Espírito da Colméia, O

17/03/2010 | Categoria: Críticas

Bela e difícil, estréia de Victor Erice mistura com habilidade e alegorias intrincadas temas políticos e filosóficos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O espanhol Victor Erice tinha 33 anos ao estrear na direção cinematográfica de longas-metragens com a estranha e bela fábula alegórica “O Espírito da Colméia” (El Espiritu de la Colmena, Espanha, 1973). Foi um início de carreira arrebatador. A obra venceu o prestigiado Festival de San Sebastian e decolou, em uma trajetória vitoriosa que acumulou prestígio ao longo dos anos, a ponto de ter sido votada por cinéfilos do país de origem como terceiro melhor filme espanhol de todos os tempos, em votação realizada em 1996. É um título justo para um filme belo e difícil, que usa técnicas de realismo fantástico para pôr uma criança no centro de uma história que une dois temas duros e aparentemente inconciliáveis – a política e a filosofia.

Exibindo enorme segurança narrativa e olho privilegiado para compor imagens de luz e textura inesquecíveis, Erice ousa entrelaçar, com muita habilidade, dois temas que raramente aparecem juntos num mesmo longa-metragem. Através de alegorias intrincadas, o drama rural traça um panorama pessimista e tristonho da alienação e do isolamento provocados pela guerra civil espanhola, sem soar em nenhum momento engajado ou mesmo doutrinador. Ao mesmo tempo, acompanha com delicadeza o processo de tomada de consciência, pela pequena protagonista, da inevitabilidade da morte. Talvez seja um dos retratos mais bonitos e pungentes desta fase melancólica da infância de todos nós.

A história traz como protagonista Ana (Ana Torrent), filha de seis anos de um apicultor. Ela freqüenta a escola de uma aldeia isolada, na área rural da Espanha, junto com a irmã mais velha, Isabel. Certo dia, um comboio itinerante exibe para os estudantes o clássico de horror “Frankenstein” (1931), de James Whale. Fascinada pela figura do monstro, Ana não entende muito bem o que ocorreu na mais famosa cena do filme (aquela em que ele mata sem querer uma menina, jogando-a num lago). Com os parentes sempre distantes e em crise – o pai passa os dias cuidando de colméias, enquanto a mãe espera em vão um amor do passado que nunca surge – ela busca respostas com a irmã, que está mais próxima.

Meio de brincadeira, Isabel diz a Ana que as mortes da criança e da criatura são pura fantasia cinematográfica. Ela garante que o monstro está vivo e mora num galpão abandonado perto da casa delas. Segundo Isabel, Frankenstein é um fantasma, e sua aparência externa grotesca, no longa exibido para os meninos, é apenas uma roupa. Excitada com a possibilidade de encontrar e conversar com a criatura, Ana passa a freqüentar o tal galpão com assiduidade, ainda que ele esteja quase sempre vazio. É lá que ela vai manter um encontro inesperado que mudará para sempre sua maneira de ver a vida.

Trata-se de uma bela história. Impressiona, sobretudo, pela destreza com que o então inexperienteErice conseguiu construir e sustentar metáforas complexas e originais para traduzir a sensação de isolamento que a Espanha experimentava na época, sob a cruel ditadura de Franco. Em certo momento, por exemplo, o pai ensina as crianças a observar o “movimento histérico das abelhas na colméia”. O espectador mais atento vai observar que as janelas do casarão velho e escuro onde vive a família têm a aparência de gomos de mel. A colméia, portanto, simboliza a residência da família, que por sua vez vive sem conseguir se comunicar, com os membros em permanente mutismo, distantes entre si.

Erice ilustra essa incomunicabilidade filmando os quatro moradores da casa sempre em planos distintos – não há uma única tomada em que pai, mãe e filhas apareçam todos juntos. Em uma leitura ainda mais ousada, é possível ainda compreender o casarão como uma metáfora para a própria Espanha: um lugar dividido, em que a crise é claríssima e evidente, mas ninguém tem coragem de abordá-la. Corajosamente, o cineasta não se põe em nenhum lado, tecendo apenas um lamento pungente pela situação em que o país se encontra. E faz isso de modo sutil, sem jamais mencionar diretamente a guerra civil que rachava o país em dois.

No meio de tudo isso, ele encontra espaço para abordar a jornada pessoal da criança, que gradativamente começa a tomar consciência desta situação de crise, ao mesmo tempo em que percebe o significado da morte e todas as suas conseqüências. Se é belíssimo, contudo, “O Espírito das Colméias” é também um filme extremamente difícil. A ausência quase completa de diálogos, bem como as longas tomadas com a câmera estática, emprestam ao filme um ritmo bastante lento. Dão a ele, também, um caráter reflexivo, já que absolutamente nada é exposto diretamente. Tudo precisa ser deduzido a partir da observação atenta – e os longos silêncios auxiliam o espectador na tarefa de desvendar os significados ocultos das belas imagens em tons de mel, erigidas pelo excepcional fotógrafo Francisco Cuadrado. Um lindo filme.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Lume Filmes. A edição tem cópia restaurada com ótima qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 1.0), mas não há extras. Vale observar, também, que a semelhança com a fábula adulta “O Labirinto do Fauno” (o olhar infantil, que mescla realidade e fantasia, abordando a guerra civil espanhola) direcionou a atenção de cinéfilos mais jovens para a obra, mas o resultado final dos dois longas é bem diferente.

– O Espírito da Colméia (El Espiritu de la Colmena, Espanha, 1973)
Direção: Victor Erice
Elenco: Ana Torrent, Isabel Tellería, Teresa Gimpera, Fernando Fernán Gómez
Duração: 97 minutos

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