Esquecidos, Os

17/03/2005 | Categoria: Críticas

Mãe descobre que o filho morto em acidente nunca existiu: grande ponto de partida, final decepcionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Telly Parreta é uma editora de livros infantis com um grande trauma. Há 14 meses, ela perdeu o filho, Sam, em um acidente aéreo que matou outras oito crianças. A tragédia praticamente destruiu a família. Um dia, contudo, Telly chega em casa e descobre que as fotos, os vídeos e tudo o que ela possuía de Sam desapareceu. Ao desespero, se segue o pânico: o psiquiatra com quem ela vem se tratando afirma que Sam, na verdade, nunca existiu. Todas as memórias que Telly possui do garoto, na verdade, teriam sido criadas artificialmente pela mente perturbada da mulher, após um aborto. Uma história incrível, que o marido, Jim, e os vizinhos também confirmam.

A premissa de “Os Esquecidos” (The Forgotten, EUA, 2004) é muito boa. Com um ponte partida original e promissor desses, um bom roteirista poderia criar muitos filmes diferentes, de diversos gêneros. Seria possível fazer um belo drama, enfocando, por exemplo, a maneira como a mente é capaz de pregar peças nas pessoas. Ou um filme de terror sobrenatural à maneira de “O Bebê de Rosemary”. Nas mãos do pouco conhecido Gerald Di Pego (de “Olhar de Anjo”, uma bomba com Jennifer Lopez), virou um estranho híbrido de gêneros que tem bons momentos, mas desagua em um dos finais mais estúpidos e desapontadores dos últimos tempos.

“Os Esquecidos” é o tipo de filme que funciona muito melhor quando a platéia pouco sabe a respeito da trama. Acredite: se você não souber o que acontece depois dos primeiros 20 minutos, quando esse cenário fantástico descrito acima é apresentado ao espectador, vai poder apreciar muito melhor os bons momentos do longa-metragem. Há, nos decorrer da trama, pelo menos duas ou três seqüências capazes de provocar arrepios no mais experiente cinéfilo. Em uma delas, que envolve uma discussão entre Telly e uma detetive que investiga o caso, é bom se preparar para ouvir gritos de pavor na platéia. E isso, quando o assunto é um filme de suspense/terror, sempre é bom sinal.

Melhor ainda é saber que o elenco funciona. Julianne Moore encarna Telly com segurança e autoridade. A performance dela dá credibilidade instantânea ao filme. Dominic West é o parceiro de cena da mulher, no papel de Ash, um ex-jogador de hóquei que virou alcoólatra depois que a filha morreu, no mesmo acidente de avião que o filho de Telly. O elenco de apoio inclui Gary Sinise (de “Forrest Gump”) no papel do psiquiatra. Ele tem poucas cenas, mas conduz bem o personagem. A direção de atores é um dos trunfos do diretor Joseph Ruben.

Ruben também se sai bem nas seqüências mais frenéticas. Um dos grandes momentos do longa-metragem é a tradicional batida de automóveis durante uma perseguição, um dos clichês mais insistentes de Hollywood. A maneira como a cena é construída, contudo, surpreende pela originalidade do ângulo de câmera escolhido. O filme também tem sua dose de personagens misteriosos e eventos inexplicáveis, mas falar mais sobre isso poderia estragar o prazer de se deixar levar alguns sustos memoráveis.

É uma pena que todas essas qualidades sejam estragadas por um roteirista que, em determinado momento, perdeu o controle da criação. Depois de uma ótima abertura e um desenvolvimento apenas mediano, o ato final de “Os Esquecidos” não é apenas pobre; parece um desatino completo. É apressado, superficial e inverossímil. Em determinado momento, por exemplo, passamos a ver Telly literalmente correndo, de um lado para outro, sem saber para onde ir ou que direção tomar. Talvez não seja coincidência; é uma metáfora perfeita para a situação em que se encontravam roteirista e diretor.

Os dois não souberam desenvolver o ótimo ponto de partida que estabeleceram, e conduziram “Os Esquecidos”, com o perdão do trocadilho, rumo ao esquecimento quase completo. Se não fossem os dois ou três sustos que a platéia toma durante a projeção, o filme desapareceria por completo das memórias dos espectadores. Durante os primeiros 60 ou 70 minutos em que você está acompanhando o desenrolar da ação, contudo, “Os Esquecidos” funciona. Ainda que, após a sessão, o sentimento que fique seja de decepção.

O DVD é trivial. O filme aparece em formato widescreen e com som Dolby Digital 5.1. Há um comentário em áudio que reúne diretor e roteirista, além de uma seção com cenas excluídas da montagem final (são três cenas, em 12 minutos, inluindo um final alternativo) e dois documentários de bastidores, somando 34 minutos. Todos os extras são legendados.

– Os Esquecidos (The Forgotten, EUA, 2004)
Direção: Joseph Ruben
Elenco: Julianne Moore, Dominic West, Gary Sinise
Duração: 96 minutos

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