Espetacular Homem-Aranha, O

05/07/2012 | Categoria: Críticas

Quarto exemplar da franquia do herói é um misto de remake e continuação do filme de 2002, que substitui o tom cartunesco e colorido por uma atmosfera mais realista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A idéia daquilo que se tornaria “O Espetacular Homem-Aranha” (The Amazing Spider-Man, EUA, 2012) começou a martelar a cabeça do produtor e ex-presidente da Marvel, Avi Arad, em 2006. Não se trata de especulação, mas de uma informação confirmada por Arad em várias entrevistas. Considerando que a primeira aparição do herói nos cinemas havia acontecido apenas quatro anos antes, um pergunta inevitável toma forma: por que cargas d’água o homem forte da editora já estava, em tão pouco tempo, planejando contar de novo a origem do Homem-Aranha? Qual a necessidade disso? Afinal, apenas 10 anos depois do primeiro filme de Sam Raimi sobre o herói – “Homem-Aranha”, de 2012 –, somos brindados com um misto de remake e continuação daquele longa-metragem. Um enigma que vale uma reflexão.

Antes de mais nada, é bom estabelecer a base sobre a qual esse raciocínio deve acontecer. “O Espetacular Homem-Aranha” não é um filme ruim. Como de hábito em produções desse tamanho, o título tem ótimos efeitos visuais, interpretações coerentes de um elenco qualificado (Andrew Garfield, jovem que acumulou muita experiência na TV e nos palcos de Londres, é uma escolha particularmente feliz para o papel principal) e algumas das cenas de ação mais interessantes que uma montanha de dinheiro – nada menos que US$ 215 milhões, para ser exato – pode comprar. O que questiono é a necessidade de gastar metade da longa duração da trama (136 minutos) contando de novo a origem do herói.

Sim, o grande problema de “O Espetacular Homem-Aranha” parece estar no roteiro, assinado por Alvin Sargeant (veterano script doctor em Hollywood, que trabalhou nas duas continuações do filme de 2002), Steve Kloves (autor de sete dos oito longas de Harry Potter) e James Vanderbilt (“Zodíaco”). É estranho perceber que três nomes consagrados levaram tanto tempo trabalhando num roteiro que repisa, praticamente cena por cena, toda a primeira metade do “Homem-Aranha” de 2002. Da visita de Peter Parker (Garfield) a um laboratório que faz experiências genéticas ao primeiro confronto com o vilão Lagarto (Rhys Iphans), nascido de experiências parecidas como o Duende Verde do primeiro filme, o título de 2012 repisa a mesma trama: a picada da aranha radioativa, a descoberta desastrada dos poderes, os confrontos com os grandalhões da escola, a primeira paixão, o treinamento-aranha, o figurino-aranha, e por aí adiante.

Claro que nem o diretor Marc Webb (o sobrenome é um convite irresistível ao trocadilho, mas não o farei), nem os produtores e nem os roteiristas mencionam a palavra remake, mas chamar “O Espetacular Homem-Aranha” de reboot também não parece muito honesto. A verdade é que toda a primeira metade do filme refaz a trajetória já bem conhecida por todos os fãs do herói, com pequenas alterações na trama (a inclusão dos pais de Parker conectando-o ao vilão) e principalmente no tom. E se o contexto familiar é um agradável acréscimo, a eliminação do ar cartunesco que era marca registrada da série nos tempos de Sam Raimi cai muito mal ao Homem-Aranha.

Nesse ponto está talvez o equívoco mais grave do longa. Talvez inspirados pelo sucesso do Batman hiper-realista desenhado por Christopher Nolan, os roteiristas deram ao Aranha uma roupagem semelhante. Ocorre que a paleta fria e o tom cinzento (literal e figurativamente falando) dos filmes do Homem-Morcego combinava bem com o soturno e atormentado herói, assim como o humor adolescente e as cores quentes e brilhantes casavam com o herói vibrante e cheio de hormônios que é o Homem-Aranha. Mesmo que o jovem diretor Marc Webb (que fez o elogiado e o romance adolescente pós-moderno “500 Dias com Ela”) tenha dosado a mão nesse tom realista, ainda assim temos uma atmosfera um tanto inadequada a uma história sobre a auto-descoberta de um garoto em idade escolar.

No entanto, nada disso incomoda mais do que a sensação de estar vendo a mesma trama refeita uma década depois por outro diretor – e essa sensação só aumenta durante a primeira hora de projeção. Em que pese esse problema, “O Espetacular Homem-Aranha” finalmente decola quando o Aranha e o Lagarto estão plenamente desenvolvidos. A decisão de manter o réptil gigante como único vilão do filme foi muito acertada, pois dá tempo para desenvolver razoavelmente a caracterização do cientista do mal; os vôos do super-herói sobre os arranha-céus de Manhattan empolgam de verdade (em especial as incríveis tomadas em primeira pessoa, influenciadas pela estética visual dos jogos eletrônicos e certamente ajudando a vender alguns milhões de dólares a mais deles); e o confronto final evita a incômoda sensação de que o herói não está sendo verdadeiramente ameaçado (comum em filmes desse gênero), ao incluir no centro da ação uma ameaça real a um personagem humano importante e, até certo ponto, inesperado. Entre mortos e feridos, salvam-se todos… mas vamos combinar: pelo menos nesse caso, o termo “reboot” fica como sinônimo de “remake” de luxo, OK?

– O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, EUA, 2012)
Direção: Marc Webb
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Martin Sheen
Duração: 136 minutos

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