Espíritos – A Morte Está a seu Lado

16/10/2006 | Categoria: Críticas

Produção barata da Tailândia investe na lenda urbana sobre fotos que mostram fantasmas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Desde meados dos anos 1990, o cinema asiático tem provocado um interesse incomum nos cinéfilos do ocidente. Os filmes de horror de países como Japão e Coréia do Sul, em particular, garantiram para si um nicho confortável entre os fãs do cinema fantástico, inclusive provocando muitos remakes em Hollywood (“O Chamado” e “Água Negra”) e exportando cineastas para a indústria mais rica do planeta (Hideo Nakata, de “Ringu”). Essa invasão ganhou um representante tailandês na virada de 2004 e 2005: “Espíritos – A Morte Está a seu Lado” (Shutter, Tailândia, 2005), filme de dois diretores novatos que chamou a atenção dos aficionados e logo provocou interesse em Hollywood por uma refilmagem.

Como o interesse pelo cinema de horror da Ásia também é crescente no Brasil, o longa-metragem original ganhou uma chance nos cinemas daqui. Por si só, esse fato é bastante positivo, uma vez que normalmente essas obras são ignoradas ou acabam relegadas ao mercado de home video (leia-se DVDs). O lançamento nos cinemas, com distribuição decente, mostra que finalmente uma cinematografia não-Hollywoodiana está conquistando uma fatia generosa do mercado áudio-visual no Brasil. Pena que, dentre tantos e tão bons exemplares desse gênero que a Ásia vem produzindo, “Espíritos” seja um dos mais fracos.

Na verdade, o maior atrativo da produção tailandesa, campeã de bilheteria no país de origem em 2005, está na lenda urbana que gerou a sinopse. O roteiro, dos diretores
Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom e do também estreante Sopon Sukdapsit, cria uma história envolvendo aquelas famosas fotografias que mostram manchas e silhuetas de supostos espíritos. Fotos desse tipo existem aos montes, e não falta quem realmente acredite que elas flagram ocorrências sobrenaturais verdadeiras, um conceito que o filme discute bem, especialmente na seqüência que mostra a visita do casal protagonista à redação de uma revista especializada nessas fotos macabras.

A narrativa é muito simples e a história, pouco original. Ela gira em torno do casal jovem Tun (Ananda Everingham) e Jane (Natthaweeranuch Thongmee). Ele é um fotógrafo profissional, ela uma estudante de Fotografia. Ao voltar de uma festa, certa noite, eles acidentalmente atropelam uma jovem. Assustados, fogem do local sem prestar socorro. Pouco depois, as fotos batidas por Tun começam a apresentar silhuetas esquisitas, e não demora muito para que a dupla comece a desconfiar que o espírito da mulher atropelada pode os estar perseguindo. O resto do filme mostra a investigação do casal sobre o que ocorreu. Simples assim.

O orçamento modesto da produção fica evidente já a partir do visual pobre, com iluminação deficiente, mas os cineastas contornam o problema com criatividade nos enquadramentos, já que os ângulos inusitados de câmera são abundantes. Como as imagens captadas são escuras, os diretores usam isso a favor do filme, imprimindo uma sensação constante de presença invisível nas cenas passadas em interiores.Por outro lado, a inexperiência da equipe fica evidente a partir da narrativa hesitante. Não existe uma progressão dramática; cada seqüência parece ter sido construída isoladamente, com o objetivo de construir uma atmosfera crescente de tensão, até explodir em um susto. A impressão geral é que, isoladas, as cenas funcionam direitinho, mas em conjunto não fluem bem, deixando o ritmo irregular. A história emperra demais, andando a passo de tartaruga nos primeiros 40 minutos.

No geral, o filme provoca uma grande quantidade de sustos no espectador, o que é sempre um dado positivo num filme de horror. A má notícia é que não existe nenhuma originalidade nesses sustos, que incluem cenas surradas de cadáveres em banheiras, pesadelos de suor frio, vultos que cruzam quartos e coisas afins, em cenas invariavelmente acompanhadas de notas graves na trilha sonora, todas seguindo o manual padrão do filme de horror. A melhor seqüência, e também a única com humor, se passa num banheiro masculino e envolve um rolo de papel higiênico.

Outro dado negativo é a batidíssima concepção visual do fantasma, que recupera uma imagem já desgastada pela maioria dos filmes de horror asiáticos: uma moça de pele pálida e olhos negros, com cabelo preto longo, usando roupa de colegial. Por sorte, o maior pecado da produção – a falta de originalidade – acaba alguns minutos antes do clímax, que vai na contramão da maioria dos filmes de horror, sendo não apenas corajoso e original, mas gerando uma imagem final horripilante e inesquecível, que acaba apagando parte dos defeitos anteriores da produção.

O DVD é da PlayArte. O filme mantém o enquadramento original (widescreen anamórfico) e possui som OK (Dolby Digital 5.1). Dois trailers, making of e entrevistas em vídeo compõem o cardápio de extras.

– Espíritos – A Morte Está a seu Lado (Shutter, Tailândia, 2004)
Direção: Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
Elenco: Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana, Unnop Chanpaibool
Duração: 89 minutos

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