Esqueleto Perdido de Cadavra, O

14/07/2004 | Categoria: Críticas

Homenagem aos filmes B causa polêmica entre críticos, mas é capaz de divertir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O que acontece quando um sujeito fanático por filmes B dos anos 1950 resolve escrever, atuar, dirigir e produzir seu próprio trabalho? A resposta é um dos longas-metragens mais bizarros e polêmicos a aparecer em Hollywood desde, quem sabe, “A Bruxa de Blair”, em 1999. “O Esqueleto Perdido de Cadavra” (The Lost Skeleton of Cadavra, EUA, 2004) pretende ser uma homenagem às centenas de películas de terror e ficção científica que sacudiram a periferia de Hollywood há algumas décadas. Se consegue ou não alcançar o objetivo é o verdadeiro motivo da polêmica.

Não resta dúvida de que “O Esqueleto Perdido de Cadavra” celebra a ruindade cinematográfica de maneira sincera. A própria trajetória da produção comprova isso. Larry Blamire, o cérebro por trás da empreitada, filmou tudo em duas semanas de 2001, numa locação chamada Bronson Canyon, em Los Angeles (trata-se de um matagal que fica nos arredores do observatório da cidade). Blamire usou uma câmera digital amadora e eliminou as cores durante o processo de pós-produção, para deixar o filme preto-e-branco.

O cineasta não esqueceu, é claro, de montar um enredo que recicla todos os clichês imagináveis dos filmes que homenageia. Há dois cientistas (um louco, que quer dominar o mundo, e outro bonzinho, que deseja salvá-lo). Há um mutante radioativo que se apaixona pela mocinha, esposa do cientista bom. Há um casal de alienígenas que pousa na Terra por acidente. Há um esqueleto falante com poderes telepáticos. Há uma mulher feita de partes de corpos de quatro diferentes animais. Há discos voadores, meteoritos, mortes misteriosas, hipnotismo. Puro filme B, não há dúvida.

Blamire copia a fórmula à risca. Isso inclui os créditos espalhafatosos, a trilha sonora estridente, os adereços (nave espacial de papelão e móveis comprados no eBay, de segunda mão), as locações, a péssima fotografia (que reduz os contrastes a um amontado de tons de cinza, com câmera basicamente parada). O requinte é tanto que até mesmo os erros foram copiados: as atuações são calculadamente horríveis, como se todo mundo tivesse o talento de Victor Fasano; os erros de continuidades se espalham por todos os cortes e são intencionais; e a edição exagera nos momentos de “tensão” (a risada maníaca do cientista louco é repetida pelo menos quatro vezes, a cada momento em que ele abre a boca para proferi-la). Argh!

Tanto cuidado rendeu um filme curioso. Fãs do gênero claramente podem ser acometidos orgasmos múltiplos consecutivos ao assisti-lo. Por isso, conseguiram elevar a obra a um status cult, fazendo com que a Sony a comprasse e distribuísse, em fevereiro de 2004. Por outro lado, a maior parte dos críticos – mesmo gente que respeita e curte os filmes B – rejeitou “O Esqueleto Perdido de Cadavra”. A alegação mais comum diz que não é possível produzir um filme intencionalmente ruim; eles só podem surgir naturalmente.

Não deixa de ser verdade. A metáfora é esquisita, mas pense em “O Esqueleto Perdido de Cadavra” como uma dessas bandas bregas vindas do Pará. Elas podem tentar copiar os cantores Carlos Alexandre (pai dos hits “Feiticeira”, “Ciganinha” e “Cadeira de Rodas”) ou Waldick Soriano (“Eu Não Sou Cachorro Não” e “Fuscão Preto”) nota por nota, mas a intenção da cópia é diferente do original. E isso muda tudo.

Se você tentar esquecer desse papo filosófico, no entanto, pode se divertir um bocado. Apesar da inacreditável salada de referências, o roteiro consegue amarrar direitinho todos os elementos dos filmes B em uma trama de coerência razoável (respeitando-se, claro, a lógica irreal dessas obras) e tem alguns diálogos realmente engraçados. Em resumo, o filme mostra as peripécias de três casais em busca de um meteorito recheado com uma substância química rara, que pode tanto salvar quanto destruir a raça humana – pode, também, dar vida ao tal esqueleto do título.

O DVD lançado nos Estados Unidos é muito bem produzido. Traz o filme com áudio Mono 1.0 (até nisso Larry Blamire foi fiel ao gênero), comentário em áudio do diretor junto com quase todos os atores e bastante material extra. Os maiores destaques são uma série de erros de gravação, apresentado com cores, e uma entrevista de meia hora concedida pelo diretor a alunos universitários de Cinema, feita logo após uma exibição do filme. Um adendo importante é que a Columbia Pictures, que adquiriu os direitos do longa, não tem planos de lançá-lo no Brasil, nem no cinema e nem em vídeo. Se estiver interessado, corra atrás do produto importado.

– O Esqueleto Perdido de Cadavra (The Lost Skeleton of Cadavra, EUA, 2004)
Direção: Larry Blamire
Elenco: Larry Blamire, Fay Masterson, Andrew Parks, Brian Howe
Duração: 90 minutos

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