Espiã, A

07/05/2008 | Categoria: Críticas

Só um cineasta como Paul Verhoeven é capaz de filmar o despertar do sexo durante uma guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Depois de sofrer seguidas decepções no comando de grandes produções para estúdios de Hollywood, o cineasta holandês Paul Verhoeven decidiu que a melhor maneira de reciclar as energias seria voltar à terra natal e retomar um projeto acalentado durante duas décadas. “A Espiã” (Zwartboek, Holanda/Bélgica/Inglaterra/Alemanha, 2007) aborda o funcionamento da Resistência holandesa ao nazismo, aspecto pouco conhecido de um dos temas mais surrados do cinema ocidental – a Segunda Guerra Mundial –, através da narração da jornada dramática de uma bela mulher holandesa, de origem judia, tentando sobreviver ao Holocausto.

A inspiração para o longa-metragem surgiu ainda em 1977, durante as pesquisas que realizava para o filme “Soldado de Laranja”, que tornou Verhoeven e o ator Hutger Hauer (“Blade Runner”) conhecidos em todo o mundo. A idéia de contar uma história relacionada aos rebeldes que resistiram à ocupação nazista na Holanda foi acalentada durante 20 anos por Verhoeven, e enquanto o cineasta desenvolvia uma carreira explosiva em Hollywood, com filmes cheios de sexo, violência e polêmicas, o roteirista Gerard Soeteman trabalhava sem pressa na história. Foi só em 2000, após o relativo fracasso do thriller “Homem Sem Sombra”, que o diretor decidiu filmar o épico de guerra.

O filme ainda demorou sete anos para ficar pronto, devido às dificuldades de encontrar financiadores, na Europa, capazes de arcar com os 16 milhões de euros que a produção exigia. De fato, Verhoeven poderia ter eliminado tanto tempo de espera, caso houvesse procurado abrigo em algum estúdio norte-americano, mas as experiências negativas do diretor com produções em Hollywood lhe deixaram a certeza de que nenhum projeto pessoal poderia ser levado a cabo, exatamente do jeito que ele queria, caso o dinheiro envolvido viesse dessas empresas. Para viabilizá-lo, Verhoeven voltou a morar na Holanda e recusou seguidas propostas para comandar produções de ação como “Robocop” e “Instinto Selvagem”, que lhe fizeram rico e famoso.

Levando em conta essas condições de trabalho que o cineasta estabeleceu para si mesmo, é curioso que “Black Book” exiba tantos vícios do cinema norte-americano. Esses vícios incluem trilha sonora grandiloqüente, montagem veloz que privilegia momentos de ação e evita cenas de caráter mais intimista, e fotografia grandiosa, de textura épica, abusando de gruas e tomadas panorâmicas com a câmera nas alturas. Juntas, essas características imprimem ao filme o tom solene de um grande melodrama de guerra. Se o tratamento estético de “A Espiã” está bem próximo do estilo hollywoodiano de filmar, por outro lado a liberdade criativa permitiu a Verhoeven construir uma protagonista que encaixa perfeitamente no cinema explosivo e sensual do diretor.

Rachel (Carice van Houten) é uma bela jovem holandesa de classe média que tem a vida posta em xeque após a invasão da Alemanha nazista, em 1944. Separada da família e enfrentando seguidas tragédias pessoais, ela acaba se juntando a um núcleo da Resistência holandesa e passa a combater os nazistas, recebendo uma missão extremamente arriscada: se envolver sexualmente com um alto oficial alemão (Sebastian Koch) e espionar o quartel-general de Hitler, repassando informações estratégicas aos rebeldes. A história erguida por Verhoeven passa ao largo dos clichês habituais dos filmes de guerra, incluindo espiões que trabalham para os dois lados, traidores misteriosos, nazistas de boa índole e até mesmo falsos heróis da Resistência. Espere por revelações bombásticas até os últimos segundos de projeção.

Como se não bastasse tudo isso, Verhoeven ainda encontra espaço para acompanhar o desabrochar da sexualidade da protagonista, mantendo em muitos instantes a guerra como pano de fundo. Em uma seqüência particularmente safada, a câmera fetichista de Verhoeven espia Rachel – loira e rebatizada de Ellie – pintando os pêlos pubianos para compor de modo mais eficaz a linda personagem da cantora de cabaré que vai se insinuar para o capitão da SS. “Como arde!”, exclama a garota, abanando o sexo, em uma imagem que oferece uma metáfora nada sutil (como é hábito no cinema do holandês) para a sexualidade vulcânica da mulher, prestes a explodir. Não é um grande filme, mas tem bons momentos e faz jus ao nome de Paul Verhoeven.

O DVD de locação, da Europa Filmes, traz apenas o filme, com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Black Book (Zwartboek, Holanda/Bélgica/Inglaterra/Alemanha, 2007)
Direção: Paul Verhoeven
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn
Duração: 145 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »