia rica de Malibu, põe mais pimenta no problema. Deborah se apega à menina de forma surpreendente, o que causa ciúmes em Flor e evidencia ainda mais a frágil relação entre mãe e filha da família Clasky.

O personagem mais rico e complexo, no entanto, é mesmo John. Muito mais lúcido do que a esposa, ele é um sujeito carinhoso e atento, que procura preencher a ausência da esposa, seja física ou emocional, no cotidiano da família. O chef dá aos filhos o carinho que a mãe não consegue demonstrar. John é um homem devoto à família, mesmo que isso signifique ter uma paciência infinita com Deborah e ceder 20% do rico restaurante que possui ao cozinheiro-chefe, apenas para poder passar mais tempo com os garotos. Em outras palavras, um sujeito que não liga para fama e fortuna e prefere qualidade de vida, ou seja, alguém que trafega na contramão do sonho americano.

Os laços que ligam esses personagens se apertam e se afrouxam durante 130 minutos, gerando uma comédia de costumes de primeira qualidade. Ainda por cima, o filme é temperado com diálogos divertidos e saborosos, e pelo menos um par de cenas deliciosas. Na melhor delas, Flor decide desabafar com John a respeito dos verdadeiros sentimentos que nutre para com a família Clasky, e utiliza a própria filha, que fala inglês perfeito, como intérprete. O timing cômico da cena é nunca menos do que perfeito.

Para ser impecável, contudo, o longa-metragem poderia dispensar a moldura da narração (o filme é contado em retrospectiva por uma Cristina cinco anos mais velha), que inclui uma lição de moral um tanto estúpida no final do filme. A tal narração cheira a interferência do estúdio para explicar em excesso um filme que, a rigor, se basta. Mas isso é apenas um detalhe, nada que atrapalhe a agradável estadia de duas horas com as famílias Clasky e Moreno.

O DVD da Columbia é bem legal. Tem o filme (imagem widescreen original, som Dolby Digitasl 5.1), comentário em áudio do diretor e dos dois editores, uma galeria de 12 cenas cortadas (com comentários de Brooks), um documentário da HBO (30 minutos), e até um pequeno segmento (5 minutos) com um chef ensinando a receita do prato que John prepara para Flor em certo momento do longa-metragem.

– Espanglês (Spanglish, EUA, 2004)
Direção: James L. Brooks
Elenco: Adam Sandler, Paz Veja, Téa Leoni, Shelbie Bruce
Duração: 130 minutos

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